julho 11, 2003

Cão que não late, morde

Perto de casa tem um cachorro que, de tão nervoso, não late. Ele segue você por toda a extensão do portão bufando, engasgando, grunhindo, engolindo o latido. Você vê aquele cachorro em dispnéia agônica, louco de ódio, e pensa logo: “Mas não parece até uma pessoa?” Sim, esse cachorro - ignoro se Rex ou Átila - parece uma pessoa, ou melhor, um tipo. É toda uma ilustração de psicologia.
O problema, como se vê, é que o cachorro se sente oprimido por quem passa diante da grade que o separa da rua. A pessoa está passando na rua (passeio público, segundo Eça de Queirós) e o cachorro sente como se aquilo fosse uma afronta. O cachorro, na verdade, tem medo de sair na rua. É um tímido, um tímido ressentido. Como todo tímido, acha que tudo se refere a ele, tudo é com ele, só se faz as coisas para ele. Assim, a pessoa passando na rua está, no mínimo, o esnobando, uma vez que a pessoa “sabe” que ele não pode sair dali. “É uma esnobação e uma provocação” - pensa o cachorro.
Agora, vamos continuar o experimento. A pessoa está passando em frente à grade, vê o cachorro tendo o ataque de ódio e vai abrir o portão para ele sair (digamos que seja um Protetor dos Animais). O que faz o cachorro? Morde a pessoa. E morde por quê? Porque tem medo. Tem medo da pessoa (que só sabia odiar protegido pelo portão) e tem medo da liberdade. Acha uma afronta que a pessoa o convide a sair para rua. “É uma esnobação e uma provocação” - pensa o cachorro. A pessoa “sabe” que ele tem medo da rua, que é um medroso, e também sabe que ele a odeia. Só pode ser provocação.
Vejam que descrevi um tipo, ou melhor, tentei descrever. Vou explicar melhor.
O cachorro é aquele sujeito lendo blogs enquanto espuma de ódio. Tudo que escrevem é para provocá-lo, para esnobá-lo, para humilhá-lo dos tênis ao boné. “Não pode” - pensa ele, e limpa a espuma no punho da camisa. “É tudo para me oprimir. É um complô contra mim”. E o que estão fazendo seus “opressores”? Qual a atitude que tomam contra ele? Passeiam na rua - nada mais que isso. Passeiam, conversam entre si, falam mal de uns, falam bem de outros, comentam uma besteira ou duas, etc. E o cachorro lá, espumando.
Se alguém chega até ele e o convida, por exemplo, a participar da conversa, vejam o que faz o cachorro: morde. “Não é possível. Mas se ele sabe que eu o odeio! Só pode ser provocação, esnobismo! Tenho que morder mesmo”. O mordido nem sabe o porquê daquela reação, pensou que aquele sujeito, tenso daquele jeito, devia estar louco para entrar na conversa. Nunca havia suspeitado que o outro pudesse odiá-lo pelas bobagens que diz. Sabia que poderia alimentar uma antipatia ou outra, mas não se imaginava odiado daquele jeito. É um susto e um espanto, e uma revelação psicológica de brinde.

Posted by Radamanto at julho 11, 2003 7:33 PM