A deselegância com que tentam me coagir me dói mais que a tentativa débil de atentado a minha liberdade. Que queiram me proibir disso ou daquilo, sempre tomei como um carinho profundo que as pessoas têm por mim. O governo, por exemplo, me adora. Trata-me com uma ternura que às vezes até me entoja. Não passo perto de repartição pública sem que me perguntem se eu estou precisando de alguma coisa: uma assistência, um afago, uma palavra amiga...
Por atenciosos que todos são ao meu redor, sempre tentam impedir que eu caia em alguma enrascada. Daí proibirem as coisas que poderiam me machucar, ou mesmo ferir meus sentimentos.
Muitas vezes, antes de dormir, imagino que o mundo é uma grande bola de ternura, cada um amando mais que o outro e todos com um interesse especial em me ninar e velar pelo meu sono. “Dorme, menino” – ouço a ONU me dizer, enroscando os dedos em meus cabelos anelados. “Eu protejo as matas, e os rios, e o uso de artefatos nucleares que poderiam atrapalhar teu sono inocente. Eu arbitro os conflitos internacionais que poderiam deixar-te coxo, mutilado, ou mesmo vazado de um olho. Eu denuncio os que atentam contra a tua liberdade de expressão e também aqueles que abrem buracos na camada de ozônio, querendo transformar tua pele suave numa pururuca abjeta. Dorme, menino, que eu investirei furiosamente (através de boicotes, sanções, maledicências e inspeções com aparelhos que apitam), que eu investirei furiosamente contra aqueles que não te amam”. Ah, é um sono repousante o meu.
Voltando à vaca fria, o que me dói é a deselegância dos que me amam. Em vez de um simples “não faz isso, que Deus te fode”, me ameaçam de câncer, AIDS, mutilação em acidente automobilístico, vício incurável seguido de deformação moral, crimes executados por excluídos, quedas em fosso de elevador por falta de atenção.
Não me advertem, me ameaçam.
Menino ainda, lembro-me de que o bambolê virou febre na escola. Confesso que entrei na perobagem, tornando-me praticante do bambolê. Nunca vi perigo algum no brinquedo, mas havia uma “tia” mais sábia na escola que alertou a mim e aos demais que o insuspeito aro dava câncer. Proibiram o bambolê na escola. Se quiséssemos continuar com aquela atividade potencialmente danosa, que o fizéssemos fora da escola. Era insuportável à direção que desenvolvêssemos câncer nas dependências da instituição, cortava-lhes o coração nos ver rebolando em direção à morte.
Da mesma maneira, pelos anos seguintes, proibiram chiclete com tintura, afixar transfer na pele, usar borracha com cheirinho... (já aquela merenda execrável que nos serviam, diziam fazer bem).
Um dos casos mais patéticos que presenciei foi ver amigo meu ser mandado pra diretoria porque estava cheirando cola na classe (era cola Tenaz).
Hoje vi tiozinho dizendo na TV que a prostituição tem que ser proibida porque dissemina a AIDS. Deram valor ao argumento.
Olha, eu fiquei tão comovido... Ainda bem que tem gente como o tiozinho para zelar pelo bem-estar da população.