fevereiro 4, 2005

Deus não é "tipo um bicho que comanda o Universo"

Grande parte das pessoas se converte ao ateísmo por discordar da "hipótese ridícula de um senhor barbudo que habita o céu". Por causa da imagem do barbudo tornam-se descrentes, como alguém que joga fora a Natalie Portman junto com a água do banho. "Coisa mais ridícula acreditar em Deus, coisa mais antropocêntrica. Se os asnos tivessem um deus, ele também teria a forma do Dr. Dirceu, e dormiria num caixão." (Goethe)
Sim, sim, realmente. Eu não acreditaria num deus que fosse, por exemplo, simplesmente energia. "Se Deus fosse energia, a CPFL nos mandaria a conta" – já dizia Carlos Drummond. Também não vejo motivo para acreditar em "uma força". Ou ainda "uma coisa que você pode sentir e que está no todo". Como assim? Está tentando entrar na sua cueca agora? Você está sentindo?

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Mais absurda, e igualmente incrível, é a idéia bastante difundida de que Deus é "tipo um bicho que comanda o Universo". Uma espécie de alien numa sala de controle jogando Atari: "Oh, não! Perdi mais uma vida. I was going for the record. Se não fosse aquele anjo tropeçar no fio eu tinha batido aquela minha partida do Matusalém."

Outras definições, mais clássicas, usam a imagem do "motor imóvel do mundo". Como assim, motor imóvel? Faltou gasolina, é isso? Você engatou a primeira? Soltou o freio-de-mão? E se a gente empurrar, Deus pega no tranco?
As atribuições profissionais à divindade também são coisa comum, o mais famoso sendo o "Deus Arquiteto", às vezes chamado GADU. A isso devemos objetar que um arquiteto não resolve todas as questões em que Deus está implicado. Um problema de justiça, por exemplo. Neste caso, um deus que tenha cursado direito certamente seria mais adequado, e para isso existe o "Deus Juiz". Ou um problema de saúde, não seria bom um Grande Arquiteto:

- Senhor, me livra desta hérnia!
- Infelizmente eu cursei arquitetura, cheguei a pensar em fazer medicina, foi minha segunda opção na Unesp, inclusive. Mas teria que morar longe, daí já viu... Sobre sua hérnia, nada posso fazer, mas eu tenho um projeto interessante para reformar aquele seu chalé em Campos do Jordão.

deus01.jpgTem também aqueles que exigem condições para sua crença. Por exemplo: "eu só acreditaria num deus que dançasse". É pra levar a sério? É pra citar na mesa do jantar? É a heresia do "Deus Pé-de-valsa", o que só aparece depois das onze vestindo sapato de verniz? É gnose? A pessoa tem a insolência de fazer exigência e exige uma coisa dessas? "Eu só acreditaria num deus que soubesse a escalação da Seleção de 82" ou "eu só acreditaria num deus que tivesse lido todo o Balzac" não seria menos ridículo. No entanto essas coisas fazem sucesso, fazem sucesso. O duro é agüentar os ateus que jogam o bebê junto com a água fora da bacia.

Posted by Radamanto at fevereiro 4, 2005 3:35 AM