- ...e todo mundo sabe que o objetivo do ser humano é espalhar seus genes.
- Por quê?
- Porque o objetivo da vida é se multiplicar.
- Pourquoi?
- Porque é.
- E isso vai até onde?
- Como assim?
- Até quando a vida vai se multiplicar?
- ¡No lo comprendo!
- Isso vai parar no planeta ou não tem fim? Porque, por exemplo, esse negócio de vida pode continuar pra sempre. Se a vida é tão obcecada assim por se multiplicar, pode ser que a intenção dela seja preencher todo o Universo.
- Hmm. Desenvolve, Clóvis.
- Primeiro a vida toma conta da Terra, transformando o planeta numa bola gosmenta vital. Não contente, essa bola começa a formar um bico em direção à Lua, numa sanha infinita por dominar o Todo Universal. Daí a vida - A Vida - vai pulando de planeta em planeta, de galáxia em galáxia, até preencher tudo, até os espaços vazios, formando um todo compacto do tamanho do infinito.
- Que barbaridade.
- Mas se o objetivo da vida é se multiplicar, e só esse, é isso que eu devo esperar dela, não?
- Claro que não.
- Claro que sim! E tem mais: nós estamos colaborando com esse objetivo sórdido da Vida. Estamos treinando o câncer, por exemplo, para resistir a tudo. Fritamos o câncer com radiação, botamos veneno pra ele, tentamos de tudo quanto é jeito destruí-lo, e o bichão resiste. Daí que vai se tornar a forma mais resistente de Vida, sobrevivendo inclusive ao cataclisma nuclear, ele e aquela barata. Pro câncer pegar a barata e usá-la como instrumento de multiplicação perpétua não custa muito. No final só restará o Grande Compacto Canceroso.
- Que absurdo! Nunca ouvi tamanho absurdo.
- Absurdo é mulher fumando charuto. E espera sentado que você vai ver só.