agosto 27, 2003

Alguns dos meus traumas

Senti um tranco e saí voando. Bati a cabeça no meio-fio e logo minha camiseta branca estava empapada de sangue. Sentia aquele morninho viscoso escorrendo pelo pescoço, pelo rosto. Uma agradável narcose tomava conta de mim. O asfalto quente queimando minhas pernas e braços era a única coisa que me incomodava. Não fosse por isso, me deixaria dormir gostosamente. O morninho do sangue me servindo de cobertor. Eu devia ter uns 4 anos.

***


Vendo que aquele imbecil não ia parar mesmo, me conformei com o choque. Eu estava na garupa da mobilete. Como o carro veio pelo flanco, acabou que só meu joelho colidiu com a frente do carro. Fiquei solto no ar e meu amigo, que dirigia a mobilete, seguiu uns 15 metros antes de finalmente se estabacar. Lembro-me perfeitamente do momento da colisão e dos segundos a seguir. Meus pensamentos foram: “Sim, realmente bateu. A cabeça! Protege a cabeça! Será que vou chegar a morrer? Ah, vou nada... Ai, começou a pior parte, tomara que não quebre nada (o céu e o chão se alternavam no meu campo visual). Será que meu corpo não vai parar nunca? Hmm, estou sem camisa. Vou acabar todo ralado. É, parece que acabou, só faltava agora outro idiota passar por cima de mim”. Levantei o tronco, apoiando-me nos braços, e procurei o carro que tinha me atingido. Estava mais com raiva daquele filho da puta que aliviado por escapar com vida. O carro estava longe, muito mais longe do que eu imaginava. Fiquei orgulhoso de ter voado aquela distância. Mas logo passou o orgulho e veio o desejo de vingança. “Desgraçado! Seu retardado, débil mental! Filho da puta barbeiro!”. Tentei me levantar, não conseguia. Minha perna, a que colidiu com o carro, não respondia bem. Ouvi uns gemidos, era meu amigo estabacado. As costas ensangüentadas. “Ou! Tá bom?” Estava. Já eu, tentava lutar contra o desmaio, tinha que xingar aquele desgraçado. De repente, uma visão alucinatória. A cara da minha professora, a um palmo da minha. “Você está bem?” Respondi que sim, sim, eu estava, mas... que diabo ela estava fazendo ali? “Tava passando e vi tudo. Dá o telefone da tua casa, vou avisar tua mãe”. Avisar do quê? Por acaso eu tinha morrido? Deixasse que eu mesmo avisasse. E então, uma deixa memorável: a pobre professora, me vendo todo estropiado e não tendo outra noção de primeiros-socorros, me faz a engraçadíssima pergunta: “Quantos dedos têm aqui?”. Contive o riso, era preciso. “Que dedo?” - respondi, tentando ganhar tempo para preparar uma resposta. “Aqui, menino, na minha mão”. Fiz uma cara seriíssima, pus a mão no queixo, cofiei a barba que eu nem tinha. “Hmm... se eu acertar, ganho nota?” - e desmaiei.
Passei uns dias no hospital e, quando retornei às aulas, foi a glória. Além de ter um belíssimo gesso na perna, que oferecia sem pudor para quem quisesse rabiscar, minha tirada recebera a consagração total. Isso eu tinha uns 14 anos.

Posted by Radamanto at agosto 27, 2003 10:20 AM