E soou a terceira trombeta.
- Aí, não! Aí já é demais! Se o Gabriel está tocando em Dó e o Miguel está tocando em Mi, você entra com Sol, meu filho. É tão difícil assim? Diz pra mim, é tão difícil assim, fófi?
Os anjos param, se entreolham, não entendem nada. Quem era aquele sujeito, afinal?
Era Reginaldo, cenógrafo e diretor artístico.
- Pode parar! Pooooode parar! Mas que apocalipse é esse, gente? Olha a caracterização desses gafanhotos antropóides! Parece ala da Unidos do Cambuci. Ai, que vergonha, Senhor.
Reginaldo era dado a esses ataques.
- E olha essa Besta! Olha essa Besta! Parece uma besta do Fúria de Titãs, um Godzilla de massinha. Isso aqui é um apocalipse, baby. Eu quero som e fúria, glory and thunder.
E a Besta não entendia nada. Na sua indecisão, olhou para o Senhor e perguntou, constrangida: “Continuo?”. O Senhor fez com a mão para esperar um pouco.
Reginaldo, esbaforido, tentava botar ordem naquilo tudo. “Isso está parecendo o Circo Garcia” – gritava descontrolado. “Eu não tive que agüentar a vida inteira para terminar tudo desse jeito... desse jeito... amador!”
Reginaldo era muito exigente.
Num outro canto, dois anjos conversavam distraídos, um deles com o pé recostado no muro da Jerusalém Celeste, o antebraço apoiado na trombeta. Papeavam sobre o andamento das coisas, etc. Um deles apostava que o Nestor da rua Clementino Cunha não seria aceito, o outro protestava, dizendo que o Nestor, apesar “daquilo”, era bom sujeito e ia acabar bem.
Reginaldo interrompe:
- As gracinhas aí são figurantes?
Os anjos suspendem a discussão.
Reginaldo repete a pergunta:
- Figurantes? – batendo o pezinho, ele insistia.
O da trombeta toma a palavra.
- Não. Somos protagonistas. Ele canta no coro e eu toco na...
- Então os senhores estão fazendo o que aí no canto? Isso aqui não é ensaio, não, meu povo. E esse figurino! Quem cuida do guarda-roupa disso aqui? Quero falar com o figurinista já. Barra italiana em manto angelical não dá, eu não agüento. Vocês estão mais pra anjinho-da-guarda que pra anjo exterminador.
Reginaldo se afasta, deixando os anjos desconsolados. “Mas eu gosto tanto de barra italiana”.
Em sua inspeção geral, Reginaldo se intrometia em todos os detalhes.
Nada escapava a Reginaldo, cenógrafo e diretor artístico.
- E esses mortos levantando do túmulo?! Parece um clip do Michael Jackson. Mais energia, mais movimento! Mas com graça, com graaaça, leveeeeeza (Reginaldo acompanhava as palavras com gestos de ênfase). Não é todo dia que se ressuscita, vocês parecem uns mortos-vivos. Hahaha! Entenderam a piada?
Reginaldo era insuportável.
Cansado daquilo tudo, o Senhor manda o pessoal prosseguir. “Por favor, tentem ignorar, ele deve estar num dia ruim.”
E pelo apocalipse todo tiveram que aturar Reginaldo.
- E olha a Grande Prostituta, parece um travecão. Isso é o fim, O FIM.
Posted by Radamanto at junho 24, 2004 2:54 PM