maio 5, 2002

O nascimento da tragédia

Seis de maio de 1979. Numa pequena cidade do interior paulista um fenômeno chama a atenção: uma estrela paira sobre a cidade desde o dia anterior. Os cidadãos, aterrorizados, não sabem o que aquilo pode significar. Uns acreditam que a estrela é o signo da peste, outros que se trata da chegada de um salvador; uns outros crêem que é o presságio de uma nova era e ainda há aqueles que interpretam o sinal como "grandes chances do Botafogo ganhar o campeonato".
Pra acabar com a dúvida, foram consultar o velho Terto, adivinho oficial da cidade e vendedor de bilhetes de loteria ("borboleta, olha a borboleta"). O velho Terto, que até então nem tinha notado a estrela, foi rápido na interpretação do sinal:

- É que vai nascer um moleque aí e o pessoal lá de cima preparou esse showzinho pra quebrar a monotonia da cidade.

O moleque em questão era eu, que às 11:30 hs do dia 6 de maio de 1979 dava o ar de minha graça neste mundo.
O pessoal do hospital teve dificuldade em organizar os curiosos que se acotovelavam para dar uma espiada em mim. Aqueles que conseguiram dar uma olhada hoje contam que eu apenas dizia "Tira essa gente nojenta daqui!", "Aumentem o ar-condicionado!" e "Traz lá um chopp que eu não posso com leite". Contam também que em certo momento, enquanto a turba ainda se amontoava na maternidade, surgiram três homens com roupas estranhas, que se diziam reis de não-sei-onde e que tinham que entregar uns presentes ao "recém-nascido que bebe".
Não queriam deixá-los passar, mas um deles ameaçou entrar com camelo e tudo no quarto e o pessoal acabou consentindo. Traziam ouro, incenso e um disco do Agepê. Dizem (eu não me lembro dos fatos) que aceitei de bom grado o primeiro presente. Já quando me ofereceram o incenso eu rejeitei dizendo que "era coisa de hippie". O disco do Agepê eu dei pra minha mãe, que gostava de Agepê àquela época.
O estigma de fenômeno me acompanhou por muito tempo e eu tive dificuldades em provar minha absoluta normalidade. Minha infância foi um inferno, vinha gente de todo lugar querendo que eu comparecesse a casamentos onde faltava vinho e que andasse sobre a água (uma vez quiseram me jogar à força numa piscina; só consegui me livrar ameaçando mandar descer o fogo dos céus sobre a malta que me carregava, o que, para meu azar, só fez aumentar minha fama). Mesmo as crianças da minha idade não me deixavam em paz e sempre vinham com aquele papo de "ei, não é você que faz mágica?", ao que eu, irritado, sempre respondia: "Não sei, pega aqui na minha vara de condão".
Com o tempo as pessoas se convenceram de que não tenho nenhum poder e sou até bastante medíocre. Mas ainda tem uns idiotas que me encontram na rua de vez em quando e, com sobrancelhas de quem é muito perspicaz, me falam entre-dentes: "Você, hein? Enganou todo mundo mas eu sei... Você, hein?" Nada posso fazer além de balançar a cabeça melancolicamente...

Posted by Radamanto at maio 5, 2002 10:40 PM