
Diante da minha inevitável estréia no mercado de trabalho daqui a uns meses, confabulo planos de contornar o penoso jugo do trabalho. “Jamais botarão em mim canga alguma“, eis meu compromisso social.
Ultimamente, venho pensado em criar anjo. É só conseguir umas poucas matrizes que logo me tornarei grande criador.
Como penso em criação intensiva, não careço de um grande latifúndio: qualquer três alqueires tá valendo.
Além de criar, pretendo abater, cortar e embalar o produto; e talvez eu mesmo vá entregar a mercadoria aos compradores.
Anjo é fácil de criar. Comem basicamente hóstia macerada e bebem água benta. Às vezes é conveniente misturar sal mineral à comida. O viveiro é bem simples, nem precisa de luz artificial, pois anjos dormem cedo, à maneira de outras aves como a galinha. Apenas se recomenda a instalação de poleiros no viveiro, o que descontrai os anjos.
Importante para o criador que não construa o angelário próximo de locais habitados. Todo dia, às cinco da matina, os anjos sobem nos poleiros e entoam hinos ao Senhor numa altura insuportável. Nem sempre são afinados, ao contrário do que pensa muita gente, e um Rex Tremendae desafinado e aos berros às cinco da matina não é bom para os humanos em volta.
Quanto aos produtos advindos dos anjos, eles são muitos. Além da carne tenra e macia, naturalmente light, pode-se aproveitar a plumagem para a confecção de artefatos de vestuário ou mesmo para fazer uma bonita peteca. A pele de anjo, apesar de pouco resistente, também pode ser usada no fabrico de peças de vestuário, e há mesmo algumas montadoras interessadas em revestir o estofado dos automóveis com pele de anjo, o que certamente vai aquecer o mercado. Dos anjos, até o cabelo se aproveita: substitui muito bem a crina em arcos para instrumentos musicais. Há também um projeto sendo desenvolvido por um laboratório fotográfico que utiliza o tutano de anjo para revestimento de películas fotossensíveis, o que vem dando excelentes resultados.
Ainda sobre o processo de criação e abate do anjo, eles geralmente estão bons para o abate em oito meses, o que faz da anjocultura um investimento de retorno bastante rápido. Reproduzem-se por bipartição por volta dos quatro meses (realmente eles não tem sexo).
O processo de abate é por degolamento em esteira, totalmente indolor e higiênico. A carne, pode-se vender em peça inteira (resfriada ou congelada), por peças (asinha, peito de anjo, coxa e sobrecoxa) ou pode-se fazer embutidos (lingüiça, salsicha e a deliciosa mortadela de anjo). Muitas partes do anjo dão um bom patê.
Abaixo, uma peça inteira pronta para o preparo.

Esta imagem mostra o anjo já moído, pronto pra virar salsicha.
E esta outra mostra uma peça inteira na sua embalagem para venda.

Bom apetite!
