Conheci talvez o sujeito mais feio que já houve. Era verdadeiramente hediondo, feio como uma fechada de Kombi, como um desastre de trem, como um paraguaio baleado.
Chamava-se (...) e tinha por volta de 20 anos quando o conheci, mas representava mais velho. Não tão mais velho, aparentava uns 25.
Aparentando uns 25, parecia, pois, ainda jovem, e isto era pior.
É natural que o sujeito mais velho vá enfeando, tanto que não se cobra beleza dos velhos, apenas postura. No velho, o que vale é a postura. Já o sujeito sendo jovem e feio, as coisas se somam para pior desastre de seu aspecto, pois que a juventude realça a feiúra.
A feiúra, no jovem, faz um contraste impossível de não notar. Por isso é melhor para o feio que envelheça logo, pois assim podem atribuir à idade sua má estampa, desculpando-lhe a fealdade.
Voltando ao horroroso de que aqui tratamos, sua cara era tão feia que parecia um vômito do seu pescoço. Não vou fazer aqui a descrição em pormenores, estou convencido de que uma feiúra daquelas não se consegue descrever com imagens verbais, dou apenas as características mais genéricas, e o leitor que imagine o resto a seu gosto. Garanto apenas que a pior imagem que o leitor compuser em sua mente ainda será injusta à hediondez de meu conhecido, feio além da imaginação.
Era magro e curvado, os dedos finos e compridos pendiam das mãos ossudas. O peito fundo lhe dava ares de tísico, de frágil. Uma feiúra espectral e antiga se assentava em sua estrutura, uma feiúra de castelo, por assim dizer; uma feiúra de calabouço medieval. Seus olhos, sempre excessivamente úmidos, pareciam chorar eternamente o crime de seu nascimento, o que tornava sua presença mais comovente.
Passeando pela faculdade, enternecia multidões. Ninguém lhe era indiferente – impossível! Era bem tratado por todo mundo, inclusive pelos professores, que nunca tiveram a coragem de reprová-lo mesmo quando deveriam. Como reprovar aquele pobre? Seria um pecado. O governo deveria até lhe arranjar uma pensão vitalícia como reparação por qualquer fator geográfico, qualquer fator político que houvesse interferido na sua geração. Por algum mistério do psicológico humano, as pessoas sentiam-se responsáveis por aquela feiúra, como se aquele coitado expiasse as faltas de cada um, redimindo a humanidade de, pelo menos, quinhentos mil anos de pecado.
As meninas tratavam-no com casta ternura. Era considerado um puro, de alma tão simples quanto feio em tudo mais. Piedosamente, disfarçavam o nojo e conversavam com ele como se fosse normal. Evitavam apenas falar em estética, para impedir o perigo de uma gafe, assim como evitavam assuntos relacionados ao sensual, para não constrangê-lo.
Via-se que tinha prazer no contato com as pessoas, gostava principalmente de conversar. Era meigo de temperamento, concordando o mais das vezes com o que se dizia.
Conclusão do caso:
Acontece que, certo dia, esse rapaz foi pego furando os olhos de um canário com uma agulha. Não interessa como aconteceu, digo apenas que o rapaz foi pego enquanto picava os olhos do canário com uma agulha. E fazia isso com a satisfação maligna do radiologista que encontra o câncer. Perguntaram a ele: “E por quê?”. “Para o canário cantar à noite” – foi sua resposta. Surpresa geral, ninguém se conformava com aquilo. Logo ele, o meigo, o puro, o de alma tão simples quanto feio em tudo mais... Custavam a acreditar que o rapaz pudesse ser capaz daquela atrocidade.
Movimento psicológico:
Acontecia o seguinte: era tão feio que jamais poderiam adivinhar-lhe o mau coração.