Assistindo TV outro dia com um amigo, espantávamos juntos com os índices de desemprego. Eu me espantava mais que ele, já que sou desempregado. Na verdade eu suava frio, e mordia o lábio dramaticamente (procuro sentir o drama do desemprego o mais que posso, isso dá todo um sentido a minha vida).
Enquanto a apresentadora do telejornal narrava os índices de desemprego (como quem canta pedras de bingo), meu amigo fez a seguinte observação:
- É tudo culpa desses desgraçados que fazem trabalho voluntário.
Senti um formigamento súbito, coisa que sempre me acontece quando ouço uma verdade. Diante de observação tão fulminante, caí de quatro e pastei. Impossível superar aquela análise, qualquer coisa que eu dissesse só estragaria o clima imposto pela frase, um clima solene, profundo (“de igreja gótica”, segundo Alexandre Herculano).
Este meu amigo sempre me espanta com suas verdades e a sutileza de suas observações. Só assisto televisão acompanhado dele, pois assim me desobrigo de pensar e deixo que ele seja inteligente por mim (tenho uma preguiça mórbida de pensar). Quando ele fala, só faço responder com um “é verdade, é verdade”, e ficar besta, admirando-lhe o cérebro musculoso. O que acontece é que quando nos juntamos para ver TV, é ele quem vê a TV; eu, na verdade, assisto a ele, e apenas torço para que a TV dê a deixa para ele falar (coisa que nem precisaria fazer, já que ele encontra deixas até em reclame do Wellaton). Já disse a ele: “Rapaz, as suas observações deviam ser transmitidas em closed caption. O país ia virar do avesso em três dias”. Modesto, me diz apenas que eu estou exagerando, mas eu garanto ao leitor que não estou.