Esses livros que lemos sortido, como os de contos, de poemas, de crônicas, de curiosidades, sempre que os abrimos ao acaso, nunca se abrem ao acaso. Há sempre duas ou três páginas que abrimos obsessivamente, onde o livro está mais esgarçado ou onde os maços justapostos que compõem o livro se dobram. Então ocorre que toda vez que abro este meu volume de contos brasileiros, uma edição velha de 1958, me deparo "ao acaso" com a nota biográfica de João Alphonsus e nesta página, por algum automatismo a mim obscuro, meus olhos sempre lêem este trecho antes de tudo: “Seu nome de escritor impôs-se quando, em pleno fastígio do modernismo, publicou a história comovente de uma galinha cega, que imediatamente o colocou na fila em que figuram os nossos melhores cultores de histórias curtas.”
Primeiro acho a coisa ridícula: sou perseguido por uma galinha cega há anos e nunca pude saber mais sobre seu destino além de que é cega, e é galinha. O conto que está no livro não é o da galinha.
A nota já me informou também mil vezes de que a história da galinha cega é comovente.Eu acredito, eu acredito.E me ponho a imaginar o drama da pobre galinha, que ela deve bicar pedras quando caça baratas, que vai ciscar e acaba dando um coice no galo, que vai subir no poleiro e dá de testa no gradil, etc.
Fico sempre com raiva do editor também, porque informa que João Alphonsus escreveu essa história da galinha, que de tão comovente impôs seu nome de escritor e “o colocou na fila em que figuram os nossos melhores cultores de histórias curtas” e, em vez de publicá-la, escolheu uma outra história qualquer.
Certamente que a história da galinha já virou para mim um clássico. Mesmo que eu nunca a tenha lido, recomendo a todo mundo. E digo que é muito comovente, muito mais comovente que “Negrinha”, do Monteiro Lobato, a história campeã em apelação emocional jamais escrita em qualquer língua.
É certo que a galinha seja o animal mais estúpido inventado pelo Criador. Se cega, ainda por cima, toda uma carga dramática se soma a sua estupidez, o que causa um efeito emocional confuso, misto de patético, de piedade, de compaixão, de cômico.
Um dia eu queria ter autoridade literária só para dizer que essa galinha é o personagem mais representativo, mais rico da literatura brasileira. Entendam: virei fã da galinha. Tenho por ela uma empatia que não consigo ter por Bentinho, a negra Bertoleza, Fabiano, Policarpo, Riobaldo, Nelsinho, o delicado.
Talvez se o Brás Cubas entrasse numa roupa de galinha e usasse uma venda, eu gostaria mais dele. Mesmo que continuasse repetindo aquela sua fala irritante de comercial do Tostines.