Outro dia amigo meu contou da vez em que dançou pelado com uns hippies.
Estava ele numa dessas chapadas do Brasil, dessas infestadas de hippies e demais alternativos, e numa noite o pessoal resolveu dar uma festa dos pelados, tipo pra ter contato com a mãe natureza.
Como a ingenuidade morreu de gripe espanhola, é claro que ali se configurava uma possível suruba, daquelas imensas, daquelas de baile de máscaras do século XVIII. Não que alguém ali confessasse, o interesse era o contato com a mãe natureza, claro, como se o fato do sujeito expor o traseiro ao vento lhe transformasse num sacerdote de Gaia.
Meu amigo, que não é ingênuo, foi lá ter com os pelados (com as peladas, mais especificamente), pagando pra ver o que sairia dali. O contato com a natureza (suruba) dar-se-ia em local ermo, onde devem ser os contatos com a natureza, já que bastante impudicos no geral.
Lá chegando, esse meu amigo foi convidado a se despir, como os demais, e... pasmem! Pasmem! Pasmem! Pediram que ele entrasse numa fila! Uma fila! Repito: uma fila!
Indecente não é dançar pelado, indecente não é usar a natureza à guisa de desculpa para dar suruba, indecente é pôr o sujeito pelado numa fila! Fila em suruba é o cúmulo do descaramento! Mas tal era o caso.
Fico pensando nessa incivilidade domesticada dos hippies, dos alternativos. O sujeito vai ao quinto dos infernos dar suruba, pois ali pode dar vazão a toda sua potência bestial, chega lá e manda o pessoal fazer fila pelado. Mais ridículo, só se exigisse gravata borboleta ou gargantilha como único traje obrigatório. É uma incivilidade falhada, essa dos hippies, uma incivilidade de gente criada a Neston e Leite Ninho. Pretendem se comportar como faunos mas não passam de uns gaiatos, uns falsos libertinos, uns sátiros de Monteiro Lobato, de Sítio do Pica-pau Amarelo.
Conheço gente que vive atirando na cara de todo mundo sua liberdade sexual. Olham os demais, os reprimidos, como se fossem os verdadeiros pervertidos. “Lá vai o reprimido” – dizem. “Tem mais couraça que o Encouraçado Potemkin. É um pobre diabo que não conhece a liberdade sexual”.
Hoje em dia, o descaramento não conhece gênero. Foi-se o tempo em que você chamava fulana de biscate, rameira, marafona e ela se sentia ofendida. “Sou mesmo” – hoje ela responde, e ri como uma égua. Não estou exagerando. Conheço uma moça cuja tristeza é não conseguir rivalizar com outras moças mais dadeiras em número de parceiros sexuais. “Qualquer dia dou pra cinco de uma vez e venço as outras, nem que por um dia” – adivinho-lhe o pensamento. E, sabem, essa moça é triste. Vive chorando em final de festa, de churrasco.Chora, depois vai atrás de dar, e então, dá para o primeiro que aparece, como aquelas sacerdotisas antigas. Os feios lhes são gratíssimos.
Não estou aqui fazendo pregação moral. Não.
Eu só queria saber onde está o pervertido verdadeiro, aquele de sotaque francês e bigode encerado. Aquele que bate no peito obscenamente proclamando a putaria, que não tem vergonha nem faz fila em suruba. Ou aquela que dá e não chora depois, que ostenta o prazer e não tem taras monogâmicas no dia seguinte.
Só vou dar ouvidos à liberdade sexual no dia em que vierem os verdadeiros pervertidos.
Esses que estão aí têm moral demais pra acusar alguém.