outubro 31, 2002

Entrevista

Outro dia uma entrevistadora veio me perguntar sobre o que eu achava de cidadania.

Desci as calças e mostrei-lhe o Anderson.
"Ceci n'est pas une pipe”, ela exclamou levando a mãozinha à boca, blush.
"Mas até que é uma referência", completei com olhar gaiato.
Como a situação não se resolvia e um guarda municipal se aproximava, tentei adiantar o assunto.
"E aí? No more questions, fofa?"
"Ah, não. A próxima era sobre ética e acho que aqui não é lugar pra você responder".

Nemo Radamanthus impune interrogatio.

Posted by Radamanto at 5:04 AM

outubro 30, 2002

Defendo quota para anão

Defendo quota para anão.
Anão só consegue emprego em circo e pornochanchada.
Ninguém leva anão a sério, nem em reunião de centro acadêmico.
Todo mundo acha que anão come pouco, compra roupa infantil e por isso deve ganhar menos.
Ninguém cede lugar no ônibus para anão.

O anão deve ser amado e protegido, só assim poderá exercer sua cidadania.

Posted by Radamanto at 4:27 AM

outubro 29, 2002

Pêro-botelho

Lendo que minha doce amiga tentou votar no 21 para presidente e governador, lembrei-me de que no primeiro turno arrisquei um 666 para senador. Eu juro que tinha alguma esperança de que o capeta aparecesse na tela mas... nada. Já não se faz programador de urna eletrônica com senso de humor neste país.

Posted by Radamanto at 12:22 PM

Piadinha à quatro mãos

---com a participação de Carnívoro

E diz que o SENAI vai abrir um curso novo: Torneiro Mecânico com Habilitação em Presidência da República.

Hahahaha, eu se divirto.

Posted by Radamanto at 11:41 AM

outubro 27, 2002

Angústia no Dasein

Heidegger me disse que pobre dança samba porque é de-cadente e é chegado numa public-idade. Heidegger é a-lemão e, portanto, ba-baca. Minha única restrição ao samba é que seja comentado por Heidegger. Alemãozada do caralho! Vão comer chucrute e fazer pacto com o capeta, seus malas!

Posted by Radamanto at 6:31 PM

outubro 26, 2002

Os cara

Eles são pirado e têm um jeito de andar que é genial.
Eles têm umas roupa e uns acessório que são do peru.

Eles manjam você de cima em baixo por trás daqueles óculos maneiro.
Você nem se ligou e os cara já tão na fita já faz milênio, véio.
Se você marcar touca três palito, os cara tão numa que cê nem sonhava que podia rolar.
Isso tirando que os cara têm uns esquema que só neguinho entrando na treta pra botar fé.
Pô, os cara são foda.

Posted by Radamanto at 7:14 AM

Fala, garoto!

Não discrimino ninguém por ser idiota.
Ser idiota - dizia Schopenhauer - é um dos direitos fundamentais do Homem.
No entanto, as coisas se complicam quando o idiota alcança certos cargos.
Mas eu não estou a fim de falar e vou passar a bola para o nosso convidado de hoje, o tarado de pijama, Nelson Rodrigues. Fala, Nelson.

“Até o século XIX o idiota era apenas o idiota e como tal se comportava. E o primeiro a saber-se idiota era o próprio idiota. Não tinha ilusões. Julgando-se um inepto nato e hereditário, jamais se atreveu a mover uma palha, ou tirar uma cadeira do lugar. Em 50, 100 ou 200 mil anos, nunca um idiota ousou questionar os valores da vida. Simplesmente, não pensava. Os "melhores" pensavam por ele, sentiam por ele, decidiam por ele. Deve-se a Marx o formidável despertar dos idiotas. Estes descobriram que são em maior número e sentiram a embriaguez da onipotência numérica. E, então, aquele sujeito que há 500 mil anos limitava-se a babar na gravata passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente, etc. Houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas”.

Obrigado, Nelson. Agora você já pode voltar pra lá. Boa noite pra você também.

Bem, vejam só: o que o Ortega precisou de um livro inteiro pra falar, o nosso amigo Nelson Rodrigues disse numas poucas linhas. Depois dizem que brasileiro não tem poder de síntese e não sabe diferenciar apodítico de apofântico.

P.S.: Americano acha que tá com a bola toda mas não sabe falar. Chamam sensível de sensitive. Ora, sensitive é médium kardecista, bando de ignorantes!

Posted by Radamanto at 6:37 AM

outubro 25, 2002

Eu sou sensível

Como nunca postei letra de música neste blog, me sinto pior que os outros. Resolvi então começar por cima e colocar uma letra de minha autoria. Ela faz parte de um CD que eu estou fazendo já faz tempo, CD este que atende pelo nome de Sentimentos.
Já tenho várias músicas, entre elas Tadinho de Mim, Mandruvá Sagrado (Holy Looper) e a faixa-título Sentimentos (que traz o verso sublime “nos teus seios profanos me encontro/ totem, tabu”). Não vou pôr as cifras porque não adianta de nada sem a melodia. De qualquer forma, a poesia fala por si.

Marionetes do Destino

Não há fuga, só o encontro marcado
Não há nada, nem perdão, nem pecado
O destino, essa Moira, esse fado,
Esse enfado, essa adaga
Marionetes sem alma, sem corpo,
Uma sombra que vaga

Um navio sem o seu timoneiro
Nas mãos do destino estamos
Esse frio titereiro

Nada nos resta a não ser da sina a marca
O mundo não presta, ninguém pode fazer nada
O passado não ouve, só quem sabe a Deus pertence
O futuro foi ontem, o horizonte interroga o tempo ausente

Tenho vontade de voltar a ser menino
E jamais aprender que nós somos
Marionetes do destino
Marionetes do destino
Marionetes do destino

A propósito, quando a música estourar nas rádios não estranhem o fato do autor chamar-se Paulinho Sentimento, pois trata-se do meu nome artístico.

Posted by Radamanto at 8:05 PM

Cachorrinho Samba na Fazenda

Vejo muita gente comentando arte por aí. Nada contra mas, sinceramente, acho comentário sobre arte coisa de viado. O pessoal da classe média com pretensões intelectuais discrimina quem nunca leu Proust mas acha normal que o sujeito seja vegetariano.
Tenho dois julgamentos sobre obras artísticas: ou a coisa é massa, ou a coisa é paia.
Bach é massa, Mozart é paia
Nabokov é massa, Thomas Mann é paia
Nássara é massa, Braguinha é paia
Van Gogh é massa, Dalí é paia
Cachorrinho Samba na Fazenda é massa, Aventuras da Baleia Dorinha é paia.
Fácil, não é?
Podem estar pensando: “ele não tem cultura, por isso tem essas opiniões de filisteu”. A esta crítica precipitada respondo que já li TODA a Coleção Vaga-lume (o melhor é Um Cadáver Ouve Rádio) e fui alfabetizado lendo a enciclopédia Trópico. Li todos os volumes da Trópico pelo menos seis vezes cada um. E então pergunto: alguém aí já leu a Trópico seis vezes? Hein? Hein? Pensa bem antes de criticar, mano, que o papai aqui é estudado.

Posted by Radamanto at 7:11 PM

outubro 24, 2002

A neurologia gay

Oliver Sacks é adepto da neurologia gay. Escreve livros gays, em que conta histórias gays e as comenta de maneira pouco máscula. Cita Hume, Nietzsche e Bergson como quem cantarola Freddy Mercury e Village People. E quem já o viu em documentários pôde ver seus trejeitos denunciadores.
Veja bem, não estou criticando o homem. A melhor vertente de algumas ciências é a ala cor-de-rosa. Já em casos como o da psicologia, a vertente gay descamba para a bichinha baiana, e aí é que começa a perobagem de mau estilo.

Posted by Radamanto at 8:08 PM

Montaigne vs. Campos bros.

Cap. LIV, Livro I

Das vãs sutilezas

Os homens recorrem por vezes a sutilezas fúteis e vãs para atrair nossa atenção. Assim, os que escrevem poemas inteiros em que todos os versos começam pela mesma letra. Na antiga literatura grega deparamos com poemas em forma de ovo, de bola, de asa, de machadinha, obtidos mediante a variação das medidas dos versos que se encurtam ou alongam para, em conjunto, representar tal ou qual imagem (...).


Vejam que por vezes a crítica precede certos movimentos artísticos “modernos” em pelo menos algumas centenas de anos.

Posted by Radamanto at 8:08 PM

outubro 22, 2002

Não resisto à infâmia


- Nietzsche!
- Saúde.
- Deus! Acho que estou Maupassant..
- De quê? Gripe?
- Não, uma dor no braço esquerdo, parece que irradia pro peito.
- Ih, rapaz, Foucault!
- Credo! Não me assusta!
- Não se preocupe. “Dante o perigo, alighieri”, dizia minha avó.
- Postura difícil.
- Bach! Questão de se acostumar. Mas se a dor Voltaire, não Descartes a possibilidade de um enfarto. Com essa sua mania de só comer Bacon...
- Deus, será que eu me Safo dessa?!
- Fique tranqüilo, qualquer coisa eu te levo a l´Hôpital.
- Me Dalí aquela cadeira, que eu tô começando a sentir de novo.
- Se acalma Zenão pode piorar. Assim está Cômodus?
- Sim, obrigado.
- Também! Neste calor você vai usar Capote!
- Gosto de estar elegante.
- Se é assim que use um Adorno, não esse vestuário pesadão.
- Caravaggio! Eu aqui à beira da morte e você vem com Eça?!
- Não seja Brutus!
- Ah! Vai Pasteur!
- Vai você, seu Vermeer! Homero Anunzzio da morte já é suficiente pra te deixar em pânico.
- Só vocês, Hipócrates, fingem não temer a morte.
- O quê? Não Sausurre. Fale alto, covarde!
- Não me provoque que a dor Volta, bastardo! Quer me matar?
- Isso até que não seria Mao de todo.

O que estava sentado parte pra cima do outro. Começa a pancadaria: Poe! Poe!
Os dois rolam pelo chão, tudo fica Confúcio mas Da Vinci minutos e os dois já fizeram as pazes. Não há qualquer Eco da discussão, os dois vão relaxar tomando um Scott.

Não digam que não avisei.

Posted by Radamanto at 3:18 AM

Mad Marx

Me disseram que se as coisas andarem como muita gente quer, lá por 2005 habitaremos uma terra estranha e deserta.

Onde hoje está o prédio do Congresso Nacional será instalada a Cúpula do Trovão. De lá Elza Soares comandará shows de gladiadores, entre estes figurando o poderoso Master Blaster (um ser simbiótico formado por Delfim Netto e Heloísa Helena).

Os brasileiros combaterão para dominar os últimos reservatórios de feijoada, agrupando-se em gangs perpetuamente em disputa, e será o caos.

Mas não sei se tudo isso é verdade, quem me contou não merece confiança.

Posted by Radamanto at 1:22 AM

outubro 21, 2002

Não me inveje, trabalhe!

Diante de determinada situação política que perigosamente se avizinha, decidi começar a construir a balsa. Visitei umas borracharias e pedi o que de melhor havia em câmaras de pneu para caminhões. Infelizmente nenhuma pareceu muito confiável e, portanto, minha próxima tarefa é criar algo que reforce as câmaras. Também tenho que providenciar a estrutura que se sustentará sobre as câmaras. Estou tendo complicações em projetar o compartimento de home theater, mas pelo menos já esquematizei o sistema de captação de água da jacuzzi. A sala de leitura parece problema fácil de resolver, mas pelo jeito terei que desistir do piano. Ainda não resolvi o problema do lastro mas um amigo que conhece dessas coisas disse que o melhor seria adotar o sistema de “lastro líquido”, aproveitando o reservatório de whisky. Aviso que a balsa será planejada para 3 passageiros, o que aumenta as chances de que pelo menos um chegue ao destino (haverá um freezer para conservar os corpos dos outros passageiros em caso de canibalismo necessário). Por uma questão de justo privilégio, somente eu poderei andar armado pelas dependências da balsa.
Aqueles interessados em tomar parte no projeto, favor entrar em contato.

balsa001.jpg


Não se preocupem, a figura acima é apenas a ilustração do meu primeiro protótipo.

Posted by Radamanto at 7:37 PM

outubro 18, 2002

O mais deselegante dos suicídios

Nunca encontrei exemplo de suicídio mais bizarro.
Quem nos conta a história é ele, o prudentíssimo, Michel du Montaigne. Está no Livro I, no capítulo XLIX (“Dos costumes antigos”).

"(...) limpavam o cu (os antigos) com uma esponja; eis por que o vocábulo spongia é obsceno em latim. Essa esponja era fixada na extremidade de um bastão, como o prova a história do indivíduo que levado às arenas para ser entregue às feras pediu para satisfazer suas necessidades e, não tendo outro meio de suicídio, enfiou a esponja e o bastão na garganta, asfixiando-se."

Eu nem vou comentar.

Posted by Radamanto at 2:04 PM

Ai como eu gostava

O dia que alguém me mostrar uma alameda que tenha álamo eu juro que tiro uma foto e solto um rojão. Não sei como é no resto do país, mas por estes rincões nunca vi álamo em alameda. De qualquer forma, é um logradouro bonitinho.

Posted by Radamanto at 2:03 PM

outubro 17, 2002

Esta carta eu mandei há uns 3 meses para uma revista aqui da cidade. Não sei por que, até hoje não tive resposta.

Caros senhores da revista Vida:

Sou leitor assíduo de vossa revista. Em geral, aprecio
a qualidade das matérias, principalmente daquelas que
promovem os valores de nossa cidade. Também me agradam
as entrevistas, tanto aquelas em que figuram
personalidades de vulto nacional (como a entrevista com
o deputado José Genoíno) como aquelas realizadas com
gente de nossa região. "A revista Vida, por exemplo, é
leitura honesta e de qualidade", sempre dizia aos que me
indagavam sobre órgãos de imprensa de nossa região.
No entanto, grande decepção abateu-se sobre mim ao
folhear as páginas da edição de abril (no. 231). A
chamada de capa trazia os dizeres "Escola de doutor",
referindo-se aos 50 anos da Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto. Fiquei contente da revista tratar de um
assunto tão interessante e que tanto orgulho traz ao
nosso povo ribeirãopretano. Não é preciso dizer que
dirigi-me imediatamente à página 27, onde figurava a
matéria da capa. Grande foi minha decepção!
Não pela matéria que, ademais, estava excelente. É que à
página 26, logo ao lado da referida matéria, encontrava-
se um anúncio de página inteira do Motel Village,
encabeçado pelos dizeres "é um luxo só!". Não sou
puritano, ninguém que tenha um aparelho de TV em casa
pode, nos dias de hoje, chocar-se com anúncios de motel.
O motel, aliás, é um estabelecimento comercial como
qualquer outro e, como tal, tem o direito de anunciar
seus serviços onde bem entender. O mesmo digo da
revista. Tanto faz que anuncie produtos de sex-shop como
equipamentos para ginástica. O que me fez quedar pasmado
diante do anúncio é um detalhe, que talvez apenas os
mais atentos tenham percebido. No canto superior direito
do anúncio há uma foto de uma das suítes que o motel
oferece a seus freqüentadores. Nesta foto, se olharmos
novamente para o canto superior direito, veremos a
figura de um televisor em que aparecem duas pessoas
fodendo, possivelmente uma cena de penetração anal. Que
tais cenas apareçam em revistas especializadas ao
público consumidor de pornografia é coisa natural, mas
quando estão impressas em páginas de respeitáveis órgãos
informativos quer dizer que algo vai mal em nossa
sociedade. Desde então proíbo meus filhos de folhearem a
revista e instruo meus amigos a fazerem o mesmo.
Felizmente o anúncio não foi veiculado na edição
seguinte e espero que nunca mais o seja ou, se isto
comprometer os compromissos publicitários da revista,
que seja veiculado sem a cena de foda estampada na tela
do televisor.

Atenciosamente,

Radamanto.

Eis a foto

suite.jpg

Admito que com esta qualidade de imagem é difícil enxergar a cena descrita, mas garanto que é como descrevi.
Uma curiosidade: esta foto virou um outdoor na avenida mais movimentada da cidade.

Posted by Radamanto at 4:34 PM

outubro 16, 2002

Loterias

Dizem que loteria é o imposto que a gente paga por ser idiota. Vá lá que tem alguma verdade na frase, mas há outras coisas a considerar. Há, por exemplo, o uso antropológico da loteria; a loteria nos desperta a brasilidade. Sempre que vou a lotéricas é uma experiência, assim, quase que existencial. Há todo tipo de gente jogando e todo mundo ali é brasileiro pacas (repara só).
Assim como eu só me sinto latino ouvindo Manu Chao em rádio AM, eu só me sinto brasileiro fazendo uma fezinha (olha que expressão mais mimosa!).
O paroxismo da brasilidade é pegar fila em casa lotérica.
Tudo isso pra dizer o seguinte: não me conformo de nunca ter visto Herbert Richers.

Posted by Radamanto at 2:55 PM

outubro 9, 2002

Folclore, mais folk do que lore

O Brasil provavelmente tem as lendas mais idiotas do mundo. Dentre as mais populares, contamos:

I) Um primata negro, monópode, de baixa estatura, vestido de barrete frígio vermelho e short Adidas; e ainda por cima tabagista. O que ele faz? Assobia alto e trança crina de cavalo. Nem o Monty Python faria melhor.

II) Mulher que, após copular com sacerdote, transforma-se num eqüino fêmea, híbrido interespecífico, constituído apenas de tronco e membros. O que ela faz? Corre à noite.

III) Um membro inferior humano voador, hipertricótico. O que faz? Chuta as pessoas à toa, às vezes até matar.

IV) Um humanóide de cabelos avermelhados, com os pés virados para trás, habitante das florestas. O que faz? Confunde caçadores. Para quê? À toa.

V) Um mamífero aquático que se transforma em homem para “fazer coisas” com jovens virgens indefesas. Quando na forma humana, apresenta-se com seu indefectível chapéu. O que faz? Já disse.

VI) Uma serpente, provavelmente do gênero Boa, que solta fogo pelos olhos e devora pessoas. Às vezes, pode transformar-se em canoa (me pergunto pra quê).

Posted by Radamanto at 11:16 AM

outubro 8, 2002

Se vais ter com as mulheres

Outro dia, em momento romântico, disse o seguinte:

- Daria minha vida por você.

A resposta, depois de alguma hesitação:

- Bem, eu acho que te doaria um rim... Isso se você precisasse muito, claro.

Se vais ter com as mulheres, não te esqueças do chicote e das roupas de couro.

Posted by Radamanto at 8:59 AM

Os trabalhos e os dias

Certa feita, durante meu primeiro colegial, a professora mandou que fizéssemos uma redação sobre a vida de algum profissional. Podia ser qualquer um: advogado, engenheiro, botequineiro, odontoftalmotorrinolaringologista, etc. Escolhi como tema "a vida do porteiro de prédio". Entreguei a redação todo feliz, achando que estaria fazendo grande palhaçada descrevendo uma vida tão idiota. Um amigo meu, que devido à beleza atendia pelo apelido de Frankenstein, passou por mim com sua redação em direção à mesa da professora. O Frankenstein era bem palhaço e zoeira, mas tinha o hábito desagradável de ser bastante burro. Fiquei pensando sobre o que teria escrito Frankenstein. Não resisti e o interpelei:

- Ô, Frank, deixa ver o que tu escreveu aí?
- Tó.

Peguei o papel meio sem esperança, achando que ia encontrar algo sobre a vida do vidraceiro, já que o pai do Frank era vidraceiro e ele o ajudava no serviço. Mas qual não foi minha surpresa! Bati o olho no título e já comecei a rir a camisas mal passadas. O tema era o seguinte: "a vida do gladiador romano". Lembro-me de que a redação começava assim:

"Todo dia ele acorda e vai afiar seus instrumentos de morte. É uma profissão para poucos, pois requer astúcia, coragem, perícia... Ele diverte as multidões mas desafia o próprio destino quando está de serviço."

E seguia-se uma série de considerações profundas e emocionadas sobre a vida do gladiador romano.
Me senti bastante burro diante daquele primor de originalidade e estilo. Jamais olhei o Frank com os mesmos olhos. Era um gênio!

Posted by Radamanto at 8:59 AM

outubro 3, 2002

Pensamento para alegrar o dia

Se o inferno são os outros, então... o inferno dos outros sou eu.

Diz se não faz a gente se sentir melhor.

Posted by Radamanto at 1:31 PM

outubro 2, 2002

Discurso do método

É ótimo que possamos nos suicidar. Que eu saiba, só o Sr. Sífilis elogiou essa nossa possibilidade. Pensar no suicídio é apelar para um pensamento ancestral: “do chão não passa”. Muito reconfortante, só requer um pouco de coragem. Claro que há os muito perobos para ter a coragem necessária, mas não é o caso de gente esclarecida.
Dentre os vários métodos, não tenho nenhum preferido. Se fosse o caso, escolheria o mais letal. Acho que o mais letal é somar os métodos: comer manga com leite, amarrar uma corda no pescoço, precipitar-se de um abismo e dar um tiro na cabeça logo no início da queda.
Uma vez li um livro só de bilhetinhos e cartas de suicidas.Todos eram de um narcisismo doentio, matavam para dar lição ou gerar culpa nos outros. Tinha gente que escreveu na sola do sapato: “culpa de fulana”- e só. Nowadays, ninguém se mata bonito como Catão. Belos tempos em que o suicídio era uma opção das classes cultas, e não coisa de pobre que não consegue quitar dívida da Crefisa.

Posted by Radamanto at 3:51 AM