janeiro 20, 2005

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Os dois andando pela rua, ela chupa um sorvete:

- Obrigada pelo sorvete.
- Nem pense nisso.
- Você é meio esquisito, sabe?
- Ah, é?
- É. Você fica olhando a gente de um jeito... um jeito esquisito.
- Bem, eu não sei muito bem o que isso significa mas gosto de qualquer coisa que chame mais a atenção em mim que a minha calvície.
- Haha... Não, eu falo sério. Parece que você está sempre preocupado. É isso, é como se você estivesse o tempo todo preocupado.
- Com o quê?
- Não sei. A guerra com a Coréia, talvez. Sabe que muita gente diz que eles têm armas nucleares?
- Ouvi dizer.
- Você não fica preocupado?
- Eu?
- É.
- Hm... não.
- Não?
- Não.
- Você não sabia que as bombas de hoje são muito piores que as bombas que jogaram lá no Japão? As coisas evoluem, mesmo que pra pior. Dizem que a Coréia do Sul poderia ser evaporada em minutos.
- Não me interessa.
- Como não te interessa?
- Não interessando.
- Mas eles são seres humanos. E tem velhos, crianças, gente que não teria chance de fugir...
- Não me interessa.
- Ah, claro. Então é por isso.
- O quê?
- Seu olhar. Você é um psicopata.
- Hahaha.
- Arrá, eu estou certa! Percebi que você riu de um jeito nervoso. Está querendo disfarçar.
- Tá certo, é verdade. Eu sou um psicopata.
- Ah, tá!
- Que é?
- Eu não acredito.
- Por quê?
- Um psicopata! Você está só brincando, é isso. Como eu sou boba! Cheguei a pensar que fosse sério. Vê se dá pra acreditar, hahaha!
- Não. É verdade, eu sou um psicopata.
- Pára! Não gosto desse tipo de brincadeira. Não me deixa com medo, seu bobo.
- Veja bem, essa é uma experiência única. Quantos psicopatas você conhece?
- Eu, eu...
- Na verdade eu acho que você deve conhecer uns dois. E já deve ter falado com pelo menos uns quinze. Há muitos psicopatas, sabia? Eu adoro essas estatísticas. Eu pego esses compêndios de psiquiatria e vejo as porcentagens todas. Depois eu fico calculando quais as chances de nós cruzarmos com pessoas com este ou aquele problema, e quais as chances de termos um amigo perturbado. Pelos meus cálculos, eu conheço pelo menos uns dois psicopatas além de mim, quatro obsessivos, doze homossexuais, e uns cinco borderlines. Quantos anos você tem?
- Hum, por quê?
- Quantos anos você tem? Vamos lá, eu não vou sair espalhando.
- Tenho vinte e seis, e não estou preocupada em revelar minha idade, apenas achei a pergunta estranha.
- Tá, vinte e seis. Quantas pessoas você considera que sejam seus amigos íntimos?
- Como assim?
- Amigos íntimos. Amigos em quem você confia.
- Hmm... deixa eu ver... hmm... três.
- Bem, está na média. E quantas pessoas você conhece superficialmente?
- Bem... eu acho que é impossível de calcular.
- Impossível de calcular é igual a cinqüenta. Vejamos, vejamos... Você conhece pelo menos mais um psicopata, mas pode ser que eu seja o primeiro que você conhece, probabilidade não dá certeza. Mas acredito que você tenha relações íntimas com três pessoas com perturbações mentais graves e você... Você costuma checar se todas as luzes do apartamento estão desligadas antes de sair de casa?
- Eu? Não.
- Checa o registro do gás mais que oito vezes ao dia, pra ver se está fechado?
- Hmm... acho que não.
- Tem alguma fantasia sexual envolvend...
- Ei, espera aí!
- O quê?
- Que perguntas são essas?
- Nada, eu só queria saber se você deve ou não ser contabilizada em minhas estatísticas pessoais. (tira um caderninho do bolso e começa a escrever, repete para si mesmo enquanto escreve) Ficou intimidada quando questionada sobre intimidades sexuais, provavelment...
- Calma lá, Sr. Psicopata. Eu não tenho nenhum problema sexual. E vi na TV a cabo que psicopatas, sim, é que tem problemas sexuais. Disseram que a maioria é bicha ou impotente.
- Você não deveria tratar informações de televisão como fonte científica confiável. Na verdade, a maioria de nós, psicopatas, não tem nenhum problema de ordem sexual. Eu diria que o que nos motiva é um certo impulso estético. O que acontece é que alguns de nós substituem completamente o instinto sexual pelo impulso estético, ou alguns ficam tão estéticos que descambam para a bicharia. Mas a maioria de nós leva uma vida normal, muitos se casam e têm filhos, inclusive. O que acontece é que os casos aberrantes sempre chamam mais a atenção e acabam criando uma certa imagem na mídia. E a mídia, você sabe...
- Isso está me cheirando a defesa de classe.
- Pois não é. Conheço bem o assunto e minhas informações são fidedignas e, além do mais, não me interessa o que as pessoas pensam sobre nós.
- Bem, a televisão disse que psicopatas são inteligentes e dissimulados. Você parece estar de acordo com o protocolo tentando sair assim pela tangente.
- Isso é um elogio ou uma acusação?
- Você é inteligente, deve ter entendido.
- Não entendi, mas vou ser dissimulado e fingir que não estou interessado na sua opinião.
- E você está?
- Sou dissimulado e inteligente, portanto temos uma situação interessante aqui. Afirmo que sou dissimulado, o que confunde a definição mesma de dissimulação. Por outro lado, isso seria muito inteligente, pois criando tal situação deixo você sem parâmetros seguros de julgamento, o que, por outro lado, confirma minha inteligência e, em última instância, meu poder de dissimulação. Ademais, a dissimulação pode ser um atributo da inteligência, assim como a inteligência pode ser um requisito para a dissimulação. Mas esse problema é falso, pois não é uma questão de "isso ou aquilo", e sim "isso e aquilo", e não há nenhuma contradição nisso tudo, afinal. Assim, fui apenas dissimulado inventando toda essa estória e deixando de responder a sua simples pergunta. O que é muito inteligente, diga-se de passagem.
- Deus, você é um psicopata! O que eu estou fazendo falando com você?
- Pense que o mundo é um zoológico com várias espécies diferentes de pessoas. A variedade de tipos humanos é como a variedade de animais, há muito que se observar. Para quem se interessa, evidente. Você está falando comigo agora porque quer observar uma espécie que nunca viu, ou pensa que nunca viu.
- E que espécie de "animal" é você, então?
- Eu... eu sou um leão.
- Hahaha, hahaha (começa a se contorcer de rir).
- O que é?
- Hahahaha (ainda se contorcendo). Um leão? Pois não parece. Hahaha!
- Ah, é? E pareço o que então?
- Parece... hmm... deixa eu ver... você parece um... um... uma foca.
- Uma foca!? Uma foca!? (nervoso)
- Hahaha... sim... uma foca! Tem um jeitinho de foca. Hahaha!
- E você parece uma porca!
(pára de rir imediatamente) - Uma porca!? Uma porca?!!!
- É. O focinho, sabe. É parecido. E também essas suas orelhas...
- O que têm minhas orelhas?
- Ah, sei lá. Você sabe.
- Sei o quê, foquinha?
- Você já deve ter visto orelhas de porco, são parecidas.
- Minhas orelhas? E você? Com essa sua cara estúpida! Só falta a gente jogar uma bola pra você sair equilibrando ela no nariz! Você também toca buzina, foquinha?
- Espera lá, espera lá. Não ofende, não. Eu não quis ofender.
- Não? Me chamou de porca, disse que eu tenho focinho de porca e orelhas de porca e não quis ofender?
- É que eu gosto de porco, sabe? De carne de porco, e focinhos de porco, e orelhas, e tudo mais. Você daria uma bela de uma feijoada. Sabe, eu sou psicopata, um pouco canibal às vezes, e aí eu tenho esses desejos, faço essas comparações na minha cabeça.
- Meu Deus, você é um monstro!
- Eu? Monstro? O que você acha melhor? Eu dizer que acho você uma delícia, lato sensu, ou eu te propor casamento e deixar você atrás de um fogão, cuidando de uns filhos malditos o resto da vida?
- Eu gosto de crianças.
- Bem, devo confessar, eu também.
- Como assim?
- Gosto de crianças.
- Em que sentido?
- Como assim, em que sentido?
- Você sabe, você...
- Não, claro que não! Sua mente pervertida! Você acha que eu seria capaz de...
- Eu não sei. Você é o primeiro psicopata declarado que eu conheço. Eu não sei. Você bem podia ser um Herodes, sei lá. Vocês têm algum código de honra, algum tabu, alguma...?
- Moral, você ia dizer. Bem, sim. Nós psicopatas nunca deixamos de ter algumas restrições. Certamente há aqueles cujas restrições não estão muito de acordo com o que as pessoas chamariam de normal, mas devo dizer que a maioria de nós diverge muito pouco do catolicismo.
- Então me diga: quais são as suas restrições?
- Bem, eu não ataco crianças. Também não ataco pessoas que estejam impossibilitadas de se defender por algum defeito físico ou doença, mesmo porque perderia toda a graça. E também não ataco pediatras.
- Não ataca pediatras? Por quê?
- Bem, é que eu gosto de crianças, já disse. Os pediatras cuidam das crianças, então eu não ataco pediatras. E eu sempre quis ser pediatra, apesar de ter cursado engenharia civil.
- Um monte de gente cuida de crianças. Se você fosse mais lógico, também excluiria as freiras de orfanato e as babás da sua lista de vítimas em potencial.
- As freiras eu também não ataco, mas por uma questão religiosa. Já as babás, confesso que nunca tinha pensado no caso.
- E como você faz?
- O quê?
- Você sabe (faz com as mãos o gesto de estrangular alguém).
- Ah, eu tenho vários métodos. Depende muito do meu humor, sabe. Alguns psiquiatras dizem que os métodos escolhidos pelos psicopatas têm uma relação direta com o nível de dopamina no cérebro; quanto mais dopamina, mais violento o método. Eu não sei, nunca fiquei medindo meu nível de dopamina, só sei que meu humor influencia. Mas eu não gosto de lambança, minha pressão cai se eu vir muito sangue, então acabo sempre preferindo alguma coisa que não seja muito nojenta.
- Como o quê?
- Veneno, por exemplo. Veneno na comida, veneno na bebida, veneno misturado em algum medicamento, veneno nos lugares menos esperados... Tem aquele filme que o cara põe veneno nos cantos das páginas do livro que ele sabe que a vítima vai ler, e ele sabe que a vítima costuma molhar as pontas dos dedos com saliva sempre que muda de página; nunca tentei, acho que porque só mato esses analfabetos. Tem também aquele cara que faz uma vela com veneno misturado na parafina e põe no quarto da vítima, pois a vítima sempre deixava a vela acesa no quarto. Conforme a vela queima, o ar vai ficando impregnado de veneno. Genial, não é?
- Credo! Como eu posso achar genial uma coisa dessas?
- Ah, que é isso, deixa de ser preconceituosa. Vai dizer que nunca quis matar alguém.
- Bem... já. Mas é diferente, eu tinha motivo. E não matei!
- Eu diria que você é muito vingativa e pouco corajosa. Eu nunca matei ninguém que me fez mal. Não acho que isso seja motivo, detesto vingança. E eu tenho coragem de matar, coisa que você não tem.
- Quer dizer que eu devo ter admiração por esse seu... jeito, então? A sua coragem?
- Encare como quiser.
- Muito bem, Sr. Psicopata, esse é o meu prédio. Não sei por quê, acho que não devo convidá-lo a subir.
- Ah, não tem problema. Eu estou acostumado com a discriminação, a gente vai endurecendo o coração com o tempo, não precisa se desculpar.
(com jeito malicioso) - Vejam só! Que psicopata bonzinho e compreensivo! Esse seu olhar perigoso é excitante, sabia?
- É? Não sabia. Você está com o canto da boca sujo de sorvete.
- E você gosta de sorvete?
- Gosto.
(aproximando-se do rosto dele) - Por que não vem provar, então?
(ele abre um riso largo) - Eu não tomo gelado, pode fazer muito mal à saúde.

Posted by Radamanto at janeiro 20, 2005 7:17 AM