Tenho, por assim dizer, um talento oficial para a idiotice. Acho fácil alguém se destacar na música, literatura, pintura, essas coisas de boiola. Isto simplesmente porque a competição é quase inexistente, poucos realmente têm talento, e quando aparece algum sujeito muito bom nessas coisas, passa tão despercebido quanto um cometa.
Já em relação à idiotice a competição é feroz.
Só alguém especialmente dotado pela natureza, como eu, consegue sobressair-se.
Deveria tatuar na testa "idiota" e sair com bigode e óculos de Groucho Marx; e colocar um papelzinho escrito "chute-me" nas costas. Me apresentaria assim nas esquinas, segurando uma tuba e rindo com os dentes cerrados e a boca esgarçada.
Ou, em vez de ficar nas esquinas, me dirigiria ao pleito mais próximo.
Logo após nascer, diz a lenda, levei a mão à testa e exclamei com ar de constatação óbvia: "ih... agora já era". Minha mãe diz que foi assim, mas há desmentidos. A versão da enfermeira é "ih... se dei mal". Mas isso não interessa. O que interessa é que nunca tomei uma atitude que Bacon, Plutarco ou Santo Agostinho aprovassem (o Sto. Agostinho talvez aprovaria algumas). E minha analista só sabe abanar a cabeça lateralmente e fazer "tsc, tsc, tsc" a cada vez que eu abro a boca.
Hoje estou especialmente idiota, como podem ver. A dúvida é se restrinjo meu gênio ao ambiente recluso de meus aposentos, privando assim a humanidade de algumas demonstrações de arte e engenho, ou se saio por aí a desfilar o talento.
Bem, ainda não sei. De qualquer forma, acabarei forçosamente optando pela opção mais idiota. O texto basta por enquanto.