julho 16, 2003

Desgraçados

Assistindo TV outro dia com um amigo, espantávamos juntos com os índices de desemprego. Eu me espantava mais que ele, já que sou desempregado. Na verdade eu suava frio, e mordia o lábio dramaticamente (procuro sentir o drama do desemprego o mais que posso, isso dá todo um sentido a minha vida).
Enquanto a apresentadora do telejornal narrava os índices de desemprego (como quem canta pedras de bingo), meu amigo fez a seguinte observação:

- É tudo culpa desses desgraçados que fazem trabalho voluntário.

Senti um formigamento súbito, coisa que sempre me acontece quando ouço uma verdade. Diante de observação tão fulminante, caí de quatro e pastei. Impossível superar aquela análise, qualquer coisa que eu dissesse só estragaria o clima imposto pela frase, um clima solene, profundo (“de igreja gótica”, segundo Alexandre Herculano).
Este meu amigo sempre me espanta com suas verdades e a sutileza de suas observações. Só assisto televisão acompanhado dele, pois assim me desobrigo de pensar e deixo que ele seja inteligente por mim (tenho uma preguiça mórbida de pensar). Quando ele fala, só faço responder com um “é verdade, é verdade”, e ficar besta, admirando-lhe o cérebro musculoso. O que acontece é que quando nos juntamos para ver TV, é ele quem vê a TV; eu, na verdade, assisto a ele, e apenas torço para que a TV dê a deixa para ele falar (coisa que nem precisaria fazer, já que ele encontra deixas até em reclame do Wellaton). Já disse a ele: “Rapaz, as suas observações deviam ser transmitidas em closed caption. O país ia virar do avesso em três dias”. Modesto, me diz apenas que eu estou exagerando, mas eu garanto ao leitor que não estou.

Posted by Radamanto at julho 16, 2003 12:27 AM