Faço parte daqueles que acreditam que ontem é passado, amanhã é futuro e hoje é uma dádiva, por isso chamado presente.
Somos todos pessoas especiais, não sei por que o McDonald's nos rejeitaria o emprego.
Emoção e aventura é a vida nas classes baixas.
A National Geographic nunca mandou equipes de repórteres para documentar a vida das minhas empregadas, um desserviço ao jornalismo. A primeira era macumbeira, a segunda teve um filho recém-nascido raptado, a terceira perdeu todos os bens numa enxurrada, a quarta abandonou o emprego para abortar, a quinta tentou envenenar o marido enchendo o feijão de raticida (“e o desgraçado só teve uma dor-de-barriga” – contou-me às gargalhadas). Dá pra ver que não peço referências a quem trabalha para mim, mas ando pensando em reconsiderar minha atitude liberal.
A única coisa que faço questão nas minhas empregadas é que saibam passar as calças com vinco. É a primeira e única ordem que consigo dar. Sei que grande parte da minha atitude leniente em relação às empregadas vem do fato de eu não me sentir à vontade para exigir algo de alguém pagando uma merreca por isso. “Passa a calça com vinco” já é uma ousadia. Não gosto de parecer um feitor das galeras de Ben-Hur
Eu queria ser triliardário. Seria um Medici, um Borgia. O dinheiro me traria uma liberdade pródiga. Exigiria o talento...
Poderia ditar o gosto. Sem precisar ser um crítico chatinho, eu poderia ditar o gosto. Melhor, poderia deixar o Ruy Goiaba ditar o gosto, e lhe pagaria milhões por isso.
Todo dia atenderia os interessados no meu dinheiro, segurando um flûte de champagne e dando meu veredito com o polegar. Não precisaria explicar minhas estranhas razões, mas faria questão de dizer os motivos de recusa aos que não recebessem as graças de meu bolso.
“Você tem uma cara esquisita e diz “assaz”, não vou produzir o seu filme”.
“Ninguém nascido em Rondonópolis pode ser escultor, mas se quiser tentar a carreira de pianista eu te pago cem mil por mês. Você tem um jeitão de pianista”.
“Não acredito que alguém feio possa escrever bonito. Esqueça a idéia do livro, mas passe no caixa e pegue uns dez mil para diminuir a tristeza. Se quiser, eu te banco uma plástica, daí nós podemos discutir a idéia do livro novamente”.
“Só pago a sua peça se você vestir o protagonista de índio no segundo ato. Short Adidas, camiseta de candidato a vereador e chinelo Havaianas. Uma pena azul na cabeça e ele tem que fumar Continental. Sim, o ato todo. Dane-se, não me importa que o personagem seja um aristocrata francês do século XVIII. É pegar ou largar”.
Seria doce mandar no mundo. Zeppelins gigantescos com o escudo do Glorioso cruzando os ares do mundo (passagem a R$ 1,99 com isenção de tarifa para santistas). Ter o jornal de maior circulação mundial e, de vez em quando, não publicar a edição diária, desculpando-se com os leitores no dia seguinte, dizendo que “ontem não teve jornal porque todo o pessoal estava de ressaca”. Financiar a candidatura de Maria Alcina à presidência da Colômbia.
As idéias para fazer gracinha são infinitas e seria cansativo insistir nos exemplos.
Nunca fiquei impressionado com nenhuma das “extravagâncias” dos milionários atuais, pois não se miram no exemplo das mulheres de Atenas.