julho 11, 2003

A minha glória estatística

Vejam aquela cifra do desemprego. O décimo terceiro algarismo depois da vírgula sou eu. Percebam que abano a mão no final da fila, um sujeito de terno e óculos.
Sou o mais novo desempregado do Brasil e não me agüento de orgulho. Sempre quis fazer parte do número, da cifra, da porcentagem. Eis que agora estou de terno na fila do desemprego. E de gravata grená.
Realizei dois sonhos ao mesmo tempo: virei desempregado e comprei um terno (e gravata grená). As duas coisas são lindas e combinam. Eu tenho uma idéia antiquada das coisas. Para mim, o sujeito desempregado deve vestir terno. E suar dentro do terno, o suor demonstrando a tensão do desemprego, o desconforto do terceiro-mundista encapado num terno. Ando me sentindo “do povo”, o bigodinho suado, a cara lustrosa de gordura, de sebo, os piolhos excitados pelo calor. Estou com uma cara de aparecer em Jornal Hoje, de aparecer comentando a má situação do país. Imagino até meu gesto plástico, teatral, apontando para o final da fila e dizendo para a repórter: “Pois é. É isso aí...” Pena não ter filhos para citar.
Agora só vou andar de terno (e gravata grená). Se mendigo for, ainda assim estarei de terno. Puído, roto, comido de baratas, mas ainda este terno a cobrir minha nudez. Se arrumar emprego em repartição pública, vou trocar o terno para aquele modelo com couro nos cotovelos, que é o terno de funcionário público (e também do intelectual de roça). Só de uma coisa não abro mão: a gravata grená.
Aliás, estou louco para preencher uns formulários. Por quê? Porque lá sempre tem “desempregado” para a pessoa assinalar, e é lá que eu vou me afirmar na condição. Também espero ansioso que a LBV ou a APAE me liguem, assim eu digo: “Infelizmente, não posso contribuir. Estou desempregado, sabe como é”.
Tenho agora a estrela na testa, o apelo erótico do desempregado (de gravata grená), a humildade pungente dos sem ocupação. Mais um tempinho e vou desenvolver a pureza do famélico, e depois a morte em passeio público. Ao final, o enterro do indigente, o único enterro de indigente com terno e gravata grená. Vai ser a glória.

Posted by Radamanto at julho 11, 2003 5:42 PM