agosto 4, 2004

O reinado de Raimundo Lúlio

Vejo pessoas dizendo-se felizes por ver "alguém inteligente de fato na internet". Well, prefiro ver gente inteligente de biquíni, but...
As pessoas também ficam felizes em ver "uma boa surpresa na internet". O sujeito em frente ao computador abre uma página e exclama em faniquitos: "Oh, uma boa surpresa na internet. Quão agradável! Assaz prazeroso deparar-nos com uma boa surpresa na internet. Hei, pessoal, venham ver que boa surpresa na internet eu achei!" "Olha, mas não é que é mesmo? Estou surpreso! Como você acha essas coisas, Waldomiro? Enfim, alguém inteligente de fato na internet." "Não falei? Coisa fina, gente, coisa fina. Mexe com literatura, jornalismo cultural, só coisa inteligente. Tem o intelectual muito desenvolvido. Não é como esses que ficam por aí fazendo piadas gratuitas, que não têm nada a dizer e insistem em aparecer de qualquer jeito, essa gente que não tem conteúdo, que nunca leu nenhum russo de novecentas páginas, que nunca assistiu nenhum filme francês com discussões fundamentais - fun-da-men-tais - sobre o ser e a essência do ser. É disso que o país precisa: inteligência, gente.”
Vocês conhecem o tipo.
Esse mesmo sujeito é aquele que lê que “Deus está morto” em um livro qualquer e em vez de tomar a coisa como mera frase de efeito, pára com a mãozinha no queixo, olha abobalhado para a parede e tem a súbita revelação: “É mesmo, é mesmo. Deus está morto... E eu que nunca tinha pensado nisso. Preciso me libertar dos preconceitos, a gente tem que saber que Deus está morto. Amanhã vou chocar todo mundo no escritório, vou colocar “Deus está morto” no screensaver do meu computador. Quando as pessoas vierem me perguntar o que é aquilo, impressiono todo mundo com minha inteligência: “Li isso de um filósofo alemão. O quê? Vocês não conhecem filosofia alemã? Mas é uma gente sem conteúdo mesmo, viu. Assim vocês não evoluem, gente. Tem que ter a cabeça aberta, tem que se libertar dos preconceitos. Se vocês quiserem, eu indico uns livrinhos pra vocês depois. É por isso que esse escritório não vai pra frente.”

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Ser inteligente agora é chic. Há todo um sex appeal em demonstrar inteligência. Se São Tomás fosse vivo, as mulheres freqüentariam suas palestras para gritar “gostoso” durante a exposição da unidade da trindade. Claro que isso não é de hoje. A gregaiada já achava uma gracinha ser inteligente. Exemplo grátis: Alcibíades, na calada da noite, tentou praticar “ilicitudes” com Sócrates; Sócrates era mais feio que mudança de pobre; logo, ser inteligente tornava Sócrates really hot.
A mesma coisa hoje em dia, só que bem pior. Os franceses, que não são bobos nem nasceram em Barbosa, sabem muito bem fazer graça. Até o zarolho do Sartre se deu bem pagando de intelectual. E todo mundo percebeu.
Desde então, cresceu assustadoramente o número de pessoas inteligentes no mundo. É um mais gênio que o outro. Mesmo as mulheres, que nunca precisaram ser inteligentes porque têm coisas muito melhores para ostentar, mesmo elas agora precisam folhear o Mais! para se sentirem atraentes.
Eu, que sou burro, espero que em breve o excesso de inteligência no mundo acabe beneficiando os tontos. Como no Rio de Janeiro onde, dizem, o excesso de marombados tem feito as mulheres ficarem atraídas por magrinhos branquelos.
Ainda vou ter meu harém, mil mulheres lindíssimas me adulando: “Olha, que lindinho! Tão estúpido... Fala “pobrema” de novo pra gente ouvir, fala.” “Diz que não sabe quem é Marcuse.” “Confunde Ziembinsky com Kandinsky de novo pra gente ver. Ohhh, cutch, cutch…”


Posted by Radamanto at agosto 4, 2004 11:29 PM