Dia desses estava em casa assistindo “Maria - Mãe de Jesus”, filme que trata de Maria, mãe de Jesus. Estava com o coração fofo e cristão nesse dia, de formas que acabei me emocionando muito com o filme. Olha, eu fico meio constrangido de dizer, mas na verdade eu fiquei chorando em vários momentos do filme, de puro cristianismo.
Bem, daí que eu tava lá enxugando as lágrimas, tinha entrado o intervalo comercial, e eis que toca a campainha. Saio para ver quem é - coisa bem rara, aliás. Era um mendigo (ou pedinte, como o pessoal diz por aqui). O mendigo:
- Oi, fio. Você não tem nada pra me dar aí, não? Uma comida, um dinheiro, uma roupa... qualquer coisa serve.
- Não. Não tem nada aqui, não (em geral, dou as coisas, mas tinha acabado de chorar e não queria ninguém me incomodando).
- Não tem nem uma moedinha?
- Não, já falei que não.
Virei as costas e fui voltando pra dentro de casa. Dei três passos e caiu a ficha: “Deus, e se for o Cristo?! Pode muito bem ser uma provação. O pessoal lá de cima viu minhas lágrimas de comoção cristã e quis me dar uma chance de reabilitação, então mandaram o Cristo vestido de mendigo pra pôr minha caridade à prova”. Voltei correndo na direção do portão, o mendigo já tinha saído da frente de casa.
- Ou! Ou! Vem cá! Volta aqui!
- Quê?
- Peraí que vou te pegar uns bagulho.
Fui pra dentro de casa e não tinha comida. Roupa, então, nem pensar. Vai ter que ser dinheiro, pensei. Corri até minha carteira e peguei umas moedas. Já me dirigia pra fora, pra entregar o dinheiro ao mendigo, quando a voz da consciência me atacou de novo: “Idiota, pode ser o Cristo! Você vai dar trinta e cinco centavos pro Cristo?! Vai ofender a divindade, sovina!”. É mesmo, pensei. Voltei à carteira decidido a dar tudo que eu tivesse. Tomara que não tivesse muita coisa, pensava, e a consciência atacava: “Você está ridicando dinheiro pro Cristo, homem de pouca fé?! É assim que você quer ser readmitido no reino dos céus, mão-de-vaca?!”. Tá bom, tomara que tenha muito, e só não vou ao banco pegar mais dinheiro porque faz parte de minha reabilitação terminar de assistir o filme, Deus sabe.
O mendigo não acreditou na grana que eu dei pra ele. Ficou me olhando um tempo, entre aturdido e desconfiado. “Deus te abençoe”, ele disse. “No mínimo isso”, respondi mentalmente. E voltei a minha sessão pipoca-carola me sentindo tão caridoso quanto o mais santo dos apóstolos.