Literatura aqui é mato, rapaz
Aquele indiano acordava todo dia às três e meia da manhã e ia para o trabalho. Intocável de pai e mãe, seu ofício era limpar as latrinas da cidade. “Pelo menos não tenho que me alimentar de lixo hospitalar” – pensava sempre e se sentia feliz.
De madrugadinha o trabalho era melhor de fazer, quando o tempo estava fresco. Ao meio-dia que a coisa ficava difícil. Entrar numa latrina com aquele sol de matar camelo não era agradável, mas era melhor que comer lixo hospitalar, que ter um seio canceroso para o jantar.
Vestido apenas com uma tanga hindu, o indiano afundava até o peito nos dejetos, e às vezes tinha que mergulhar para desentupir algum cano. “Pelo menos tenho mais fôlego que qualquer brâmane carola” – pensava o indiano – “e não me alimento de lixo hospitalar, como muita gentinha faz”.
Era um intocável rico. Tinha uma tanga indiana, um bastão e um pote. Se orgulhava principalmente do pote de barro cozido.
Estava acima dos outros que não tinham um pote, certamente eram o tipo de gente que comia pernas amputadas.

Certa vez o indiano sentiu sede ao sair de uma fossa entupida. Estava tão quente que a água evaporara do pote (não era tão rico a ponto de ter um pote com tampa). Sua língua parecia uma lixa, de tanta sede. A visão já estava embaçada. Mal saiu da fossa e os dejetos já secaram sobre a pele, parecia um golem de excremento.
Viu uma velha debruçada numa janela, pediu um pouco de água. A velha não podia dar água na mão do indiano, que era intocável. Ele sabia disso, pediu que ela jogasse um balde d’água pela janela e ele beberia da poça que se formaria na rua, de quatro mesmo.
“Vagabundo” – a velha gritou. “Quer agüinha, né? Tá com sedinha, né? Miserável! Por isso que as coisas estão como estão, porque esses vagabundos não sabem o lugar deles! Vai pedir água pra tua mãe, desgraçado!” – e bateu a janela.
“Bom, pelo menos a velha não chamou a polícia” – pensou o indiano, e sorriu para si.
O pior é que estava todo aquele Ganges ali do lado. Ele poderia lavar-se, beber água. Mas um intocável não pode entrar no Ganges, porque as moléculas do Ganges entrariam em contato com o intocável e poderiam mais tarde tocar algum brâmane, algum sudra rio abaixo, e mesmo esse contato indireto repugna qualquer pessoa decente. Não é?
Sem outra alternativa, o indiano resolveu beber da fossa mesmo. Entrou, tirou a tanga, abriu o pano, imergiu-o naquela massa de fezes e urina, juntou as pontas e fez uma trouxinha cheia daquela pasta. Suspendeu acima da boca e espremeu a trouxinha, que liberava um líquido filtrado que, se tinha gosto ruim, pelo menos matava a sede. Repetiu a operação umas cinco vezes, até que não sentiu mais a língua formigando.
Trabalhou ainda até às onze da noite, quando foi para casa. Não foi a pé, como a gentinha. Foi de cajado.
No caminho para casa, comprou a refeição do dia: tripa de porco (a vaca é sagrada na Índia).
Comeu e foi dormir.
Antes, rezou para os pobres, que se alimentam de lixo hospitalar.
Posted by Radamanto at julho 27, 2004 5:51 AM