Vocês já conhecem o "do Juruna", que expliquei aqui. O "do Juruna" é estratagema lícito e pode ser usado por qualquer um, quase em qualquer situação (basta ter o que atirar nos outros, o que se arranja fácil).
Apresentamos agora outro estratagema, baseado originalmente num argumento de autoridade que é utilizado por Deus no Livro de Jó.
Pois bem, a uma certa altura do livro, quando Jó começa a se queixar de ter nascido para ter que suportar os grandes padecimentos que Deus lhe infligiu para ganhar uma aposta contra o Capeta, o próprio Deus lhe aparece e, entre várias outras justas considerações, lança o desafio: "Por acaso você consegue pegar um hipopótamo?". O pobre Jó, que àquela altura não conseguia pegar nem gripe, nada responde (mesmo porque Deus estava em longa dissertação e não convém interromper nesses casos). Termina que Deus vence a discussão.
Como o leitor perspicaz já deve (ou deveria) ter percebido, este estratagema pode ser estendido a outras proezas que não supomos o adversário ter realizado ou poder um dia realizar. O próprio Deus, aliás, inquire Jó sobre sua capacidade de "pescar o Leviatã ou apertar-lhe a língua com uma corda", entre outras coisas, o que, c’mon, realmente não dá pra esperar do Jó.
Entram nessa categoria admoestações do tipo "Por acaso você já comeu a Charlotte Casiraghi?" ou "Por acaso você consegue levantar o Jô Soares?", e por aí vai. Não é preciso ter realizado esses feitos fabulosos para o estratagema funcionar. Deve-se apenas esperar que o adversário, meio atordoado com a pergunta descabida, diga "não" e daí completar imediatamente: "Então não me enche o saco".
Se acaso o adversário protestar, deve-se insistir no ponto de maneira infantil:
- Mas o que iss...
- Comeu?
- Isso não tem nad...
- Perguntei se comeu.
- Que tem a ver se eu...
- Hullooôôôooouuu?! Co-meu?
- Eu nem sei quem é Charl...
- Co.......
......meu?
Este estratagema chama-se "do hipopótamo", e tem aplicação mais ampla até que o "do Juruna", pois não requer artefatos à mão para jogar em cima dos outros e prescinde da platéia, fundamental para o "do Juruna".