novembro 3, 2003

Fazer graça, dançar samba depois do almoço

Faço parte daqueles que acreditam que ontem é passado, amanhã é futuro e hoje é uma dádiva, por isso chamado presente.
Somos todos pessoas especiais, não sei por que o McDonald's nos rejeitaria o emprego.
Emoção e aventura é a vida nas classes baixas.
A National Geographic nunca mandou equipes de repórteres para documentar a vida das minhas empregadas, um desserviço ao jornalismo. A primeira era macumbeira, a segunda teve um filho recém-nascido raptado, a terceira perdeu todos os bens numa enxurrada, a quarta abandonou o emprego para abortar, a quinta tentou envenenar o marido enchendo o feijão de raticida (“e o desgraçado só teve uma dor-de-barriga” – contou-me às gargalhadas). Dá pra ver que não peço referências a quem trabalha para mim, mas ando pensando em reconsiderar minha atitude liberal.
A única coisa que faço questão nas minhas empregadas é que saibam passar as calças com vinco. É a primeira e única ordem que consigo dar. Sei que grande parte da minha atitude leniente em relação às empregadas vem do fato de eu não me sentir à vontade para exigir algo de alguém pagando uma merreca por isso. “Passa a calça com vinco” já é uma ousadia. Não gosto de parecer um feitor das galeras de Ben-Hur
Eu queria ser triliardário. Seria um Medici, um Borgia. O dinheiro me traria uma liberdade pródiga. Exigiria o talento...
Poderia ditar o gosto. Sem precisar ser um crítico chatinho, eu poderia ditar o gosto. Melhor, poderia deixar o Ruy Goiaba ditar o gosto, e lhe pagaria milhões por isso.
Todo dia atenderia os interessados no meu dinheiro, segurando um flûte de champagne e dando meu veredito com o polegar. Não precisaria explicar minhas estranhas razões, mas faria questão de dizer os motivos de recusa aos que não recebessem as graças de meu bolso.
“Você tem uma cara esquisita e diz “assaz”, não vou produzir o seu filme”.
“Ninguém nascido em Rondonópolis pode ser escultor, mas se quiser tentar a carreira de pianista eu te pago cem mil por mês. Você tem um jeitão de pianista”.
“Não acredito que alguém feio possa escrever bonito. Esqueça a idéia do livro, mas passe no caixa e pegue uns dez mil para diminuir a tristeza. Se quiser, eu te banco uma plástica, daí nós podemos discutir a idéia do livro novamente”.
“Só pago a sua peça se você vestir o protagonista de índio no segundo ato. Short Adidas, camiseta de candidato a vereador e chinelo Havaianas. Uma pena azul na cabeça e ele tem que fumar Continental. Sim, o ato todo. Dane-se, não me importa que o personagem seja um aristocrata francês do século XVIII. É pegar ou largar”.
Seria doce mandar no mundo. Zeppelins gigantescos com o escudo do Glorioso cruzando os ares do mundo (passagem a R$ 1,99 com isenção de tarifa para santistas). Ter o jornal de maior circulação mundial e, de vez em quando, não publicar a edição diária, desculpando-se com os leitores no dia seguinte, dizendo que “ontem não teve jornal porque todo o pessoal estava de ressaca”. Financiar a candidatura de Maria Alcina à presidência da Colômbia.
As idéias para fazer gracinha são infinitas e seria cansativo insistir nos exemplos.
Nunca fiquei impressionado com nenhuma das “extravagâncias” dos milionários atuais, pois não se miram no exemplo das mulheres de Atenas.

Posted by Radamanto at novembro 3, 2003 4:18 AM