- É aqui, não é? A gente já chegou?
- Sim, agora começa o passeio.
- Não vão pôr aquelas gradinhas no vidro do carro?
- Acho que não precisa.
- Mas e se eles vierem pra cima da gente? E se subirem no carro?
- A gente espanta eles com pedrada, acelera o carro, sei lá.
- Olha lá um! Olha lá um!
- Cadê? Cadê? Onde?
- Ali! Que é aquilo que ele tá segurando? Olha só que coisa!
- Acho que são uns cadernos, uma calculadora também.
- Mas é muito legal, né? Nunca tinha visto assim de pertinho.
- Esse aí deve ser da Poli, ou da Física, talvez.
- Ai, não chega mais perto, não. Fico com medo.
- Nããã... Esses daí são mansos. Não fazem nada. Vamos descer do carro pra passar a mão?
- Não desce do carro! Não desce do carro!
- Deixa de ser medrosa. É mansinho esse aí. Olha a cara dele, não faz mal a ninguém.
- Tá, eu acredito. Mas fica aqui comigo. Vai que vem outro, dos bravos, e pega na traição.
- Ok.
- Olha lá!
- Que foi?
- Cê viu o que ele fez?
- Não.
- Ah, lá!
- Ulha! Que será que ele tá fazendo?
- Acho que tá repassando a matéria. Vai ver tem prova hoje.
- E esse povo lá estuda?
- Acho que os da Física estudam.
- É, tem uns que são meio esquisitos. Diz que dessa espécie aí da Física só tem macho.
- Mas como é que se reproduzem?
- Vai saber.
- Vamos ver os outros, senão a gente fica o dia inteiro vendo esse um.
- Verdade.
- Pra onde, então?
- Hmm... Pra Fefeleche?
- Direto pra lá? Não quer dar uma passadinha na Psicologia, na ECA pra ir esquentando?
- Ah, mas diz que a Fefeleche é o mais legal. Vamos direto pra lá.
- Tá bom então, ué.
(...)
- Olha que legal!
- Nossa! É um mais diferente que o outro, né?
- O que aqueles juntinhos ali estão fazendo?
- Parece que estão pintando uma bandeira, uma faixa.
- Cê consegue ver o que tá escrito?
- M... m... mu... muer... muerte!
- Muerte?!
- Parece que é.
- E o que tem embaixo?
- Cuba, acho. O que tá escrito no meio eu não consigo ver.
- Muerte... Cuba... Legal, né?
- Interessante. Interessante mesmo, viu.
- Olha lá, estão levantando a faixa. O de boina é o mais animado. Gostei mais do de boina.
- Eu gosto mais daquela ali de bata, com uns penduricalhos no cabelo.
- Ela grita mais, né.
- O que eles estão gritando? Consegue entender?
- Psss... Peraí.
- Acho que é um negócio de América Latina, só consigo entender a parte da América Latina.
- Tão legal, né?
- E não é?
- Será que pode dar pipoca pra eles? Eu quero dar pipoca pra eles.
- Ah, mas eles cheiram muito mal. Depois a gente vai ficar com esse cheiro.
- É, verdade.
- Olha aquele cabeludão! Que baita cabelo, hein?
- Um cabelão, benza Deus.
- Vamos passar pertinho com o carro.
- Vamos! Vamos!
- Cê viu só a olhada que ele deu?
- Brabo, né? Por que tão bravo?
- Esses daí são assim mesmo. Tem até mais bravo, é uma coisa da espécie.
- Tão legal ver eles assim, soltos. Ai, promete que me traz mais vezes?
- Claro, querida
- Olha aquele lá com o megafone...