março 17, 2005

The inner circle

Em homenagem a todos os chatos, velhos e adultos.

(...)

"Firma-te bem, que escada tal curtindo",
disse o Mestre, ofegando de cansaço,
"é que estamos de tanto mal partindo."

Eu já fatigado, o espírito lasso,
apressava-me em ir o quanto breve,
foi quando o mestre me deteve o passo:

"Mas antes ainda que eu daqui te leve,
um último lugar devo mostrar-te,
onde até mesmo o mal nunca se atreve.

É para onde vão os que tiveram na arte
de ser chatos o seu dever de ofício
e fizeram da chatice o estandarte.

São aqueles que enfadar têm por vício,
para quem encher o saco é alegria,
que não têm de piedade um só resquício."

"Mestre", perguntei ao meu sábio guia,
"haverão de merecer pior remessa,
que os traidores que agora pouco eu via?"

"Sim", me respondeu o maior dos poetas,
"pois quem trai o faz somente um dia,
enquanto quem chateia o faz por décadas."

Ao ouvir essas palavras eu tremia,
imaginando a pena a tais danados;
se Lúcifer os traidores comia,

O que então estaria reservado
aos chatos, que em tanto eles excediam?
Qual seria deles o horrendo fado?

Ao ver-me desse modo preocupado,
Virgílio interrogou-me a tal respeito
"Por que trazes o cenho tão cerrado?"

"O que me angustia agora o peito",
respondi sem alçar sequer a fronte,
"é pensar no que desses será feito".

"Se por tal deixe que eu mesmo te conte:
nem é dentro do Inferno que habitam,
pois se há na entrada o horrendo Caronte,

Que barra os que ignavos se anunciam,
da mesma forma estão todos os chatos
além dos traidores que tilintam:

Para eles há um apartado espaço,
onde pagam sua pena justamente,
que com eles não quer ter nem o Diabo.

Em vez de aguilhões ou rio fervente,
estão condenados a conviver
uns com os outros, e assim para sempre."

"Martírio mais cruel não pode haver",
disse ao Mestre ainda estupefato,
"tão cruel quanto justo pode ser."

"Nessas tuas palavras não há reparo;
quando aos vivos retornares anuncia
que o castigo do chato é o próprio chato."

Logo após uma sombra aparecia
co'uma mala sem alça a carregar;
era Smart, que sua pena assim cumpria,

E com o tal fardo pôs-se a me falar:
"Gastei toda minha vida em vãs querelas,
me esforçando em todos aporrinhar.

Agora neste mundo só de treva,
uma mala sem alça como eu
por toda a eternidade me entreva.

Que fosse meu pecado ser ateu,
pois a isso eu achei fizesse jus,
mas pior pena ao que não crê em Deus

É guardada aos que vivem com o Cruz."
Pois que mal terminadas as palavras,
surge a alma ignóbil de Alexandre Cruz:

"Esse aí de mim reclama por nada,
em vida nunca de mim diferiu,
agora que a sentença a nós foi dada,

Quer fingir em vão que nunca me viu;
fugindo eternamente com esta mala,
fingindo em vida não ter sido vil.

Eu que, veja, não incomodo em nada,
só sei levá-lo ao caminho do bem,
lembrando-o de não fazer criançada."

Fugi correndo, dizendo "amém".
Virgílio, ligeiro, fugiu comigo:
"Assim é como os chatos se entretém",

Disse, e "leva um conselho contigo:
aquele que na Terra for um chato,
no além os chatos chamará de amigos."

E saímos por ali, a rever estrelas.

Posted by Radamanto at março 17, 2005 5:00 AM