fevereiro 17, 2005

O nous

Renato era, desde o albor da juventude, alguém que gostava das filosofias. Estudava os sistemas dos vários filósofos com dedicação fervorosa, interessando-se pouco ou quase nada por assuntos que não tivessem o estrito objetivo de descobrir a Verdade. Submetia cada sistema de cada autor a um exame escrupuloso, procurando encontrar, aqui e ali, pepitas de conhecimento puro que pudesse incorporar a sua própria filosofia, que vinha construindo desde que recebera aquele folheto acintoso das Testemunhas de Jeová. Seu método de pesquisa da Verdade, basicamente, era uma depuração gradual das verdades fundadas pelo sistema específico que estivesse estudando. Submetia as demonstrações a via formal aristotélico-escolástica, primarcialmente dedutiva, a via dedutiva-indutiva e a indutiva-dedutiva, a demonstração a more geometrico, ao reductio ad absurdum, ao método converso, a dialética-idealista, a dialética socrático-platônica, sobretudo indutiva na busca do logos analogante, ao método circular de Raimundo Lúlio e, finalmente, a dialética-concreta, que inclui a pentadialética, a decadialética, a dialética simbólica e a dialética noética.
"A dialética é meu cavalo" – costumava repetir – "a lógica minha armadura, a imaginação minha lança e a Verdade é o castelo que conquistarei para dar aos homens."
Aos 40 anos Renato decidiu que era hora de ter uma esposa. Fez mentalmente uma apreciação das possíveis mulheres do seu convívio que lhe serviriam bem como companheira e se decidiu por Fabíola, que trabalhava no guichê ao lado do seu no Banco do Brasil. Fez-lhe a corte e conquistou-a no exato momento em que, distraído, bateu com a cara num poste de semáforo enquanto tentava lhe explicar a diferença entre apodítico e apofântico. Ela riu descontroladamente, ele tentou forçar uma piada sobre fenomenologia, e os dois se casaram em março.
Depois de um ano e meio de casados, veio o bebê. Renato queria que se chamasse Parmênides, a mãe queria que fosse Robson. Dona Rosa, a sogra de Renato, desempatou e a criança foi chamada Guilherme.
Renato, quando não estava trabalhando no banco, passava o dia todo em casa, lendo e anotando num caderninho as idéias que coubessem em sua filosofia. A mulher, de licença, passava o dia cuidando do bebê, ajudada pela mãe. Foi quando Renato teve a iluminação por que tanto aguardava.
Numa quarta-feira depois das oito, quando se ouvia a musiquinha dos créditos do Jornal Nacional, o jorro da Verdade Absoluta preencheu o coração de Renato. Alado, transcendente, todo etéreo, foi acender um cigarro na varanda. Contemplava o céu, a disposição das estrelas, e pela primeira vez entendia aquilo tudo. De uma vez para sempre lhe foram reveladas as regras físicas, morais e metafísicas do Universo (que ele rebatizou de Tríade Una da Potência Anímica, TUPA). A Filosofia tinha, afinal, atingido seu ápice na pessoa de Renato. Era o fim da Dialética.
Sua sogra, que até então estava no quarto ajudando a cuidar do bebê, veio até Renato dar-lhe o aviso:
- Precisa de mais fralda. As que você comprou domingo, só tem mais duas.
Renato, calmo, terminou de tragar longamente o cigarro e encarou a sogra.
- E eu com isso?
Dona Rosa não quis começar naquele momento os desentendimentos todos que haveriam de ter pelos anos seguintes. Cordial, disse num tom puramente curioso:
- Como assim, meu filho?
- É isso mesmo! "E eu com isso?"
- Mas o menino já está todo assado. Tem que trocar a fraldinha dele sempre.
- Não vou comprar fralda porcaria nenhuma.
Ainda tentando ser cordial, Dona Rosa fez a pergunta investigativa, sem alterar o tom:
- Mas por quê?
- Porque não trabalho pra vagabundo gastar meu dinheiro em fralda.
- Ma Dio Santo... Como assim?
- O menino, aquele vagabundo. Se ele quiser ter a fraldinha dele, que vá trabalhar pra comprar. Eu que não sustento pilantra dentro de casa!
- Mas é uma criança, homem de Deus!
- E daí?
- "E daí" como? É uma criança, é seu filho!
- E por isso eu vou dar comidinha na boquinha do folgado? Vou comprar fraldinha pra ele? Mas nem pensar! Nem pensar! Ele que vá arrumar o dinheiro dele, com as negas dele, e que não me venha encher a paciência com fraldinha, com comidinha, com nhinhinhinho... Aliás, diz pra mãe dele que é pra parar agora de dar de mamar pra esse vagabundo, que eu ainda chuto a bunda dele dessa casa antes que alguém possa dizer "apeirokalia". Aliás, não diz pra mãe dele, não. Diz direto pra ele, na cara dele, e diz que foi o pai dele que falou!
- Mas, mas... Ele não entende nada, é só um recém-nascido.
- Ô se entende. Ôhohohooo se entende! – Renato se afasta da sogra e vai jogar a bituca na rua. Em um mês morreu de febre-dos-pântanos na África

Posted by Radamanto at fevereiro 17, 2005 6:19 AM