Eu, como descendente direto de italianos, requeiro quotas. Minha genética européia me põe em desvantagem com os habitantes mais brasileiros que eu (entenda-se os de pele mais escura que a minha). Não suporto o calor dos trópicos, para o qual não fui talhado, já que meus ascendentes vêm de regiões frias e alpinas. Na escola, meus amigos me desprezavam e humilhavam, me chamavam de “cabeça de brachola”, “projeto de Mussolini” e “filhote de Albinoni com Mamma Bruscheta”. Até os 12 anos meu apelido era Lasanha. Tinha que ouvir as piadas racistas contra os italianos calado e quando o Brasil jogava contra a Itália, os outros moleques ameaçavam me espancar caso a Itália ousasse vencer. Paolo Rossi era meu vingador secreto, eu guardava um velho recorte de jornal com uma foto sua estampada. Às vezes, à noite, tirava a fotinha da minha caixa de coisas secretas e ficava a contemplar sua esguia figura repetindo para mim, baixinho: “forza azzurra!, forza azzurra!”. Mesmo os programas de TV me discriminavam. Família Mussarela era uma paródia cruel do povo italiano e seus ascendentes romanos. Àquela idade, cada episódio de Família Mussarela causava um estrago irreversível no meu ego frágil.
Num arroubo de baixa estima e autonegação, pedia a meus pais para enfaixar meus braços quando estava dentro de casa. Queria perder o hábito de gesticular muito ao falar, que sempre entregava minhas origens. Até hoje – ainda restam alguns traumas - não falo “bruta bestia”, “ma che”,”Madonna mia”, “Dio porco” e “porca pipa della Maria Gorda”.
Cresci tendo que ouvir que meu amado povo italiano é vira-casaca, militarmente falando, e que votam no Berlusconi.
As quotas não são um favor, são a reparação de um erro histórico. Espero que vocês entendam isso, brasileiros de uma figa, assim que meus filhos tomarem a vaga dos seus em seja lá o que for. E saibam que lá na Itália todo mundo sabe que brasileiro é tudo traveco!