- Você veja só, morreu o velho caudilho.
- Velho caudilho? Que chavão. Daqui a pouco começa a falar do cadinho da cultura brasileira. Cadinho parece palavra de mineiro.
- Mas você não gostava do Brizola?
- Eu? Eu, não. Mas era esperto, fazia merda aqui e ia pagar imposto no Uruguai.
- Não fala assim, foi uma tragédia nacional. Não viu nos jornais?
- Vi. Mas gostei mais da morte do Sérgio Vieira.
- Pois é, já são uns 300 dias sem Sérgio Vieira.
- E o Tim Lopes, então.
- Mas tragédia mesmo foi o Senna.
- A Aids não perdoa ninguém.
- Eu acho que mais tragédia foi Canudos.
- Que é isso! A maior tragédia foi o Descobrimento. Infeliz o dia.
- E o Golpe? Pior foi o Golpe! De um dia pro outro puseram a Jovem Guarda na rua e começaram a torturar. Mataram o Werner Herzog e tudo. Expulsaram o irmão do Clodovil.
- Aí é sacanagem mesmo.
- E teve também aquele acidente com o Fiat 147 em Goiânia. Matou um monte de gente. Era 88, não?
- O ano do Fiat?
- Não. O ano do acidente.
- Ahh... foi. Acho que foi. O ano das Diretas também.
- Como é que eles gritavam? Diretas-tá, diretas-tá... Comprei um quilo de Diretas, pra fazer manobra, pra fazer manobra-brá. Comprei um pé de porco, diretas-tá, pimenta calabresa, diretas-tá...
- Algo assim, algo assim. E tinha o Ulysses, lembra?
- Ah, nunca li Joyce. Mas gostava das músicas.
- Sim. Como era aquela? “Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina.”