julho 21, 2004

Estórias de caçada

Com seus trajes elegantes, os caçadores entram no bosque. Estão todos de casaquinho vermelho de pano duro, com botões dourados e gola militar. Caminham com cuidado, para não sujar a barra da calça branca, todos em silêncio.
De repente o chefe dos caçadores, que vai à frente do grupo, congela o passo no ar. Todos repetem o gesto, numa onda, até o último caçador da fila.
O chefe sublinha o silêncio, estendendo a mão espalmada ao lado da cabeça levemente tombada.
- Vocês ouviram? – ele faz a pergunta retórica.
Os caçadores sabem que quando o chefe pergunta algo não é pra responder. Ele faz essas perguntas de mentirinha.
- Acho que devemos ir naquela direção – comanda.
Os caçadores continuam a marcha em silêncio. Sempre em silêncio.
Aquele não parece um bom dia para a caçada.
Mais meia hora de marcha e, de repente, o chefe estaca, dramático como sempre.
- Acho que ouvi alguma coisa. Me dêem o apito.
O apito passa de mão em mão até chegar ao chefe dos caçadores. Um apito de prata, muito bonito, com uma perolazinha incrustada na parte de cima. O chefe dos caçadores assume um semblante franzido e sopra com força: “Prrrrrrrrrrruuuuuuui! Prrrrrrrrrrruuuuuui!” O silvo agudo, estilhaçado pelos troncos das árvores, se reparte por todo o bosque. Mas nenhum outro som responde.
- Estou certo de que ouvi algo – diz para si mesmo o chefe dos caçadores. Vou tentar o grito de caçada.
Sim, o grito ancestral dos caçadores. O chefe põe as mãos em concha diante da boca para amplificar o grito ancestral:
- Helloooooooooo, sailoooooooor!
Nada.
- Helloooooooooo, sailoooooooor!
Nada.
- Hellooooooooooooooo, sailoooooooooooor!
De orelha em pé, todos os caçadores buscam alguma resposta. De repente, do fundo da floresta, um som.

Aí chegou um negão e comeu todo mundo.
HAHAHAHA!

Posted by Radamanto at julho 21, 2004 5:39 AM