Alguém, penso que foi Bocage, disse que “o castigo do vício é o próprio vício e o prêmio da virtude é a própria virtude”. Os antigos praticavam o bem não para ascender ao Paraíso, mas porque reconheciam no bem um fim em si. Acredito que esta é uma visão mais acertada que a daqueles que buscam ter sua virtude recompensada no outro mundo, isto tanto porque está mais de acordo com a razão como porque é mais fácil aderir ao bem quem dele espera se beneficiar prontamente.
Nunca tive a pretensão de extinguir todos os meus vícios, sei que sou fraco demais para levar a cabo tal projeto que, ademais, me parece absurdo. Prefiro concentrar-me em tentar extinguir apenas alguns deles, principalmente aqueles que, “como o salgueiro, lançam sementes por todo o derredor, alastrando-se como praga e tomando para si tudo quanto podem alcançar”. Penso que quem consegue abafar sua vaidade já fez por si mais do que pode esperar fazer pelo resto da vida, pois se há um mal capaz de agitar nossas vilezas a ponto de nos rebaixar ao nível dos porcos, este mal é a vaidade. Assim como de nada adiantava a Hércules ocupar-se das cabeças laterais da Hidra, tendo que extinguir a do meio para que as demais parassem de brotar incessantemente, assim deve proceder consigo quem intenta livrar-se dos vermes que lhe corroem o espírito. Primeiro ataquemos a vaidade, pois somente quando esta estiver sob nosso domínio poderemos verdadeiramente tomar posse de nosso espírito.
P.S.: Não faço a menor idéia de como se reproduz um salgueiro. Aliás, eu nunca nem vi um salgueiro.