Antigamente (esta palavra fatal), antigamente, a nossa imprensa era saudável e tumultuada. Na falta de notícias, inventavam-se notícias, ou então se alimentava uma polêmica.
Alimentava-se a polêmica como a um tigre. A polêmica se instalava no meio do circo nacional, e os jornalistas se divertiam em atirar bifes à polêmica.
As manchetes vinham com três exclamações e em tipo gigante. Era um grito, um susto, o delírio total!!! Não havia o copy-desk e até as notas de falecimento tinham um estilo fenomenal. Os vereadores eram “edis” e o cemitério, o “campo santo”.
Na época das eleições ou de impasses políticos, os jornais se engalfinhavam para promover tal ou qual parte. Xingava-se o adversário, calúnias hediondas eram impressas contra os inimigos do jornal. Uma festa!
E hoje em dia?
Hoje em dia temos o “jornalismo ético e imparcial” (uma impossibilidade genética; só a proposta de um “jornalismo ético e imparcial” já é de um descaro total).
Gente chata, escrevendo sobre assuntos desinteressantes, para um leitor cretino.
Outro dia li alguém dizendo que a polêmica é boba, vazia. Os jornais deveriam publicar discussões inteligentes, não dando lhufas para polêmicas. Que mané discussão inteligente?! Gosta de discussão inteligente? Vai ler o caderno Mais!, que lá, sim, tá cheio de discussão inteligente. Eu quero é sangue!
Jornalismo imparcial, todos sabemos, é desculpa para lavar o cérebro do povo. O último jornalista imparcial morreu quarta-feira. O que me deixa epaté (gostaram do epaté?) é a cara deslavada com que afirmam este novo jornalismo bundinha, como se fosse o único possível e digno de crédito. Muito melhor é deixar a imprensa se atacar mutuamente, e que cada um tire o partido que achar melhor.
Antigamente (a palavra me persegue) o jornalista era uma fera, um Sansão (um Hércules, segundo Eça de Queirós). Hoje em dia são uns tontinhos xongos, e cada novo talento que poderia surgir é forçado pela “linha editorial”, pelo “manual de redação”, pela “ética jornalística” a descer ao nível dos demais cretinos. E o que poderia ser um repórter criativo, um articulista vigoroso, um espadachim verbal, um Zorro de redação se transforma numa máquina boba de redigir textos prontos, com expressões prontas. Jamais escreverá “suelto” ou chamará um político de sem-vergonha ou canalha. Será um Sansão tosado, um Casanova feito eunuco.
Poderão argumentar que uma imprensa de partidários perderá a credibilidade. Aí eu pergunto: e algum dia teve? Aponte-me um sujeito que acredita na credibilidade da imprensa e eu lhe mostro um burro (gostaram da frase pronta?).
Em jornalismo, temos que fazer o elogio das esquerdas declaradas. Uma Bundas, uma Caros Amigos é muito mais excitante que dúzias de Vejas, Épocas, FSP, Bravo, et cap. caverna. Independente do conteúdo infame das idéias, elas são defendidas com ardor, com hombridade (não raro, com brilho), e os jornalistas dessas revistas não escondem que querem convencer o leitor do seu ponto de vista. Se chegam a falsificar os fatos na defesa das idéias, pior para eles que vão ter que agüentar a contestação feroz dos oponentes (que os acusarão, no mínimo, de canalhice vil e abjeta; daí pra baixo).
Argumento final: a imprensa partidária e estilista é muito mais legal.
Os órgãos da imprensa estão flácidos. Precisamos enrijecê-los novamente.
(gostaram do trocadilho final? não, não ficou bom)