Vem aí o primeiro romance gerontófilo da literatura ocidental. A paixão de um jovem professor emigrado por uma idosa de oitenta e quatro anos. Estranha estória de amor que retrata, numa trama surpreendente e original, diferentes localidades e costumes brasileiros. O delicado tema é tratado com tal maestria que o valor literário sobrepuja o aparente escândalo suscitado pela obra: Palmira.
Palmira
Excertos:
Cap. 1
Palmira, luz da minha vida, fogo das minhas entranhas. Meu pecado, minha alma. Palmira: a ponta da língua fazendo uma viagem de três passos pelo céu da boca, a fim de estalar de leve no terceiro. Pal. Mi. Ra.
Era Palmira pela manhã, com suas anáguas e seu metro e quarenta e oito centímetros de altura. Era Dona Palmira com seus vestidos escuros. Era Mirinha entre a parentela. Era Palmira Castro de Aragão quando assinava seu nome. Mas, em meus braços, era sempre Palmira.(...)
Cap. 3
(...)
Antes de sair, Palmira veio até mim e tocou meu rosto com seus dedos murchos.
- Vai se esquecer de mim? Veja que não pode argumentar falta de memória, hein. Tal desculpa cabe melhor a mim e não acredito que creia que eu vá aceitá-la.
Eu não podia responder, estava paralisado pelo contato de sua pele. Era a primeira vez que Palmira me tocava. A mistura do seu cheiro de maquiagem, talco e laquê me inebriava e fazia que eu me concentrasse apenas nos sentidos. Seu toque, seu cheiro, a maneira vetusta como se movia e aquele olhar escuro de quem atravessou décadas para estar ali, naquele momento. "É como uma relíquia histórica", pensava. "Por esses olhos baços, oito décadas me contemplam".
Senti que minha anatomia respondia ao delicado toque de Palmira. Fiquei embaraçado, pensando que pudesse vir tudo por água abaixo por um descuido meu, uma intenção revelada antes da hora.
- Não te esqueço, Palmira – disse tentando refrear o impulso que tomava conta de mim, como se desviando a atenção dos sentidos pudesse diminuir meu desejo por aquele corpo miúdo e rugoso.
Cap. 4
Resolvi freqüentar o Clube da Terceira Idade a que Palmira tanto ia. Confesso que foi o ciúme que me levou a tal decisão. A simples idéia de que outro pudesse atrair suas atenções me punha em desespero. “Lá devem ser todos impotentes” – repetia para mim mesmo, tentando tranqüilizar-me ante a perspectiva de um rival.
Dando-me motivos para levar a cabo uma atitude antes passional que correta, pensei que talvez lá houvesse outras senhoras interessantes e que não seria de todo mau passar as tardes num ambiente descontraído. Já fazia agora alguns meses que eu parara de freqüentar asilos e casas de repouso, e a idéia de que poderia voltar à vida de prazeres fáceis e mecânicos me revoltava o espírito. (...)
Cap. 7
(...)
Cantei um pequeno trecho de uma canção de Silvio Caldas que havia aprendido de propósito.
- Você canta bem – disse ela, olhando por cima dos óculos redondos e voltando os olhos novamente para a meia que cerzia – além do quê, tem uma voz muito bonita.
Pensava que a ela agradaria antes o repertório que meus dons musicais. Resolvi investigar se havia feito uma escolha errada.
- Gosta de Silvio Caldas?
- Um pouco. Prefiro Orlando Silva. Você conhece Orlando Silva?
- Sim, o “cantor das multidões” – disse triunfante.
Conhecia Orlando Silva dos tempos em que freqüentava o Retiro dos Artistas. Muitos ali relembravam suas canções e cheguei a conhecer uma linda ex-corista que dizia ter sido sua amante. (...)
Cap. 12
(...)
Diante daquelas magníficas corredeiras, pensei em Deus. Que ventura havia me levado até àquele momento sublime? Apertei as mãos de Palmira entre as minhas.
- Teus olhos são como essas corredeiras.
- Eu já te disse que não quero arriscar a cirurgia de catarata. Já vi muita gente ficar cega por causa dessa cirurgia.
- Não é disso que eu falo, amor. O que eu vejo em teus olhos é como o jorrar dessas águas inesgotáveis.
- Eu sei. É incontinência lacrimal. O doutor disse que não tem jeito e que pode mesmo fazer bem aos olhos.
Entendi que não precisava ser compreendido para amá-la. Havia compreensão em mim por nós dois.
Cap. 13
(...)
Após o tempo em que passamos em Foz de Iguaçu, rumamos para Maringá, pois Palmira sempre quisera conhecer o lugar. Realmente é um lugar muito aprazível, mas nada que se compare à beleza das paisagens do interior de Goiás, que havíamos visitado na semana anterior.
- Desse jeito vamos parar no Piauí – gracejei com Palmira.
- Seu bobo – ela disse marota, abrindo os lábios murchos e estalando a dentadura com prazer.
Vê-la tão feliz me dava uma sensação de paz quase narcótica. Aquela mulher era minha, só minha, e nada impediria que assim fosse para sempre. Beijei-a com sofreguidão. Ela me estreitou entre os braços e correspondeu a meu ardor. Seu rosto escaveirado, cravado de sulcos harmoniosos que lhe conferiam certo ar de jardim zen, era para mim a mais terna das visões.
Receoso de que nossos excessos poderiam lhe causar algum mal, interrompi nossos beijos e carícias.
- Palmira, veja a pressão. Você já tomou o remédio hoje? E não nos esqueçamos que você ainda não está recuperada da queda no banheiro.
- Ora, não pensemos nisso. Você parece um enfermeiro. Pois vou dar para tratá-lo como tal, vai ver como é desagradável este seu costume.
- Desculpe, meu amor, não quis aborrecê-la.
- Tudo bem, quero apenas que não pense tanto em minha saúde, há tantas coisas melhores para pensar.
Ah, Palmira... (...)