Outro dia, eu e uns amigos comentávamos a respeito de nossas famílias quando a conversa enveredou para uma competição: qual de nós tinha a mãe mais histérica?
Era com empáfia que fulano contava da maneira como sua mãe transformava um simples almoço de terça-feira num escândalo sem precedentes, conseguindo brigar com a família inteira enquanto servia o feijão ao caçula. Outro, seguro de que sua mãe era a maior, falava da histeria plástica, da dramaticidade que sua mãe dava ao escândalo, da maneira soberba com que gritava a plenos pulmões, fazendo-se ouvir até o fim da rua. Outro ainda enaltecia a pontaria da mãe, capaz de acertar qualquer objeto na cabeça de um filho a duzentas jardas, desde elefantes de porcelana a colheres de pau. “Mas como não matou a prole de traumatismo craniano?” – indaguei, desconfiando da história. “Eu e meus irmãos aprendemos a defender com o antebraço” – explicou, provando com uma cicatriz causada por um Buda de cristal que debelara a tempo de impedir um traumatismo certo.
“Suas mães não são de nada” – confrontei a todos, como na piada. “Minha mãe é o que há. Minha mãe é histérica de juntar gente na frente de casa. Histérica de subir no telhado e atirar pratos lá de cima. E como grita! Uma Maria Callas! Perdi 20% da audição no ouvido direito ainda aos sete anos”.
Como me pedissem exemplos, contei da vez em que atacou me pai a dentadas e arranhões, descabelando-se em fúria, tendo que ser contida por três marmanjos (meu pai e meus tios).
E ainda foi levada de ambulância para tomar calmante no hospital, de ambulância! Histérica de sair de ambulância, minha mãe!
À força de minhas descrições, capitularam todos, menos um: “minha mãe é mais” – insistia o fulano. “É nada” – retrucava eu. Contei mais umas histórias, inclusive das tentativas de suicídio, e o canalha insistia: “minha mãe é mais”. Aquilo já me irritava.
- “Se sua mãe é tão boa assim, prove”.
- “Minha mãe morreu de histeria”.
- “Isso não existe”.
Abriu a carteira e tirou uma foto. Todos se agruparam em torno dele, espiando por cima dos ombros. A foto mostrava a mãe no caixão, o cabelo descabelado, o olho aberto, esbugalhado, ainda faiscante de ira (“não conseguiram fechar-lhe o olho” – contou). O lábio superior mordia o inferior, a mandíbula travada (“não destravaram nem a martelinho”). Era a máscara mortuária mais hedionda, mais viva que eu já vira.
- “Venceu”.
- “Nunca houve histérica como a minha mãe. Nunca!” – disse, escorrendo orgulho pela cara saudosa.