maio 25, 2002

Frio, frio!

Ah, o frio. Agora eu posso ouvir Leonard Cohen ("Songs"), Velvet Underground, Yo La Tengo, Bossanova (deles) e Allison Goldfrapp. Posso ouvir Dummy (do Portishead) sem parar. Posso ouvir sonatas p/ piano várias, Schuberto, Gershwin e até coisas com violino (instrumento pelo qual costumo ter ojeriza, culpa do calor).
Posso também voltar a ler metafísica alemã e me reconverter ao cristianismo.
Acabou Duke Ellington e coisas gregas (pertencem ao calor). Acabou a tendência suicida e o prazer em assistir coisas idiotas na TV (adeus, Márcia Goldschimidt).

Posted by Radamanto at 2:23 AM

maio 24, 2002

Édipo Gay

Numa das versões do mito do Édipo, ele mata o pai por causa de um rapazinho (ambos, pai e filho, eram perobos). Até onde sei, Freud se livrou de explicar essa (no que certamente não teria grande dificuldade).
Pensei em dramatizar a versão.
Uma das soluções seria "Édipo come o pai na encruzilhada e mata a mãe em Tebas" (aos gritos de "Sua peruuuuuaaaa! Die!").
Mais picante: Come o pai na encruzilhada, dá para a Esfinge ("Ai, não sei a resposta. Me devora logo sua cadela!") e faz de Jocasta sua manicure.
Outra: Dá para o pai e o séquito, para a Esfinge, para Tirésias, pro Creonte, pro Mensageiro, pra Jocasta e para o Coro.
Talvez eu escreva, talvez eu escreva.

Posted by Radamanto at 5:59 AM

Epifania

Uma vez eu atingi a essência da minha porca existência. Estava no hospício. À minha direita um rapaz me contava que ficou louco porque tomou batida de amendoim. À minha esquerda um outro cara repetia uma ladainha incessante e desconexa (os dedos com queimadura de segundo grau, às vezes não distinguia o cigarro dos dedos). Um calor assassino. Ao fundo tocava “Melô da popozuda”. Outro maluco, matricida, espera no leito para ser assistido por mim. Naquele exato momento eu entendi tudo.

Posted by Radamanto at 4:42 AM

Festival do minuto

Eu pensei em fazer um filme pro Festival do Minuto. É o seguinte:

Um homem entra no banheiro com cara de quem acabou de acordar.
Coça o cabelo, boceja e alisa o queixo.
Abre o armarinho do banheiro e retira um reluzente Gillette Sensor Excel (Match 3 é pouco estético).
Segura a gilete com uma das mãos e com a outra coloca um tanto de pasta de dentes sobre a lâmina.
Enfia a gilete na boca (como se escova fosse) e com movimentos vigorosos começa a escovar.

Importante: O homem não pode demonstrar dor, tem que manter a expressão entediada. Atenção para os efeitos sonoros (devem referir vagamente a um marulho de sangue).

Acabei não fazendo o filme. Faltou câmera e ator (mesmo eu prometendo que tiraria o refil do Sensor quando o sujeito estivesse com ele na boca).

Posted by Radamanto at 3:51 AM

maio 21, 2002

Dies irae

De pequeno eu morria de medo de ir para o Inferno. Achava que Deus tinha um livrão em que anotava os pecados da gente. Uma vez preenchido o livrão, babau. E o Inferno que eu previa era dos piores, até o Dante ia ficar chocado.
Se à época tivesse alguém pra me explicar a doutrina cristã, me aliviaria muito (haveria a chance de eu resgatar os pecados me arrependendo). Mas não: eu estava condenado.
Tinha pesadelos horríveis em que o capeta mastigava minha cabeça e me assava num espeto giratório.
Meus pecados terríveis eram as pancadas que eu vivia dando no meu irmão e o prazer incontrolável que sentia quando uma vizinha manipulava-me o bombeirinho. Estes não eram pecados simples, eram pecados mortais; e meu maior medo era pecar mortal. Um pecado simples - tipo xingar ou contar uma mentirinha - só preenchia uma linhazinha no livrão de Deus. Mas fazer sacanagem com a vizinha ou bater no irmão com um cabo de vassoura era pecar mortal, enchia páginas inteiras no livrão (e ele não era tão grande assim).
E ainda havia outros perigos. O maior de todos, a quaresma.
A quaresma era como um campo minado. O que podia passar como pecadinho em períodos normais virava pecado mortal quando na quaresma. Mas eu não conseguia me controlar. Nos primeiros dias da quaresma podia até me comportar como um santo (o que causava grande estranheza entre os familiares), mas lá pelo terceiro dia eu já estava xingando como antes, fazendo coisas com a vizinha como antes e batendo no pobre do meu irmão. E a cada ato desse me vinha quase imediatemente à consciência: "Meu Deus, pequei mortal!".
Depois de um tempo nessa nóia, nem rezar eu rezava mais. Pra quê? Já estava condenado mesmo...
Até que aprendi o recurso do arrependimento e pude ter um pouco de paz. Tudo bem, tinha que ser sincero, mas só Deus sabia o tamanho da sinceridade com que eu me arrependia! Daí me senti de alma lavada. Vesti uma camisa listrada e fui pecar por aí.
Mas de tempos em tempos eu me arrependo (sinceramente, claro).

Posted by Radamanto at 1:27 PM

maio 15, 2002

Projeto Genoma

Não, não vou discutir ciência. Não entro em assunto de gente que acredita em átomo. Vou falar é das atitudes dessa gente, um sobrevôo de balão sobre esses espíritos pervertidos.

Biólogos! Ai, agora já disse...

Biólogos são uma tristeza. Sua motivação clara é acabar com toda dignidade humana. Querem nos rebaixar a ponto de termos que ceder o lugar no ônibus para baratas ou lontras.
Idolatram um sujeito que nos fez descendentes de macacos (eu não sou, minha genealogia remete a Perseu e Sileno).
Não tem um biólogo que não se derreta de gozo ao contar aquela estória da barata que sobrevive ao cataclisma nuclear.
Eu achei que essa coisa toda - esse desejo de nos diminuir como espécie - tinha um limite. Não!
Investiram milhões em pesquisa, fizeram um recrutamento de especialistas maior que do Projeto Manhattan, inundaram a mídia de propaganda e alardearam aos quatro ventos o resultado de seu precioso, magnífico, nunca visto e espetacular Projeto Genoma. E o que dizia o Projeto Genoma? Qual a grande conclusão a que chegava? O que é que todos deveriam saber e mudaria o curso da espécie humana? Isso:

"O Homem tem apenas o dobro de genes de um verme e quase o mesmo número de genes que um rato."

Carnaval nos laboratórios de genética! Festas de arromba nos congressos de Biologia! "Conseguimos!", grita a corja ensandecida, enquanto se deliciam com a cara de abatimento moral impressa na cara de quem ouve a boa nova.
Ah, vão catar coquinho!
Para minha sorte, não acredito em genes (assim como não acredito em átomos). Se quiserem me pegar, da próxima vez vão ter que fazer melhor.

Posted by Radamanto at 1:33 PM

maio 9, 2002

Encyclopaedia Philosophicae

Cartesianismo: Escola filosófica que deu as caras no século XVII e cujo princípio fundamental é acreditar na existência de si mesmo. O cartesianismo surgiu num momento histórico conturbado, em que as pessoas duvidavam da própria existência, o que causava vários acidentes nas vias públicas e promovia a desunião da sociedade. A afirmação cartesiana "cogito ergo sum" varreu a Europa quando foi anunciada. As pessoas sentiram-se extremamente aliviadas com o "ergo sum"; o que vinha antes podia ser qualquer coisa.

Verbetes relacionados: aspirina, Pelo Telefone (in v. samba), clonagem, feminismo, Pinça de Petean, instrumentos de percussão, José, Ortega e Gasset.

Posted by Radamanto at 2:33 PM

maio 5, 2002

Agradeço a Camila e Simone

Agradeço a Camila e Simone pelo maravilhoso almoço de domingo em comemoração a minha data natalícia.
O pato com laranjas estava esplêndido, assim como o bolo de morango.
Os trocadilhos com pato também estavam ótimos (aquele da "depressão pós-pato" principalmente). Peço desculpas por ter dormido como um porco após a lauta refeição (coisas da idade, a gente já não tem aquela disposição de quando era jovem).
Prometo retribuir com um jantar onde lhes apresentarei meu "oeuf bouillon" e as maravilhas do "pão-e-água", pratos de minha própria criação.

Posted by Radamanto at 10:47 PM

O nascimento da tragédia

Seis de maio de 1979. Numa pequena cidade do interior paulista um fenômeno chama a atenção: uma estrela paira sobre a cidade desde o dia anterior. Os cidadãos, aterrorizados, não sabem o que aquilo pode significar. Uns acreditam que a estrela é o signo da peste, outros que se trata da chegada de um salvador; uns outros crêem que é o presságio de uma nova era e ainda há aqueles que interpretam o sinal como "grandes chances do Botafogo ganhar o campeonato".
Pra acabar com a dúvida, foram consultar o velho Terto, adivinho oficial da cidade e vendedor de bilhetes de loteria ("borboleta, olha a borboleta"). O velho Terto, que até então nem tinha notado a estrela, foi rápido na interpretação do sinal:

- É que vai nascer um moleque aí e o pessoal lá de cima preparou esse showzinho pra quebrar a monotonia da cidade.

O moleque em questão era eu, que às 11:30 hs do dia 6 de maio de 1979 dava o ar de minha graça neste mundo.
O pessoal do hospital teve dificuldade em organizar os curiosos que se acotovelavam para dar uma espiada em mim. Aqueles que conseguiram dar uma olhada hoje contam que eu apenas dizia "Tira essa gente nojenta daqui!", "Aumentem o ar-condicionado!" e "Traz lá um chopp que eu não posso com leite". Contam também que em certo momento, enquanto a turba ainda se amontoava na maternidade, surgiram três homens com roupas estranhas, que se diziam reis de não-sei-onde e que tinham que entregar uns presentes ao "recém-nascido que bebe".
Não queriam deixá-los passar, mas um deles ameaçou entrar com camelo e tudo no quarto e o pessoal acabou consentindo. Traziam ouro, incenso e um disco do Agepê. Dizem (eu não me lembro dos fatos) que aceitei de bom grado o primeiro presente. Já quando me ofereceram o incenso eu rejeitei dizendo que "era coisa de hippie". O disco do Agepê eu dei pra minha mãe, que gostava de Agepê àquela época.
O estigma de fenômeno me acompanhou por muito tempo e eu tive dificuldades em provar minha absoluta normalidade. Minha infância foi um inferno, vinha gente de todo lugar querendo que eu comparecesse a casamentos onde faltava vinho e que andasse sobre a água (uma vez quiseram me jogar à força numa piscina; só consegui me livrar ameaçando mandar descer o fogo dos céus sobre a malta que me carregava, o que, para meu azar, só fez aumentar minha fama). Mesmo as crianças da minha idade não me deixavam em paz e sempre vinham com aquele papo de "ei, não é você que faz mágica?", ao que eu, irritado, sempre respondia: "Não sei, pega aqui na minha vara de condão".
Com o tempo as pessoas se convenceram de que não tenho nenhum poder e sou até bastante medíocre. Mas ainda tem uns idiotas que me encontram na rua de vez em quando e, com sobrancelhas de quem é muito perspicaz, me falam entre-dentes: "Você, hein? Enganou todo mundo mas eu sei... Você, hein?" Nada posso fazer além de balançar a cabeça melancolicamente...

Posted by Radamanto at 10:40 PM

maio 1, 2002

Ofélia é que era mulher de verdade

Já adolescente, enforcava aula pra assistir à Cozinha Maravilhosa da Ofélia.

Nada a ver com a comida.

É que a voz da Ofélia me arrepiava a penugem da nuca (nunca entendi por quê). Eu ficava imóvel, estático mesmo, prestando o máximo de atenção àquela voz enquanto uma corrente elétrica percorria lentamente minha espinha. Puro prazer.

Como fiquei viciado em Ofélia, passei a apreciar a beleza de sua baixela e a discrição eficiente de Aparecida, sua assistente. Era o melhor programa da TV brasileira, quiçá mundial.

Posted by Radamanto at 9:18 PM

Quando pequeno

Quando pequeno era peralta e traquinas. Vivia as maiores aventuras e me metia em grandes confusões.

Mas nada me bastava.

Isso tudo era a busca da realização de um desejo: queria viver no mundo de Toddynho, meu reino de Cocanha infantil.

Posted by Radamanto at 9:16 PM

Decepar a cana, tomar chuva de cana queimada

Graças ao bom Deus há muito eu não tenho que andar de ônibus pela cidade onde vivo. Nada pior que o contato humano sob um calor senegalesco, dentro de um caixote que sacoleja, vagando por entre bibocas no subúrbio. Tudo isso sob uma chuva constante de restos de cana queimada.
Colocaram ar-condicionado nos ônibus da cidade (deve ter sido a Secretaria de Higiene Pública). Isso melhoraria a situação mas... não.
Além do calor de estourar pipoca no sabugo, há que se contar com outros fatores do ambiente de Ribeirão, entre eles o povo.

É um povo de hábitos curiosos, incompreensíveis aos forasteiros como eu. Quer ver só?

Apesar de os ônibus atuais contarem com ar-condicionado, os habitantes locais pedem ao motorista que mantenha o aparelho DESLIGADO. Além disso, exigem que ele ligue outro aparelho que lhes agrada mais: o rádio. E as estações de rádio que eles querem ouvir têm nomes curiosos como Rádio Conquista, Clube ("tá na Clube, tá legal!") e Melody FM (cujo símbolo é uma boca lambendo os lábios).
É uma beleza você viajar no bumbão sentindo aquele cheiro de modess cozido, ouvindo um Bruno & Marrone ("seu guarda eu não sou vagabundo/ eu não sou delinqüente/ sou um cara carente").

Não sei até quando vai agüentar meu distanciamento antropológico. Penso em me desfazer da minha coleção de facas.

Posted by Radamanto at 6:14 AM

Recordar é viver

Mas diz uma coisa: todo esse alarde em torno dos transgênicos não tem um quê de Revolta da Vacina?

Posted by Radamanto at 5:23 AM

Calor demais, gente

Os gregos, primitivos infantilóides de imaginação feérica, achavam que tinha uma entrada para o Hades na Espanha.
Eu não sei se é verdade, nunca estive na Espanha.
Mas eu sei de Ribeirão Preto. Se existir o Inferno clássico, com muito enxofre, gente sendo imersa em merda fervente e, principalmente, imensas labaredas, se existir esse Inferno, as suas portas se encontram sob a cidade de Ribeirão Preto.
Às vezes, enquanto eu ando e sinto o chão estalar sob meus pés, enquanto as catedrais começam a rachar e eu me transformo numa estátua líquida de suor, eu fico formulando várias hipóteses:

1. Todo este calor é realmente emanado do Sol.
2. Há um vulcão inativo sob a cidade, preparando uma grande travessura.
3. A porta do Inferno está sob a cidade, a menos de 10 metros do solo.

Depois de muito meditar, sempre fico com a opção 3.
Mas nem tudo são dores: quando a Revelação vier, teremos uma vista privilegiada.
Enquanto Seu Lobo não vem, eu apenas sugiro que coloquem uma placa na entrada da cidade: "Aquele que aqui entrar, abandone todas as esperanças... Ah, e compre um ar-condicionado."

***

Às vezes, quando minha língua seca e minha visão empalidece, eu vejo a miragem de um shopping center com ar-condicionado entre as golfadas de calor que sobem do chão em brasas.

Posted by Radamanto at 5:11 AM

Alerta: novo vírus!

Um novo vírus está à solta na Internet. Acidentalmente, cientistas criaram um vírus africano que se desenvolveu a partir de experiências com transgênicos, clonagem, células-tronco e uma cópia pirata do Windows 3.11.
O vírus paralisou o sistema de grandes empresas americanas e queimou um liquidificador no bairro de Madureira, no Rio de Janeiro.
Como é um vírus africano, não há competidores naturais na América, e o vírus se espalha com grande rapidez.
O vírus vem anexo a uma mensagem com o título "Don't open".
Se você receber uma mensagem com o título "Don't open", tire imediatamente as mãos do teclado e/ou mouse e vá se afastando lentamente do computador. Se você estiver descalço, procure isolar-se do contato com o solo. A partir de 5 metros de distância da CPU, você já pode começar a correr (procedimento indicado). A seguir, procure alertar o mais rapidamente as autoridades.

Repasse esta mensagem a todas as pessoas da sua lista de e-mails.

Posted by Radamanto at 4:45 AM