Muita gente deve imaginar Homero (se é que esse aí existiu mesmo) e Hesíodo como distintos e posudos cidadãos dos tempos antigos. A musculatura marmórea, bem desenhada, porte imponente, belos narizes e olhos faiscantes. E quando abriam a boca, que voz! Num grego limpo e tonitruante, eles fariam a terra tremer com sua voz de baixo profundo. Poderiam narrar o Apocalipse que sairia perfeito. Homero narra e Hesíodo comenta os melhores lances.
Eu não consigo ver dessa maneira.
Por mais admiração que tenha pelas duas figuras, não acredito que pessoalmente fossem grande coisa. Homero devia ser um mendigo cego e repentista, fedendo a suor, enchendo o saco de todo mundo na ágora, dando showzinhos mambembe num estilo parecido com Milionário & José Rico. Chegava na cidade, subia num caixote de Figos Mileto e punha-se a recitar a ladainha de sempre. Que Aquiles fez isso, que Heitor fez aquilo, que Menelau o escambau, e pá, pá, pá...
Quanto a Hesíodo, ora, o diabo do homem era um pastor! Devia ter um sotaque caipira horroroso e nem quero imaginar o que fazia com as cabritas no sopé do monte Hélicon (que depois fantasiava serem musas). Afora que devia ter o irritante costume de responder a todas as perguntas “desde o início”. Exemplo grátis:
Alguém: - Ô, Hesíodo, como foi que tu fez esse machucado aí?
Hesíodo: - Óia, é o siguinte, no iniço tinha o Caos, a Noite e o negro Érebo. Daí fez-se a Terra e blá, blá, blá...
Até o homem acabar de contar a história, neguinho já teria fugido faz tempo.
Além de tudo, o tal roceiro autor da mais famosa teogonia grega tinha a mania de encher o saco do irmão, um sujeito briguento que vivia às turras com a galera da região (penso que ele escreveu Os Trabalhos e os Dias só pra dar lição de moral no irmão).
Como até hoje ninguém restabeleceu a identidade histórica dos dois aedos, mantenho firme minha opinião. Pode ser meio corta-barato mas acho que é a menos fantasista.