- Quanto tempo, rapaz! *tap, tap, tap
- Faz uns oito anos, né?
- Por aí, por aí.
- E que você anda fazendo da vida?
- Corretor de seguros.
- Largou a engenharia, então?
- Ah, o mercado tá saturado. Engenharia não dá futuro pra ninguém.
- E a Marly, como tá? Fiquei sabendo do casamento mas não pude ir. Sabe como é a vida de representante, né. Um dia aqui, outro ali. Não tem lugar fixo.
- Ah, a Marly tá boa. Mas eu larguei, não sabia?
- Largou?! Não, não sabia. Mas também, mulherengo como tu, não ia durar muito mesmo. Hehehe.
- Não, foi isso não.
- Não bateu o gênio, então?
- A Marly é um doce, não tem como não gostar dela.
- Ué, mas por que largou então?
- Ah, virei viado.
- Hahaha.
- Não ri, não. Olha o preconceito, hein.
- Pára de zoar com a minha cara. Se fosse qualquer outro eu acreditava, mas você?!
- Sério mesmo. Meu negócio agora é pinto.
- Hahaha! Tô vendo que não perdeu a mania de palhaçada. Lembra aquela vez que você disse pro Mafra que...
- Tô falando sério, rapaz. Eu quero é rola.
- Ihhhh... Esse negócio tá estranho, hein.
- Mas é, ué.
- Ah, vá, vá. Empurras a parede feroz, então?
- Mas com gosto mesmo.
- Do nada? Enviadou do nada? Como é que você pegou esse costume feio?
- De farra, pura farra.
- Como assim, de farra?
- Fui numa festa um dia aí, acabou virando a maior suruba. Terra de ninguém, rapaz, terra de ninguém. Coisa de aristocracia francesa.
- E?
- Tava lá, meio breaco, vendo aquela putaria comendo solta... De repente um cara lá chegou perto de mim e pôs o pinto pra fora. Pensei: "Quer saber? Vou sentar nessa bosta". Aí já viu... Viciei.
- Mas não me diga uma coisa dessas!
- Ah, mas foi de farra, não foi viadagem. Só dou de farra mesmo. Aproveitar a vida, né?