No princípio havia o caos. Depois veio a Portela com seu carro abre-alas em forma de águia. Cleomar sambava ao lado da velha guarda, na margem da avenida. Pulava, dançava e girava no ar vestido com sua roupa laranja-cor-de-burro-quando-foge. A roupa de Cleomar não era fantasia, ele era gari da prefeitura do Rio. Mas, vejam bem, um gari da mais alta estirpe, ou vocês pensam que é qualquer gari que tem a honra de varrer sambódromo em dia de carnaval? Cleomar transformara-se, naquele ano, no ídolo da multidão que ia à Sapucaí assistir ao grande desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Já dera entrevista a duas redes de televisão e a três jornais de circulação nacional! Os repórteres sempre perguntavam a Cleomar de onde ele tirava toda aquela alegria e disposição para acompanhar todas as escolas que atravessavam a passarela. E ele respondia a quem perguntasse:
- É ovo! É ovo de codorna batido com cerveja e mel.
Havia quem desconfiasse que o ovo de Cleomar tinha cocaína. Isso, sim, era fantasia. O Cleomar não passava da cervejinha com os amigos depois do expediente. Era sujeito direito, com esposa e dois bacuris pra engordar no caldo de feijão. A família sempre se juntava pra ver o Cleomar dançar na televisão. Isto eles faziam na birosca do Josair, que em época de carnaval varava a madrugada a servir cerveja e torresminho, feito pela mulher do Josair, a quem quisesse acompanhar o desfile pela televisão. "Esse Cleomar não nega a raça!", dizia o dono da birosca a cada vez que o gari, que era preto, aparecia na televisão. Todos assentiam, orgulhosos de ver um membro da comunidade sendo transmitido em rede nacional. A mulher do Cleomar era a que mais se orgulhava. Fora ela quem arrumara o uniforme do marido antes de sair de casa. No primeiro dia de desfile, ele aparecera na televisão com um botão do uniforme faltando (talvez só a mulher do Cleomar tivesse notado), defeito consertado por ela na mesma manhã em que o gari chegou do sambódromo. Agora ele estava perfeitamente apresentável, graças ao reparo perfeito que ela fizera.
- Olha lá! Olha lá! - gritou Oswaldo, filho mais novo do Cleomar.
Era o pai que aparecia mais uma vez diante das câmeras, fazendo da vassoura sua parceira nos passos de samba, cantado aos brados pelo puxador oficial da escola. O gari conduzia com maestria a magra vassoura, dando-lhe ares de uma verdadeira porta-bandeiras. "Esse Cleomar não nega a raça!", repetia pela enésima vez o Josair, e pela enésima vez todos concordavam. A exaltação durou pouco, logo a televisão cortou a imagem do varredor para mostrar uma das infinitas bundas que se escancaravam para as câmeras. Decepção geral... Nem o Palito, que gostava muito de ver bunda na televisão, deixou de lamentar o corte no amigo Cleomar.
- Daqui a pouco ele aparece de novo - disse Lazinha, numa tentativa de consolar os espectadores.
Mas o Cleomar não apareceu mais naquela noite... Nem no dia seguinte. E não apareceu até hoje. Teve gente que disse que ele sumiu porque tinha vergonha de voltar a ser um simples gari, sem a notoriedade a que já se habituara a ostentar. A mulher do Cleomar acha que ele fugiu com alguma loira vadia; mulher de gente famosa sempre corre esse risco. Os filhos acham que ele foi contratado pela televisão estrangeira para dançar nos "States" (mentira da mulher do Cleomar). O Josair continua dizendo que "o Cleomar não nega a raça". Mas a verdade ninguém sabe...
Posted by Radamanto at abril 18, 2002 3:02 PM