Certa feita, durante meu primeiro colegial, a professora mandou que fizéssemos uma redação sobre a vida de algum profissional. Podia ser qualquer um: advogado, engenheiro, botequineiro, odontoftalmotorrinolaringologista, etc. Escolhi como tema "a vida do porteiro de prédio". Entreguei a redação todo feliz, achando que estaria fazendo grande palhaçada descrevendo uma vida tão idiota. Um amigo meu, que devido à beleza atendia pelo apelido de Frankenstein, passou por mim com sua redação em direção à mesa da professora. O Frankenstein era bem palhaço e zoeira, mas tinha o hábito desagradável de ser bastante burro. Fiquei pensando sobre o que teria escrito Frankenstein. Não resisti e o interpelei:
- Ô, Frank, deixa ver o que tu escreveu aí?
- Tó.
Peguei o papel meio sem esperança, achando que ia encontrar algo sobre a vida do vidraceiro, já que o pai do Frank era vidraceiro e ele o ajudava no serviço. Mas qual não foi minha surpresa! Bati o olho no título e já comecei a rir a camisas mal passadas. O tema era o seguinte: "a vida do gladiador romano". Lembro-me de que a redação começava assim:
"Todo dia ele acorda e vai afiar seus instrumentos de morte. É uma profissão para poucos, pois requer astúcia, coragem, perícia... Ele diverte as multidões mas desafia o próprio destino quando está de serviço."
E seguia-se uma série de considerações profundas e emocionadas sobre a vida do gladiador romano.
Me senti bastante burro diante daquele primor de originalidade e estilo. Jamais olhei o Frank com os mesmos olhos. Era um gênio!