novembro 27, 2002

Vou escrever sobre psicologia

Vou escrever sobre psicologia. Estou com preguiça (já faz dias, ou décadas, depende do ponto de vista). Vou ser sucinto.
Houve uma época em que eu era doente e lia quatorze, dezesseis horas por dia, todo dia meses a fio. Isso não é pedantismo pois, vejam: lia quatro, cinco horas de Mário Ferreira, Reale, Ari, "Clássicos do meu saco", literatos viados do século passado e de antes de Cristo, etc. O resto eu lia Veja, Época, Isto É, Caras, Superinteressante, Times, New Yorker, Newsweek, Folha Explica o Malufismo, Charutos, Gramática Latina Gradus Secundus, Pleasures of Sodomy, O Livro Negro Do Meu Caralho Pintado de Azul, Traçando Roma, etc.
Bem, o que interessa é o seguinte: eu freqüentava tanto aquela porcaria de livraria que o gerente até hoje me chama pelo nome e sempre pergunta se eu passo bem. As funcionárias do café também me tratam como velho conhecido (sem intimidade, pois não permito, na medida em que são feias).

A história:
Naqueles tempos em que eu ia diariamente àquela joça, num sábado (lembro bem), eis que chego à porta da livraria e encontro dezenas, centenas talvez, de jovens histéricas gritando e se descabelando. Fiquei intrigado.
Enquanto coçava a cabeça, tentando solucionar o problema (sou meio lerdo quanto ao comportamento feminino), se aproxima de mim um funcionário daquela loja.

- Você quer ler, né?
- É, cara, eu queria. Que merda é essa?
- O KLB tá aí dentro.
- Quê? (ainda não faziam tanto sucesso a ponto de aparecer na Veja)
- KLB.
- Quê?
- Ah, é uma banda aí.
- De quê?
- Ah, tipo, sabe aquela música (e canta um pedaço pra mim).
- Sei não.
- Dane-se. Você quer entrar pra ler, né? Eu te vejo aí todo dia.
- Quero.
- Então vem aqui.

O sujeito me levou por fora do shopping, pela porta de entregas da livraria. Mas não é que na porta de entregas tinha também dezenas, centenas, de adolescentes histéricas?
Tivemos que abrir espaço na marra naquele mar de malucas.
Subimos uma escadinha das docas, eu sempre junto do sujeito. Ele bateu na porta e a porta se entreabriu. A cabeça de um segurança preto, cabelo justinho. Umas meninas gritam:

- Ei! Por que ele vai entrar?
- Ele é funcionário - responde o sujeito.
- É, eu sou - confirmo eu.
- Cadê a roupinha de funcionário? - as meninas, desconfiadas.
- Tá lá dentro, né - arremato eu.

Entramos.
Agradeci o cara e fiquei achando interessante aquela coisa toda.
De cliente normal, só tinha eu na livraria. O resto, tudo louca e funcionário.
A porta da frente da livraria estava fechada, quer dizer, tinha controle de fluxo: saíam vinte histéricas pela porta do fundo (das docas, pela qual entrei), entravam vinte histéricas pela frente. Zanzei pela livraria procurando um livro qualquer pra ler. Me decidi por Nietzsche vs. Wagner, curiosidade.
Fui me sentar no café vazio. Em frente ao café, KLB. Ao lado do café, fila de meninas gritando num agudo tão alto que, olha... As louquinhas passavam pelos KLB para abraçá-los, beijá-los, algumas tirar fotinha, pegar autógrafo... Todas, TODAS choravam. Tentei ler sem dar bola para aquele circo. Incrivelmente não consegui (leio até em show de banda de heavy-metal sem me incomodar). Era muito agudo (quem me conhece pessoalmente sabe da minha ojeriza por som agudo).
Como não dava pra ler, fui conversar com as funcionárias do café. Eu:

- Cês conhecem esses caras?
- Não, mas diz que é famoso.
- Pô, hoje danou-se! Não vai ter mais paz?
- Eles vão embora daqui meia hora.
- Ah, que beleza.

Continuei conversando, uma hora com uma, uma hora com outra funcionária. As menininhas louquinhas gostosinhas de dentro gritavam e choravam; e as de fora forçavam a porta de vidro, apesar da corrente de seguranças. "Aquela vidro vai estourar", pensei eu - e vi que seria bom.

De repente, uma das funcionárias do café começa a chorar convulsivamente. Eu me espanto, as outras funcionárias se espantam, todo mundo em volta se espanta e faz-se um silêncio dos espantados. Tomo a iniciativa:

- Tá chorando por quê?
- Ai... (choro). Não sei... (choro convulsivo). Eu vi todas elas chorando e... (choro) Me deu vontade de chorar (choro).
- Mas você disse que nem sabe quem são os caras aí, os KLB.
- Mas, ai... (choro). Todo mundo chorando... elas chorando (choro, choro, choro).

As outras funcionárias a abraçam carinhosamente.

Nesse dia descobri uma verdade. Figura no meu catálogo como a de número 42.

Posted by Radamanto at novembro 27, 2002 6:38 AM