dezembro 23, 2002

O Grande Livro do Maravilhoso e do Fantástico

Eu adoro esse livro. Infelizmente, pertence a um amigo e não a mim. Já ofereci quantias indecentes pelo livro e ele sempre recusa minhas propostas; coisas de Laurinha. Certamente poderia me dar o livro de graça se eu não demonstrasse tanto interesse. Bem, vai aí uma amostra das 577 páginas de puro prazer. A história é real.

Comerciante Expedito

Arthur Furguson era um escocês dotado de uma fenomenal capacidade de negociar, embora, como acontece a muitos outros gênios, desconhecesse o fato até o momento em que se aliaram a oportunidade e a inspiração. Para Furguson, este momento ocorreu em Trafalgar Square, numa manhã de sol dos anos 20. A sua fonte de inspiração foi um abastado americano de Idaho, que ele descobriu contemplando reverentemente a Coluna de Nelson.
Furguson arvorou-se temporariamente em guia de praça. A estátua sobre a coluna representava, explicou, o almirante Lord Nelson, o maior herói da Inglaterra. Logo em seguida murmurou, absorto: “Que vergonha!”. E continuou o pretenso monólogo, acentuando que o local não seria o mesmo sem a estátua. As dívidas da Grã-Bretanha se elevavam e tornava-se necessário vender tudo - coluna, estátua, leões e fontes.
O americano mostrou-se compreensivo e perguntou o preço. “Apenas 6.000 libras”, suspirou Ferguson. Naturalmente, o comprador deveria ser alguém que apreciasse esses grandes monumentos das glórias passadas da Grã-Bretanha.
Por uma estranha coincidência, fora confiada Furguson a triste incumbência de realizar a venda, que deveria manter-se estritamente em segredo.
O americano pediu a Furguson que lhe fosse concedida prioridade e este, finalmente, concordou em telefonar a seus superiores e pedir instruções. Decorridos poucos minutos, regressava com o assunto resolvido. A Grã-Bretanha estava pronta a aceitar imediatamente um cheque e ultimar o negócio sem mais delongas. Sempre disposto a ajudar, Furguson deu ao seu cliente o nome e o endereço de uma firma de confiança que se encarregaria de desmontar a praça e preparar depois a volumosa mercadoria para embarque.

A caminho da América

O americano entregou-lhe um cheque, em troca do qual recebeu um recibo, e ambos se separaram. Furguson imediatamente descontou o cheque, enquanto seu cliente entrava em contato com a referida firma. Esta mostrou-se relutante em aceitar a empreitada e expôs as razões de sua hesitação, mas só depois de receber uma explicação cabal da Scotland Yard o comprador acreditou que fora vigarizado.
Essa temporada de verão revelou-se particularmente feliz para Arthur Furguson. A polícia, contudo, não se mostrava tão satisfeita: um americano queixou-se de ter pago 1.000 libras pelo Big Ben, enquanto outro se lamentou do fato de haver dado um sinal de 2.000 libras pelo Palácio de Buckingham e não ter podido efetuar a compra.
Incentivado por esses êxitos, Furguson concluiu que uma vez que os americanos tinham sido os seus melhores clientes, deveria continuar suas atividades nos Estados Unidos.

Em 1925 dirigiu-se para Washington, onde alugou a Casa Branca a um criador de gado por 99 anos, ao preço convidativo de 100.000 dólares anuais, sendo a renda do primeiro ano paga adiantadamente.
Furguson considerou que os seus lucros já eram suficientemente vultosos para justificar a sua retirada do negócio, mas a vaidade impediu-o de desaparecer discretamente de cena sem terminar sua carreira com um último e grandioso golpe.
Encontrou sua vítima ideal - um australiano de Sydney - e começou o negócio. O porto de Nova Iorque ia ser alargado e a Estátua da Liberdade seria removida. Razões de ordem sentimental não poderiam pôr entraves ao progresso, pelo que o governo estava disposto a vender o monumento a quem o quisesse comprar.
Durante os dias que se seguiram, o australiano tentou levantar em Sydney o depósito de 100.000 dólares. Furguson não o perdeu de vista, mantendo-o afastado de quem quer que fosse, para que não se sentisse tentado a vangloriar-se do negócio que fizera. Porém, como recordação da transação Furguson, amavelmente, deixou-se fotografar de braço dado com seu cliente ao lado da Estátua da Liberdade.
Em conseqüência de um atraso na remessa do dinheiro, a impaciência apoderou-se de Furguson, e a suspeita, do australiano. Finalmente, este mostrou a fotografia na polícia. Acontecera aquilo por que esperava a polícia, que tinha conhecimento do supervendedor de monumentos que, contudo, até então conseguira sempre escapar.
O australiano conduziu os policiais sem delongas ao infortunado Furguson, que foi imediatamente preso. Cumpriu pena de cadeia por 5 anos, um preço irrisório diante da fortuna que fizera. Libertado em 1930, mudou-se para Los Angeles, onde viveu faustosamente - graças a uma série de novos pequenos golpes - até a sua morte, em 1938.

Posted by Radamanto at dezembro 23, 2002 9:58 AM