dezembro 29, 2002
Um prazer que quase se perdeu
Antigamente a coisa era mais divertida e você podia xingar comunista e acusá-los de infantofagia na maior descontração.
Depois houve um hiato, todo mundo virou comunista e só os mais velhos é que mantiveram a gostosa tradição de malhar os vermelhos.
Hoje em dia, após um trabalho de resgate cultural, xingar o comuna voltou a ser chiquérrimo. Che Guevara voltou a estampar alvos para dardo.
Acho apenas que o vocabulário deveria ser reformado. Regime genocida, monstro estatal e outras expressões já ficaram cansativas. Proponho uma reforma no léxico difamatório. Crematafóbico e viuvinha-de-barbudo são termos mais legais.
dezembro 26, 2002
Reminiscências
Ensinando-me os hábitos de higiene, mamãe dizia que se eu fosse pra cama sem escovar os dentes, o Estado ia entrar na minha boca e roubar os restos de comida que ficavam entre meus dentes.
Depois o Estado ia distribuir a comida entre as crianças pobres, que mais tarde se vingariam de mim por terem sido alimentadas com aqueles restos nojentos.
Certamente um dia vou repetir a história para meus filhos.
Comércio exterior
O Brasil é o maior exportador de travecos do mundo. Se na Itália ou em Paris você disser que é brasileiro, logo vão querer passar a mão na sua bunda, e perguntar em que cabaré ou rua você trabalha.
Isso ninguém denuncia, pois há a diversidade sexual (entrarei na escola de meus filhos com uma Magnum caso ensinem qualquer coisa relacionada à diversidade de seja lá o que for).
Outra coisa: o Brasil exporta jogadores de futebol. Algum desavisado pode pensar que isso é prova da excelência do nosso futebol, mas a grande maioria dos exportados são uns pernas-de-pau, conheci alguns pessoalmente.
Pior: o nosso país importa jogadores, sou testemunha. Na vila onde nasci (Macondo), era altíssima a afluência de japoneses interessados em aprender a nobre arte. Em Macondo, todo mundo estranhava aquela japonesada que nunca aprendia uma sílaba do português e só sabia chutar de bico e cruzar com o peito do pé. Só serviam para encher o meu saco, uma vez que o alojamento dos bizarros ficava ao lado do clube de que era sócio, e eles insistiam em assistir dos alojamentos as minhas partidas de tênis com meus amigos. Têm em seu favor que devolviam as bolinhas que caíam lá por suas bandas. Chatos porém honestos e, pensando bem, antes isso que o Mercosul, pois aí seriam peruanos falando quéchua e colombianos com cara suspeita a nos infernizar.
dezembro 24, 2002
Pare de dourar a pílula
Minha ambição modesta é ter um império intergaláctico com vista para o mar; menos que isso eu desprezo. Minha ambição imodesta não vou dizer aqui, pois é ilegal em alguns estados americanos. Também queria uma fazenda de pôneis de briga, montar rinhas de pônei de briga...
Ando pensando em ler minha sorte, ou melhor, dar minha sorte para alguém ler, pois não sou cleromante. Tenho medo apenas de que a vidente me entregue um papelzinho ao final da consulta: “errata: onde está escrito sorte leia-se azar”.
dezembro 23, 2002
O Grande Livro do Maravilhoso e do Fantástico
Eu adoro esse livro. Infelizmente, pertence a um amigo e não a mim. Já ofereci quantias indecentes pelo livro e ele sempre recusa minhas propostas; coisas de Laurinha. Certamente poderia me dar o livro de graça se eu não demonstrasse tanto interesse. Bem, vai aí uma amostra das 577 páginas de puro prazer. A história é real.
Comerciante Expedito
Arthur Furguson era um escocês dotado de uma fenomenal capacidade de negociar, embora, como acontece a muitos outros gênios, desconhecesse o fato até o momento em que se aliaram a oportunidade e a inspiração. Para Furguson, este momento ocorreu em Trafalgar Square, numa manhã de sol dos anos 20. A sua fonte de inspiração foi um abastado americano de Idaho, que ele descobriu contemplando reverentemente a Coluna de Nelson.
Furguson arvorou-se temporariamente em guia de praça. A estátua sobre a coluna representava, explicou, o almirante Lord Nelson, o maior herói da Inglaterra. Logo em seguida murmurou, absorto: “Que vergonha!”. E continuou o pretenso monólogo, acentuando que o local não seria o mesmo sem a estátua. As dívidas da Grã-Bretanha se elevavam e tornava-se necessário vender tudo - coluna, estátua, leões e fontes.
O americano mostrou-se compreensivo e perguntou o preço. “Apenas 6.000 libras”, suspirou Ferguson. Naturalmente, o comprador deveria ser alguém que apreciasse esses grandes monumentos das glórias passadas da Grã-Bretanha.
Por uma estranha coincidência, fora confiada Furguson a triste incumbência de realizar a venda, que deveria manter-se estritamente em segredo.
O americano pediu a Furguson que lhe fosse concedida prioridade e este, finalmente, concordou em telefonar a seus superiores e pedir instruções. Decorridos poucos minutos, regressava com o assunto resolvido. A Grã-Bretanha estava pronta a aceitar imediatamente um cheque e ultimar o negócio sem mais delongas. Sempre disposto a ajudar, Furguson deu ao seu cliente o nome e o endereço de uma firma de confiança que se encarregaria de desmontar a praça e preparar depois a volumosa mercadoria para embarque.
A caminho da América
O americano entregou-lhe um cheque, em troca do qual recebeu um recibo, e ambos se separaram. Furguson imediatamente descontou o cheque, enquanto seu cliente entrava em contato com a referida firma. Esta mostrou-se relutante em aceitar a empreitada e expôs as razões de sua hesitação, mas só depois de receber uma explicação cabal da Scotland Yard o comprador acreditou que fora vigarizado.
Essa temporada de verão revelou-se particularmente feliz para Arthur Furguson. A polícia, contudo, não se mostrava tão satisfeita: um americano queixou-se de ter pago 1.000 libras pelo Big Ben, enquanto outro se lamentou do fato de haver dado um sinal de 2.000 libras pelo Palácio de Buckingham e não ter podido efetuar a compra.
Incentivado por esses êxitos, Furguson concluiu que uma vez que os americanos tinham sido os seus melhores clientes, deveria continuar suas atividades nos Estados Unidos.
Em 1925 dirigiu-se para Washington, onde alugou a Casa Branca a um criador de gado por 99 anos, ao preço convidativo de 100.000 dólares anuais, sendo a renda do primeiro ano paga adiantadamente.
Furguson considerou que os seus lucros já eram suficientemente vultosos para justificar a sua retirada do negócio, mas a vaidade impediu-o de desaparecer discretamente de cena sem terminar sua carreira com um último e grandioso golpe.
Encontrou sua vítima ideal - um australiano de Sydney - e começou o negócio. O porto de Nova Iorque ia ser alargado e a Estátua da Liberdade seria removida. Razões de ordem sentimental não poderiam pôr entraves ao progresso, pelo que o governo estava disposto a vender o monumento a quem o quisesse comprar.
Durante os dias que se seguiram, o australiano tentou levantar em Sydney o depósito de 100.000 dólares. Furguson não o perdeu de vista, mantendo-o afastado de quem quer que fosse, para que não se sentisse tentado a vangloriar-se do negócio que fizera. Porém, como recordação da transação Furguson, amavelmente, deixou-se fotografar de braço dado com seu cliente ao lado da Estátua da Liberdade.
Em conseqüência de um atraso na remessa do dinheiro, a impaciência apoderou-se de Furguson, e a suspeita, do australiano. Finalmente, este mostrou a fotografia na polícia. Acontecera aquilo por que esperava a polícia, que tinha conhecimento do supervendedor de monumentos que, contudo, até então conseguira sempre escapar.
O australiano conduziu os policiais sem delongas ao infortunado Furguson, que foi imediatamente preso. Cumpriu pena de cadeia por 5 anos, um preço irrisório diante da fortuna que fizera. Libertado em 1930, mudou-se para Los Angeles, onde viveu faustosamente - graças a uma série de novos pequenos golpes - até a sua morte, em 1938.
dezembro 17, 2002
O sublime
Descrevo agora dois dos melhores momentos da TV brasileira.
Momento 1
Programa: Fala que eu te escuto
Emissora: Rede Record
Quando: há uns 4 anos
O tema do programa era possessão demoníaca, pra variar. Não sei se vocês conhecem o formato do programa. É aquele em que fica um pastor debatendo um tema com as pessoas por telefone (em geral descamba para a briga com umbandistas). O programa também apresenta “reportagens” sobre o tema da noite.
Pois bem, a certa altura do campeonato eis que entra certo telespectador no ar, pelo telefone:
- Ahnn... oi. Meu nome é Gladston.
- Gladston?
- É, pastor.
- Pois bem, seu Gladston, o senhor já foi possuído ou teve algum contato com o demônio?
- Ahnn... eu?
- Sim, seu Gladston.
- Ahnn... eu tava andando e vi aquilo.
(silêncio)
- Alô? Seu Gladston?
- Oi.
- Pode continuar.
- Eu vi aquilo... e dois.
- Como?
- Eu vi aquilo vindo... e uma luz. Aí eu olhei e dois.
- Dois o que, seu Gladston?
- Dois, e a luz. E tava só eu lá mas aí eu olhei e... e... e três!
- Três o quê?
- Era assim, a luz. Aí veio um e depois veio dois, e quando eu olhei, a luz. Mas só tava eu.
- Seu Gladston, o senhor parece que não está muito bem. Eu acho que...
- E três! Quando eu vi, três!!!
- Seu Gladston.
- Mas aí veio vindo, a luz.
- Seu Gladston!
- E dois...
- Seu Gladston!! Eu acho que essas coisas às vezes podem não ser bem o demônio. Eu acho que o senhor devia procurar um médico, ver se não tem nada de errado com o senhor.
- Ah. Tá.
- Tudo bem, seu Gladston?
- A luz?
- Seu Gladston, parece que tem outra pessoa na linha. Vamos agora para outro participant...
- Mas era dois! E depois eles veio e...
- Muito bem. Quem fala agora?
- É Antônio, de São Paulo.
Momento 2, e a luz, e três
Essa eu vi nos cultos normais da Record já faz aí uns dois anos. O culto era destinado a acabar com fobias. Forma-se aquela filinha, o pastor tirando a fobia de um por um. Apresenta-se uma senhora um tanto gorda, voz estridente.
- Muito bem, dona...
- Maria, pastor.
- Muito bem, dona Maria. Qual é o problema da senhora?
- É com cobra, pastor.
- Não pode com cobra, dona Maria?
- Não, pastor.
- E o que a senhora sente?
- Olha, pastor, é um inferno. Eu vejo cobra, mesmo na televisão, e já me dá uma coisa. Eu sinto uma raiva, um tédio...
Fiquei imaginando uma cascavel se aproximando de dona Maria, e ela cada vez mais entediada (e com raiva!). Certa estava de livrar-se de sua fobia.
Vejo agora no Telecurso 2º Grau que a água mata 25 milhões de pessoas por ano (contaminação).
Água, como dizia meu avô, é pra passarinho.
A aula é sobre recursos renováveis.
Recurso renovável é buceta, como diz meu tio Cido (perdoem a má palavra, mas só faço citação literal e meu tio é dessas pessoas vulgares que utilizam a má palavra com uma freqüência indecente).
Acho que já assisti a todas as aulas do Telecurso 2º Grau e do Telecurso Profissionalizante. São ótimos programas. Respondo mentalmente a todos os exercícios propostos, não posso evitar. É como quando eu assistia Rá-tim-bum aos dezesseis anos de idade e não conseguia evitar de responder ao Enigma da Esfinge (aquele quadro em que aparecia um cara vestido de Esfinge fazendo perguntas como “qual dessas figuras é um círculo?” ou “qual dessas figuras não é um animal?”).
Mais legal que Telecurso, só aquele programa de pedagogas (acho que o nome é “Um salto para o futuro”). Eu simplesmente rolo de rir. O programa é “interativo” e há “links” com escolas de várias regiões. De vez em quando as pedagogas respondem a perguntas "vindas de todo o país", feitas por telefone (essa é a moderna “interatividade” do programa; sinceramente, eu preferia que as pessoas pudessem abrir um alçapão debaixo das pedagogas através de um comando pela Internet).
O legal das perguntas por telefone é que as pessoas sempre se apresentam antes de perguntar, e todos adotam uma fala mecânica e pausada muito engraçada. “Meu nome é Rosimeire de Assis Pacheco Lima. Sou professora da Escola Estadual Pedro de Lara, de Xerém Novo, Pará. Gostaria de saber como apresentar propostas educativas que diminuam a exclusão social aqui na minha escola”. Vocês acham a pergunta meio vaga e absurda? É porque ainda não viram as respostas.
Antes eu gravava tudo de absurdo que via na TV. Tenho fitas e fitas de “missas do ranca-toco”, “Fala que eu te escuto”, programas de colunismo social regionais, programas sertanejos regionais, etc. Como a atividade estava ficando muito dispendiosa, parei com o vício. Acabei, inclusive, gravando por cima de várias fitas, mas ainda tenho um acervo considerável.
E depois falam mal da TV brasileira! Certamente é porque não sabem garimpar o que há de bom na programação.
dezembro 11, 2002
PEGN
Andei tendo umas idéias pra ganhar uns trocos aí.
A mais bizarra delas parece-me sem dúvida a que tem mais chances de sucesso.
Pensei em instalar em Aparecida do Norte um pesqueiro de Nossas Senhoras. Basta fazer uma represinha artificial e encher de imagens de Nossa Senhora da Aparecida.
Já imagino os outdoors: “Sinta a emoção dos pescadores que encontraram a imagem. Reviva um momento mágico da história da fé nacional”.
As imagens virão decapitadas e haverá também as cabeças para se pescar, como na história do resgate da imagem original. Poder-se-á ainda fazer algumas promoções com distribuição de brindes. Por exemplo: se o sujeito lançar a rede uma vez e pegar o corpo da imagem, lançar a rede uma segunda vez e conseguir a cabeça, e se a cabeça se ajustar perfeitamente ao corpo, ele ganha um prêmio (claro que a chance de achar uma cabeça que se ajuste perfeitamente ao corpo será muito, muito pequena).
Agora, como não tenho tostão, preciso de alguém que se interesse pela idéia e banque o capital. Se algum rico estiver me lendo, favor entrar em contato.
dezembro 10, 2002
Nem só de repost vive o Homem
Na cidade onde vivo faz 31 graus às três da manhã. Na cidade onde vivo não existe redenção.
Indolência tropical, eis um conceito que não deveria ter sido descartado (e não nos esqueçamos da frenologia).
Sou o tipo de ignorante que escreve Holywood com um “l” só. Viram? E ainda faço graça adicionando alfabeto coreano, cirílico e grego no meu Windows.
Sofro de dolicocefalia letárgica. Explico por quê:
Pobre que sou, em vez de comprar uma camisa oficial do Glorioso pra desfilar por aí (pois agora posso), resolvi comprar um papel de decalque, daqueles em que você imprime a figura e depois decalca na roupa à ferro quente. Ademais, mesmo que tivesse dinheiro não gastaria numa camisa oficial, uma vez que o Glorioso é patrocinado por infame marca de palha-de-aço que muito enfeia seu distinto uniforme (tal patrocinador seria muito mais adequado ao Corinthians, time de gente fubá).
Pois bem, busquei o escudo do Glorioso nesta Internet, editei no tamanho adequado, imprimi no papel-decalque e lá fui passar o ferro quente sobre o tecido a fim de conseguir o místico efeito.
Aconteceu que simplesmente queimei a camiseta e estraguei o papel, cretino que sou.
E eu tão feliz, antevendo minha empáfia alvinegra atirada na cara de Dona Baratinha e demais corinthianos escrotos; eu tão pimpão, sentindo-me o bebezão onipotente das esquadras ludopedistas.
Sem dúvida o amor estraga a mente da pessoa. Se não tivesse ficado tão cheio de mim quando contemplei o augusto escudo do Glorioso sobre a camisa, bem do lado esquerdo do peito, onde estaria eternamente aquecido por este meu coração íctio, se o lábaro magnífico do Glorioso não tivesse me deixado transido de emoção, eu certamente não teria queimado a camiseta. Não faz mal, pouco importam os detalhes alegóricos. E de qualquer forma, todos percebem que sou santista à minha simples aproximação (santistas têm uma elegância aristocrática bastante evidente, nada a ver com a aparência chinelo-havaiana-em-birosca-de-bocada dos corinthianos ou com a cara pachorrenta de palmeirenses).
Danem-se as bandeiras, camisas, flâmulas; nada disso faz o Homem. É na alma que repousam as riquezas perenes, e minha alma desde sua primeva aparição neste mundo sempre foi santista.
Agora, se essa tranqueira de time me decepcionar eu juro que vou renegar a raça. Já chega 95, mano, já chega 95! (mesmo tendo sido roubado, tenho gravado e provo pra quem quiser).
Dumb Laws
Donkeys cannot sleep in bathtubs.
When being attacked by a criminal or burglar, you may only protect yourself with the same weapon that the other person posseses.
You may not have more than two dildos in a house.
Anyone caught stealing soap must wash himself with it until it is all used up.
You aren't allowed to cross a street while walking on your hands.
It is illegal for fire trucks to exceed 25mph, even when going to a fire.
It is illegal for a man to kiss his wife on Sunday.
No one may carry an ice cream cone in their back pocket if it is Sunday.
Against the law to tie a giraffe to a telephone pole or street lamp
It is illegal to say "Oh, boy".
dezembro 3, 2002
Catástrofe? Que catástrofe?
Me disseram que daqui a 20 anos não vai ter água nem emprego pra ninguém.
Ótimo.
Não bebo água, não bebo nada com menos de 4 gay-lussacs. E quem quer trabalhar, afinal?
Apocalipse
Dia desses estava em casa assistindo “Maria - Mãe de Jesus”, filme que trata de Maria, mãe de Jesus. Estava com o coração fofo e cristão nesse dia, de formas que acabei me emocionando muito com o filme. Olha, eu fico meio constrangido de dizer, mas na verdade eu fiquei chorando em vários momentos do filme, de puro cristianismo.
Bem, daí que eu tava lá enxugando as lágrimas, tinha entrado o intervalo comercial, e eis que toca a campainha. Saio para ver quem é - coisa bem rara, aliás. Era um mendigo (ou pedinte, como o pessoal diz por aqui). O mendigo:
- Oi, fio. Você não tem nada pra me dar aí, não? Uma comida, um dinheiro, uma roupa... qualquer coisa serve.
- Não. Não tem nada aqui, não (em geral, dou as coisas, mas tinha acabado de chorar e não queria ninguém me incomodando).
- Não tem nem uma moedinha?
- Não, já falei que não.
Virei as costas e fui voltando pra dentro de casa. Dei três passos e caiu a ficha: “Deus, e se for o Cristo?! Pode muito bem ser uma provação. O pessoal lá de cima viu minhas lágrimas de comoção cristã e quis me dar uma chance de reabilitação, então mandaram o Cristo vestido de mendigo pra pôr minha caridade à prova”. Voltei correndo na direção do portão, o mendigo já tinha saído da frente de casa.
- Ou! Ou! Vem cá! Volta aqui!
- Quê?
- Peraí que vou te pegar uns bagulho.
Fui pra dentro de casa e não tinha comida. Roupa, então, nem pensar. Vai ter que ser dinheiro, pensei. Corri até minha carteira e peguei umas moedas. Já me dirigia pra fora, pra entregar o dinheiro ao mendigo, quando a voz da consciência me atacou de novo: “Idiota, pode ser o Cristo! Você vai dar trinta e cinco centavos pro Cristo?! Vai ofender a divindade, sovina!”. É mesmo, pensei. Voltei à carteira decidido a dar tudo que eu tivesse. Tomara que não tivesse muita coisa, pensava, e a consciência atacava: “Você está ridicando dinheiro pro Cristo, homem de pouca fé?! É assim que você quer ser readmitido no reino dos céus, mão-de-vaca?!”. Tá bom, tomara que tenha muito, e só não vou ao banco pegar mais dinheiro porque faz parte de minha reabilitação terminar de assistir o filme, Deus sabe.
O mendigo não acreditou na grana que eu dei pra ele. Ficou me olhando um tempo, entre aturdido e desconfiado. “Deus te abençoe”, ele disse. “No mínimo isso”, respondi mentalmente. E voltei a minha sessão pipoca-carola me sentindo tão caridoso quanto o mais santo dos apóstolos.
dezembro 2, 2002
Epítetos
Sugiro àqueles que porventura me linkarem em seus blogs que acompanhem meu distinto nome dos epítetos listados abaixo, de modo que os links fiquem assim:
Radamanto, o pensamento secreto do demônio
Radamanto, o flagelo de Sodoma
Radamanto, o estróina do Jardim Monte Alegre
Radamanto, o bailarino ébrio das louras alvoradas
Radamanto, o písico da noroeste paulista
Radamanto, o doidinho de Deus
Radamanto, o lânguido das gentes
Radamanto, o non plus ultra da vadiagem (vadiagem, hein! vê se não erra a digitação!)
Ou ainda e simplesmente Radamanto, aquele