outubro 23, 2003

Somos uma família, uma família de amor

Vejo documentário sobre hippies auto-sustentáveis na TV.
Os hippies têm uma comunidade que chamam de ecovila (do grego oikos, do latim villa). Propõem-se a viver só deles, produzir tudo o que consomem mas... um dos hippies dá entrevista em frente ao computador da comunidade (o sistema operacional é Windows ME, provavelmente pirateado).
Os hippies se gabam o tempo todo de que não usam agrotóxicos.
Grandes coisa!
Ah! Vejam só! Que descoladinho! Então o senhor hippie faz sua própria horta de almeirão! E sem a ajuda de qualquer “coisa artificial” (sem química, como diz minha tia Neuza)! Que exemplo! Que bonito!
Eu cansei de fazer horta sem química quando eu tinha lá meus oito, nove anos. Sabendo preparar bem a terra e jogando muito esterco, realmente dá pra fazer uma bela horta. Eu, sozinho, garanto que faço uma hortona que dá pra seis pessoas terem salada todo dia o ano inteiro.
Nada de extraordinário em fazer horta auto-sustentável. No entanto, senhor hippie, o senhor controla sua “comunidade alternativa” com Windows ME. Nem o senhor, nem 200.000 iguais ao senhor conseguiriam ter um Windows ME auto-sustentável. A sua comunidade só se auto-sustenta em maconha, almeirão e esterco. As suas roupinhas não parecem coisa de gente auto-sustentável, nem os seus óculos, nem o carrinho que o senhor dirige e muito menos esse reloginho digital que eu vejo o senhor usando. Se é pra ser auto-sustentável, proponho um desafio: o senhor hippie e seu grupinho, além de ter a própria água – eles têm um poço e se gabam disso –, além de ter a própria água terão que produzir o próprio computador e o próprio software. Comecem assim: procurem no sítio da comunidade uma jazida de ferro. Depois, extraiam o ferro, acrescentem carbono (procurem minas de grafite ou queimem uma cadeira) e façam aço. Não precisa ser inoxidável... Tendo o metal, já dá pra arriscar fazer o gabinete do computador (antes, façam uma bigorna, um martelo e o seu próprio fogo auto-sustentável). Sem problema se o gabinete sair meio Flinstones, não estou querendo um modelo chique da Apple.
A seguir, achem petróleo. Com o bendito petróleo em mãos, aproveitem para fazer componentes plásticos, etc, etc...
Sugiro também que plantem seringueiras (vai borracha na vedação do HD). Se o computador não sair, pelo menos dá pra fazer umas bolinhas de látex que as crianças da comunidade vão adorar.
Na seqüência, criem também a solda auto-sustentável, as ferramentas auto-sustentáveis, as placas de circuito auto-sustentáveis e o que mais for necessário para fazer o computador (pode ser um CP-200). Uma vez que a máquina esteja pronta, é hora de partir para o software.
Diga para aquele retardado da comunidade que fica o tempo todo tocando violão, obrigando aquelas pobres crianças a repetir dezoito vezes que “somos uma família, somos uma família de amor”, diga para aquele retardado que chega de violão e que agora ele vai desenvolver um sistema operacional com as crianças da comunidade. Não vale usar livro, tudo tem que sair da poderosa e harmoniosa mente hippie. Vale usar as forças da natureza (cristais, elementais, ervas, deusa-mãe, etc) e queimar incenso, se o senhor acha que isso pode ajudar...

Veja, senhor hippie, a sua bostinha de ecovila não faz nada. Nada! Só planta almeirão, maconha, “produz” a própria água e, de quebra, cria uns malas iguais ao senhor (eu não perdôo aquele idiota fazendo as crianças repetirem que “somos uma família, somos uma família de amor”). No entanto, o senhor põe a cara na televisão para sugerir que adotem a porcaria da sua comunidade como modelo. Modelo de quê? De almeirão auto-sustentável?
E tem outra coisa: como o senhor mesmo disse, a tal ecovila não tem renda auto-sustentável (óbvio), sendo que o dinheiro que sustenta essa joça são umas palestras que o senhor sai dando por aí. Como o senhor prega um modelo de comunidade que, além de não conseguir fazer o próprio computador, não consegue sequer ter uma renda decente? Quando todo o mundo for uma ecovila, vamos conseguir dinheiro dando palestras para os ETs? (que, por certo, deverão vir para admirar e dar risada do planeta Ecovila).
Olha, senhor hippie: ...não... deixa pra lá...

Posted by Radamanto at outubro 23, 2003 6:51 PM