“Morte aos infiéis!” - gritava Osvaldo do telhado.
“Desce daí, indecente!” - insistia Dilinha, sua mulher, da calçada.
“Morte aos infiéis!”
“Ô, dona, desculpa mas vai ter que ser tiro de tranqüilizante” - dizia o policial.
“Espera um pouco, vai ver eu consigo tirar ele de lá. Já é a décima vez que ele faz isso e tem vez que eu venço ele pelo cansaço. Desce daí, criatura!”
“Morte! Morte a todos os infiéis!”
“O que ele é? Crente, judeu, aquelas coisas de Bin Laden?” - o policial.
“Nada. Ele não é nada. É um palhaço, isso sim. Já ficou aí em cima gritando “ajoelhem-se, plebeus”, “o fim está próximo” e “a verdade está lá fora”. É um palhaço, cada vez inventa uma”.
“Olha, dona: palhaço ou não a gente não tem o dia inteiro”.
“Espera que eu dou um jeito. Desce daí, criatura de Deus! Você tá fazendo eu e sua filha passar vergonha na frente do bairro inteiro. O polícia falou que vai dar tiro de calmante em você”.
“Morte aos infiéis! Que morram todos!”.
“Osvaldo, desgraçado! Eu não te tiro mais do hospício, traste! Olha: eu cansei! Cansei!”.
“Dona, vai ter que ser tiro de tranqüilizante”.
“Tudo bem, tudo bem. Eu só peço uma coisa”.
“O quê?”
“Eu quero eu dar o tiro”.
O policial olha pro sargento, que assente com a cabeça. Entrega a arma para a mulher, que a maneja com surpreendente destreza. Antes de atirar ela pergunta, mordendo os lábios e fazendo mira:
“Pode ser na cabeça, né?”