janeiro 21, 2003

Arte e engenho do assoviador

Sou dessas pessoas irritantes que assoviam o tempo todo. Adoro assoviar, desde os meus quinze, dezesseis anos, quando descobri o prazer (antes só batucava).
Não sou um virtuose, menos por esforço técnico que por capacidade estrutural do aparelho fonador assoviador.
Explico: minha extensão assoviatória não passa de uma oitava, de Lá a Lá, apesar de eu poder usar os falsetes agudos (que saem muito feios). Também não domino bem os trêmolos e vibratos, utilizados lindamente por assoviadores profissionais (conheci muitíssimo poucos). Carecendo de técnica e dom, apelo para expedientes falsificadores, como prolongar notas de maneira mentirosa ou simplesmente saltar as notas que não consigo executar, fingindo nova versão da música.
Amigo meu que mora comigo assovia muito bem. Tem técnica excelente e grande capacidade para graves, mas falha um pouco na memória musical, o que é compensado pelas soluções originais e bem feitas que arruma (nem sei se ele sabe disso, nunca disse). Já tentamos, juntos, uns excertos dos Brandenburgo, fingindo fazer uns contrapontos, mas não ficou lá grande coisa.

Quem canta, seus males espanta. Quem assovia, seus males expia.

Posted by Radamanto at 5:23 AM

Penas mais legais

A onda globalizadora diz que, agora, crime só se pune com cadeia. Povo besta, sem imaginação... Por que abandonar as chicotadas em público e a lapidação (de leve, sem matar)? É preconceito contra muçulmanos? Acham que é mais bonito deixar o sujeito mofando na cadeia? Sou a favor da diversificação das penas legais, acho babaquice essa estória de cadeia, e nem mesmo pedras os presos quebram mais. Por que não outros meios? Por que não deixar o condenado escolher a punição que lhe é mais simpática? Ou o vencedor do processo?
A tortada na cara, em caráter público, poderia ser uma opção para os crimes leves ou contravenções. A tortada na cara pública seria ótima para a punição de crimes como calúnia e difamação, por exemplo. E claro que a parte ofendida poderia ter o privilégio de dar a tortada (podendo transmitir a execução do ato punitivo a um executor público, se assim quisesse).
Outra modalidade: a caracterização imposta. A parte prejudicada poderia escolher uma caracterização idiota obrigatória a ser usada pelo condenado. Exemplo grátis: você poderia exigir que fulano usasse roupa e maquiagem de bailarina enquanto durar a pena por ele ter te passado um cheque sem fundos. Ou ainda uma fantasia de Super 15 patinador.
Casos bobos poderiam ser resolvidos com um simples e único “pescoção legal”, ou ainda o “chute legal no traseiro em estádio com mais de cinco mil pessoas”.
Cadeia, cadeia – só pensam nisso?

Posted by Radamanto at 4:10 AM

janeiro 20, 2003

Como eu queria estar presente!

Como eu queria estar presente! Como!
O documento de um triunfo, aqui.

Posted by Radamanto at 3:51 AM

janeiro 18, 2003

Estorinha

Horácio Galvânio precisava de dinheiro urgentemente e não tinha nenhum. Tinha bons e justos motivos para fazer qualquer coisa por dinheiro. Pensou em várias possibilidades: assalto, seqüestro, homoprostituição, chantagem e todas as coisas em que a pessoa pode ganhar dinheiro rapidamente. Pareceram a ele atitudes feias as coisas que ele pensou, mas precisava de dinheiro. Horácio Galvânio era homem de moral, do tempo em que pobre se orgulhava de ser honesto. Não tinha estudo, mas sabia-se inteligente, as pessoas não diziam isso dele? Na verdade, ele sabia que não era tanto: era ruim com as matemáticas e tinha muitas palavras que ele não entendia na televisão. Agora: pra inventar ele era bom, as moças riam das piadas dele, teve até patrão que elogiou jeitos que ele criou de resolver as coisas. Algum jeito ele ia dar de conseguir o dinheiro. Passou a noite anterior e até àquele meio-dia pensando como conseguir o dinheiro. Meio-dia e quinze lhe veio a idéia, a idéia. Primeira atitude, foi ao banheiro da praça mesmo. Olhou tudo e não conseguia achar uma danada, até atrás das privadas ele olhou. Triste por ver o plano fracassar tão cedo, soltou um suspiro e ergueu os olhos pro teto. Estava lá! Horácio Galvânio fez uns chumaços de papel higiênico encharcado e ficou jogando na bichona lá no teto. Ela saiu mexendo e desceu pela parede, numa altura que ele podia alcançar. Então com a mão direita em concha ele prendeu a bichona, foi descendo a mão até poder juntar as duas mãos em concha com ela presa. Pronto, agora era o resto.

Teve uma hora que ele pensou que aquilo era uma coisa muito desesperada, que podia ter outra idéia, mas pensou que precisava mesmo do dinheiro e lembrou que era melhor ficar com o seguro que arriscar pelo incerto. Decidiu de vez que era aquilo mesmo e já saiu do banheiro em direção à porta das Lojas Americanas, que ali era um lugar bom de fazer aquilo. Pensou que era bom ter um caixote pra ele subir, ou mesmo uma pedra, ou até um tijolo baiano, porque era meio baixo e ficaria melhor se o povo pudesse ver ele mais de longe. Tinha assim um negócio de cimento ali que ele achou que servia pra subir, um negócio de cimento no calçadão, que ele pensou que só poderia servir pra amarrar cavalo e que ele não sabia a serventia, mas que já estava bom pra ele, para o que ele queria.

Subiu e já começou a chamar o povo, porque ele sabia que se ele pensasse muito podia ser que ele não conseguisse. O jeito de chamar o povo, ele foi lá inventando na hora, que ele sabia chamar a atenção quando queria, a mãe contava isso a todo parente.
Então ele começou a falar que ia fazer uma coisa ali que as pessoas não iam acreditar que ele ia fazer, isso falando bem alto, em cima do negócio de cimento. Do jeito que ele falava, que não era quem nem pastor e nem homem-da-cobra, que não era um jeito de vendedor de qualquer coisa e nem de mágico de praça, daquele jeito era um jeito que as pessoas não sabiam, então elas ficaram realmente impressionadas e muito queriam saber o que ele ia fazer.
Quando já tinha assim umas várias pessoas em volta dele, ele falou a coisa impressionante que eles iam ver. Horácio Galvânio ia comer uma barata.
“Que eu peguei ali mesmo naquele banheiro”, ele falava e apontava com a esquerda, a barata bem presa no punho da direita. Teve um lá que disse ser a barata de brinquedo e que aquilo era truque, a que ele respondeu que aquele homem podia ele mesmo lhe trazer uma barata da sua casa ou daquele mesmo banheiro, que ele comia a barata do homem e não a sua. O homem ficou logo bem quieto e se sentiu meio até ridículo ante as pessoas, diante daquele jeito que Horácio Galvânio o desafiara.
“E comer a troco de quê?”, disse uma velha lá. “Mas logicamente a troco de dinheiro, minha senhora”, disse Horácio. “Vocês juntam aí trinta reais entre vocês que eu como esta bicha viva e abro a boca com ela mastigada pra vocês verem”.
“Mas trinta reais é muito pra uma barata”, a velha falou, sovinando. “A senhora então me arrume uma pessoa que coma esta barata por quinze que eu mesmo pago agora pra ver”, blefou Horácio Galvânio. Aí teve aquele burburinho e uns diziam que nem por duzentos reais, e outros que nem pela morte dos pais, e um que só pela vida dos quatro filhos ele fazia uma coisa daquelas. Galvânio percebeu que ninguém levou aquela velha muito a sério e pelas quantidades muitas de pessoas que estavam ali aumentando, ele ganhava os trinta fácil e até podia ganhar mais. Então ele foi logo voltando o desafio e sem perder tempo. “Como é? Pagam ou não pagam? Esse branquinho aqui, ô menino, junta o dinheiro que eu te dou um real”. O galeguinho saiu logo espichando a camisa pra o povo pôr ali o dinheiro. E foi logo ele espichar que já foram logo jogando uns centavos e quanto mais jogavam, mais jogavam, que quando o povo dá pra uma coisa parece que fica incontrolável, como essas bandidos que lincham e até põem fogo. Enquanto o povo ia jogando dinheiro, Horácio Galvânio mantinha aquela mão direita dele levantada, como que já comemorando os trinta reais. Um rapaz do cabelo ruim chegou do lado do menino galeguinho e pôs a mão no dinheiro, e todo mundo já cercou o rapaz porque pensavam que ia roubar, a que o rapaz falou que ele estava ali só contando o dinheiro, pois como iam saber que era trinta reais? Olharam para Horácio Galvânio e ele fez que podia deixar o rapaz, porque pra ele pareceu pessoa boa.
Juntaram então os trinta contos e o de cabelo ruim deu o dinheiro na mão esquerda do Horácio, que ele pôs logo no bolso da calça, e então todo mundo ficou quieto pois que ali estava um homem que ia comer uma barata viva naquele momento.
Na cabeça de Horácio Galvânio, aquilo era um momento estranho. Chegou a se sentir artista e até gostou daquilo que sentiu, mas aí ele tinha que comer a barata. Lembrou que nem tinha olhado muito pra ela, se era cascuda das feias ou daquelas que parecem que tem um ferrão na bunda, mas que não é um ferrão, porque barata nenhuma ferroa e nem mesmo morde. E ele pensando aquele pouco e o povo já começava a reclamar, que comesse logo, que muitos tinham o que fazer e não estavam ali pra ver apenas e somente aquela cara de sonso.
Horácio pensou antes de tudo no dinheiro que ele já tinha no bolso, e nem pensou em correr com aquele dinheiro e escapar, porque eram muitos e vários, de modo que levaria uma grandíssima surra se tentasse sair dali sem comer a barata.
Então ele respirou fundo, levantou a mão direita com o braço esticado, e deu meio que um tapa na boca aberta, abrindo a mão e colocando a barata na boca.
No primeiro momento, ele não teve coragem de mastigar. Fechou apenas a boca e os dentes da boca, e deixou a barata lá dentro. O povo olhava aquilo sem respirar, mas tinham uns que pensavam que ali não tinha barata nenhuma e que era um truque de mágico, e esses ficavam até com raiva de ter pagado porque pensavam que era enganação tudo aquilo, que truque não valia tanto como se ele comesse de verdade.
A barata na boca de Horácio Galvânio, primeiro ela não fez gesto. Mas como o homem não andava logo a mastigar, ela deve ter ficado nervosa, e começou a andar dentro da boca. Não foi só na língua que ela começou a andar, mas era como um motoqueiro de globo-da-morte, andava de todo jeito naquela boca, na língua, na parte das bochechas e no céu-da-boca. Horácio Galvânio começou a se desesperar, nunca tinha sentido aquela sensação das patinhas de uma barata correndo pela boca da gente. Quando ela passava no céu-da-boca principalmente era uma aflição, e quase que ele abriu a boca porque dava uma cosquinha que a pessoa queria muito tomar uma atitude pra passar. Isso não foi tão ruim como quando a bicha começou a voar lá dentro, pois que se sentia o arzinho das asas batendo, mas não se podia saber onde voava aquela barata e muito menos tentar pegar ela logo com os dentes, solta de tudo que ela estava, voando.
E foi aí que aconteceu uma coisa terrível, pois que a barata desceu pela garganta de Horácio, e ele se viu engasgado e tendo vontades de tossir e vomitar, mas não podia descerrar os dentes, que senão ela saía voando e aquilo tudo ia acabar em surra. Horácio Galvânio tentava fazer o movimento de pigarrear pra expulsar a barata da garganta, mas ela tinha os pezinhos bem presos na sua goela, ele sentia, então foi que ele fez uma tosse forte e ela voltou para a boca. Tão desesperado estava Horácio que ela voltasse de novo pra sua garganta que nem mesmo pensou nada, e tão logo sentiu que ela estava próxima dos dentes do fundo da boca, ele logo abriu a arcada, empurrou a bicha com a língua e já cravou a dentada nela. Fez um “creque” que ele sentiu, e sentiu nojo mas também alívio, que ela parava agora de voar e andar feito uma louca na sua boca e na sua garganta. Mas pensou errado porque ele pregou o dente bem na cabeça dela só, e o corpo ficou mexendo lá dentro, coisa que ele nem sabia que podia acontecer, e então num desespero que ela pudesse ainda estar viva, ele deu bem umas três mastigadas que pegaram o corpinho da barata de jeito, e parou de mastigar.


Veio um gosto amargo. Ele sentiu um catarro estranho na boca, que não era a saliva dele mas as coisas da barata, o intestino e o sangue da barata, e mesmo uns ovos de barata havia naquilo, porque a barata estava prenhe e ele não sabia. Esse catarro ficou grande parte no fundo da boca, mas aí num movimento de grande nojo, um movimento de vomitar que Horácio Galvânio fez, trouxe todo aquele catarro para o meio da língua, e então ele sentiu verdadeiramente o gosto de tripa de barata, de ovo de barata, e percebeu que era tudo muito molezinho na barata, mas isso que ele ainda não tinha mastigado a casca.
Ele não podia vomitar, senão perdia os trinta reais, então ele resolveu que não ia sentir mais nada e ia acabar logo com tudo aquilo. Começou a mastigar de verdade aquela barata, igual comida mesmo, que quem visse ia dizer “eis um sujeito esfomeado que está comendo de dar gosto”.
A barata, quando comida, tem várias coisas. Ela tem primeiro a barrigada, que é sua parte macia, que estoura na primeira dentada. Ela tem também a cabeça dela, que não é macia mas o sujeito mastiga fácil. Tem as pernas, que dão algum trabalho pra mastigar, mesmo porque muitas vezes ficam presas no dente, se acontece de ser uma pessoa que tenha os dentes abertos, e aí tem-se que fazer a chupação dos dentes pra soltar as pernas, como quem tira fiapos de manga e outras coisas que prendem no dente. Mas o duro da barata é comer a casca dela, pois que ela não cede às dentadas fácil, e temos que mastigar com os dentes do fundo e os da frente, que é pra esmagar aquilo tudo mesmo.

Horácio Galvânio estava agora nesta parte mesma da barata, a parte de mastigar a casca, e mastigava que nem louco. Aquilo dava muito trabalho, mas ele sabia que mais rápido ele mastigando, mais rápido ele engolia tudo e acabava de vez com aquilo. Mastigou umas vinte vezes a barata, e quando viu que estava tudo bem mastigadinho, tudo bem macetadinho, misturou com a saliva que tinha muita em sua boca e engoliu.
Os olhos de Horácio Galvânio estavam cheios d´água. Não que estivesse chorando, pois não chorava, mas é que o cidadão que passa por grande vontade de vomitar acaba soltando lágrimas, e isso eu não sei por quê. Depois que sentiu que estava toda aquela barata no estômago é que olhou de novo para o povo. Estavam com a mesma cara de antes, da hora em que ele colocou a barata na boca. Considerou que já era o fim do espetáculo, será que queriam que ele arrotasse com cheiro de barata? E outra que ele ainda sentia grandes vontades de vomitar, então foi saindo logo dali porque senão podia ter um engraçadinho que dissesse que vomitar não podia e querer lhe tomar o dinheiro.
Desceu do negócio de cimento, apontou para o rumo de casa e foi logo andando. Graças a Deus tinha o dinheiro! Deu três passos e um outro, um negrão forte, foi chamando ele. “Ou, ou, onde é que o senhor pensa que vai?”. Horácio Galvânio pigarreou antes de falar, para limpar a garganta dos restos de barata. “Isto não é da sua conta”. Estava com raiva. “Como não é? E a barata? Não vai comer?”. Horácio não entendeu. Ficou um tempo achando que aquilo era uma brincadeira. “Mas eu comi a barata”, disse meio abestalhado. “Comeu o caralho! Você é fingiu, ninguém viu barata nenhuma!”. Horácio ficou perplexo, primeiro não entendeu, depois pensou que de fato ninguém tinha visto ele comer a barata, ninguém viu a barata, tinha se esquecido de dar a prova. Já sabendo que tinha razão a reclamação daquele homem, ainda tentou, quase chorando a primeira vez na vida. “Mas eu comi... eu comi... Deus é testemunha que eu comi...”. “Comeu bosta nenhuma”, insistia o homem, e Horácio Galvânio agora percebia que a multidão toda estava atrás do negrão. Entendeu que ninguém ali acreditaria nele. Antes dele pensar em nada, o negrão falou de novo, com a cara bem próxima da sua e de uma maneira devagar: “Ou come outra barata direitinho, ou eu vou tomar teu dinheiro e te arrancar os dentes um por um pra não comer mais porra nenhuma e não fazer os outros de palhaço!”. A decisão de Horácio Galvânio foi terrível.

Posted by Radamanto at 9:31 AM

janeiro 15, 2003

Por que me dizem fofo - Um problema

Há aqueles que sobre minha pessoa dizem ela ser fofa.
Gordo não sou. Menos ainda musculoso ou de trejeitos efeminados.
Também não recorro a artifícios que me denotem fofura, tal como Alexandre, o besta, que, ouvindo de um seu puxa-saco que ficava especialmente garboso quando inclinava a cabeça para a esquerda, passou a adotar tal postura ridícula quase todo o tempo.
De onde vem, então, minha propagada fofura?
Bem, há esta elegância natural, que em mim tão bem se assenta, mas não creio que meus modos aristocráticos gerem a fofura que me circunda. Tampouco acredito que meus traços delicados, burilados pela Natureza com mãos de artífice, expliquem inteiramente a fenomenal fofura em que estou envolto.
Talvez minha inteligência excepcional contribua em algo para esta impressão, ou quem sabe este meu olhar. Há quem já disse sobre meus olhos que deles jorra uma fonte infinita de fofura, como que num transbordar inesgotável de delicadeza, e que contemplar meu semblante adorável é uma experiência mística, comparável apenas a visão de um coro de querubins. Isto nos dá uma pista para resolver nosso pequeno enigma, mas ... oh! sou fofo até de óculos escuros! Eis que nos vemos novamente cercados pelo problema.
Abandono assim este sutil mistério, pois já me cansa a beleza. Se algum dia vier a desvendá-lo, prometo avisá-los.

Posted by Radamanto at 8:14 PM

Um ninja na multidão

O texto abaixo eu escrevi já faz uns anos. Publiquei-o em renomada revista aqui da faculdade (durou três números, eu que editava com meus amigos). Achei o texto e, nostálgico, resolvi pôr aqui. A história narrada é ridícula e real.


Eu rodeava os oito anos e era o que se poderia chamar de um moleque encapetado. Chegava à escola sempre uma hora antes do começo da aula, mas meu adiantamento nada tinha que ver com a aplicação nos estudos. Essa hora anterior ao início das atividades escolares, eu passava toda ela correndo feito um doente pelos extensos gramados da escola, brincando de "salva-pega" com os outros meninos, que com igual pontualidade estavam lá reunidos para a indefectível disputa de antes da aula. Também ocupava todo o recreio com o meu "salva-pega" e mais a meia hora subseqüente ao término da aula. Era, portanto, conhecidíssimo das "tias" que tomavam conta da criançada, por conta das inúmeras vezes que essas ralhavam comigo quando acontecia de eu sair na captura de algum adversário, ou fugir dele, por entre as meninas comportadas que se juntavam no pátio, usando-as como escudo ou pisando em seus lanches e suas bonecas.
Mas desta vez eu era inocente. Naquele dia eu não estava para correr. Em vez disso, lembro-me bem, tirei o recreio para desfilar feito um dândi pela escola. Estufei um peito de pombo premiado, atravessei as mãos por trás das costas, juntando-as, e passei toda a escola em revista. Agia assim por causa de um filme de ninja que eu assistira na noite anterior. Simulava um comportamento ao mesmo tempo fleumático e desafiador para, caso aparecesse um inimigo, deixar rapidamente aquele estado tranqüilo e desferir-lhe um golpe mortal, voltando logo em seguida a minha condição de repouso, como se nada tivesse acontecido.
Durante este meu desfile, andava com a cabeça levantadíssima, sentindo-me muito acima daqueles garotos fedidos e suarentos que corriam a minha volta. Altivo e onipotente, eu olhava todos eles como se não passassem de crianças bobas, entretidas em brincadeiras bobas, ignorantes de que entre eles havia um ninja tão poderoso como eu. Depois de algumas andanças por entre o refeitório e a área verde da escola, resolvi inspecionar o que as meninas faziam, a fim de garantir a boa ordem das coisas. Pus-me a andar em direção ao pátio com toda a gravidade que cabia a mim, sempre com aquele olhar desafiador próprio dos ninjas disfarçados.
Acontece que entre o pátio e a área verde havia uma mureta de uns dez centímetros de altura, e como eu estava com a cabeça altíssima, não pude vê-la enquanto caminhava, o que fez que eu tropeçasse e caísse de cara no chão, feito um caqui. Pior: como minhas mãos estavam unidas atrás das costas, em posição de ninja oculto, não pude proteger-me na queda e acabei batendo o tronco no chão, o que me fez perder completamente o fôlego e experimentar aquela sensação de morte bem conhecida de quem já levou uma bolada no estômago. Fiquei ali, com aquela cara de besta, sem ar, estatelado no chão em frente às meninas, e ainda por cima tendo que ouvir uma daquelas "tias" desagradáveis me dizer que "é isso o que acontece com quem não pára de correr". Meu Deus, eu não estava correndo! Será que ela não tinha visto que eu não estava correndo, a vaca?! E eu nem podia me defender da acusação, posto que não conseguia sequer resgatar o oxigênio necessário para voltar à vida. Quanto ódio daquela "tia"! Quanta revolta contra os ninjas!

Posted by Radamanto at 4:54 AM

janeiro 14, 2003

Eu digo isso faz tempo

Eu digo isso faz tempo e me chamam de grego e anti-científico.
Tomem, bastardos!

Posted by Radamanto at 6:46 AM

Quotas para ítalo-brazilians: Io voglio!

Eu, como descendente direto de italianos, requeiro quotas. Minha genética européia me põe em desvantagem com os habitantes mais brasileiros que eu (entenda-se os de pele mais escura que a minha). Não suporto o calor dos trópicos, para o qual não fui talhado, já que meus ascendentes vêm de regiões frias e alpinas. Na escola, meus amigos me desprezavam e humilhavam, me chamavam de “cabeça de brachola”, “projeto de Mussolini” e “filhote de Albinoni com Mamma Bruscheta”. Até os 12 anos meu apelido era Lasanha. Tinha que ouvir as piadas racistas contra os italianos calado e quando o Brasil jogava contra a Itália, os outros moleques ameaçavam me espancar caso a Itália ousasse vencer. Paolo Rossi era meu vingador secreto, eu guardava um velho recorte de jornal com uma foto sua estampada. Às vezes, à noite, tirava a fotinha da minha caixa de coisas secretas e ficava a contemplar sua esguia figura repetindo para mim, baixinho: “forza azzurra!, forza azzurra!”. Mesmo os programas de TV me discriminavam. Família Mussarela era uma paródia cruel do povo italiano e seus ascendentes romanos. Àquela idade, cada episódio de Família Mussarela causava um estrago irreversível no meu ego frágil.
Num arroubo de baixa estima e autonegação, pedia a meus pais para enfaixar meus braços quando estava dentro de casa. Queria perder o hábito de gesticular muito ao falar, que sempre entregava minhas origens. Até hoje – ainda restam alguns traumas - não falo “bruta bestia”, “ma che”,”Madonna mia”, “Dio porco” e “porca pipa della Maria Gorda”.
Cresci tendo que ouvir que meu amado povo italiano é vira-casaca, militarmente falando, e que votam no Berlusconi.
As quotas não são um favor, são a reparação de um erro histórico. Espero que vocês entendam isso, brasileiros de uma figa, assim que meus filhos tomarem a vaga dos seus em seja lá o que for. E saibam que lá na Itália todo mundo sabe que brasileiro é tudo traveco!

Posted by Radamanto at 1:59 AM

janeiro 9, 2003

Reencontro

- E aí, rapaz! Quanto tempo! Como é que vai?!
- Melhor que você.
- Como?
- Melhor que você.
- Como assim?
- A julgar por essas suas roupas gastas, essas rugas e os cabelos brancos, vou melhor que você.
- Hei! Tá grosso, hein?
- Grosso? Por quê?
- Grosso e cínico. Isso é jeito de tratar a gente?
- Sincero, fui sincero. Você perguntou como eu ia, pensei que estivesse melhor que você. Pra seu governo agora sou rico, casado e tenho três amantes. Você está melhor que eu?
- Hmm... acho que não.
- Então eu acertei, ué.
- É, justo.

Posted by Radamanto at 4:39 AM

Essa eu nunca vi em nenhuma antologia

Está em “A Casa Maluca” (The Big Store).

(Chico, tirando uma fotografia de Groucho) - Olhe para mim e ria.
(Groucho) - Eu faço isso desde que você nasceu.

Outra boa do filme:

- Depois que nos casarmos, logo você vai fugir com uma sirigaita e se esquecer de mim.
(Groucho) - Claro que não! Eu prometo escrever duas vezes por mês.

Posted by Radamanto at 3:21 AM

Radamancia

Uma grande multidão está reunida.
A carruagem foi rodeada pelo povo e eu vi um dragão tombar com sua montaria.

E foram passar um adorno que lhe cingia o torso, e um objeto com duas coisas transparentes caiu e houve grande confusão.
E havia pêlos na cara do Homem, e lhe faltava o mínimo da sinistra; sua língua bífida produzia sons sibilantes de difícil compreensão.
“Alvíssaras! Alvíssaras!” - exclamava o povo em grande contentamento, e não sabiam o que faziam.

Posted by Radamanto at 3:06 AM

janeiro 8, 2003

Seis, ladrão!

O truco é o maior dos esportes.
Jamais treinei um esporte com mais afinco, mesmo tendo uma estréia tardia.
Tem gente que acha écarté um grande jogo. E há os idiotas do pôquer (gente colonizada).
Fui campeão brasileiro de truco (estudantil), e venci a semi-final de casal menor contra zap e dois três.
Zap, aliás, é a onomatopéia mais bonita da língua.

Truco daria um bom filme:
Jogador profissional de truco anda de cidade em cidade, ganhando frangos embrulhados em celofane e algum dinheiro com suas vitórias. Está sempre vestido à caráter, ou seja, de short Adidas, chinelo Havaianas e sem camisa. Sonha em fazer le grand tour, ganhando seguidamente os campeonatos de Buritama, Barbosa, Catanduva, Tanabi e Pereira Barreto.
Em sua saga, nosso herói passa por várias aventuras. Se mete em brigas de boteco e escapa de levar surras de fivela de peões brutamontes, sempre usando de seu maior artifício: a dissimulação.
Também planejo cenas quentes, como quando nosso herói, durante uma partida decisiva e aproveitando para dar um sinal de zap, pisca para a namorada do maior facínora da cidade (o filho do prefeito) e se envolve em grande confusão.
O filme deve abusar do jargão do truco, tanto durante os jogos como em belas metáforas ditas pelos personagens (“Se a vida me truca, eu peço logo seis”; “O amor é como uma mão-de-ferro jogada no escuro”; “Se aquela loira vier ne mim eu bato no monte e mando logo subir”).
O final do filme coincide com o clímax, na grande final em Pereira Barreto.

Trilha sonora: Tião Carreiro e Pardinho, Pedro Bento e Zé da Estrada, Milionário e José Rico, Mário Zan, Teixeira e Teixeirinha.

P.S.: O que entendo por truco é manilha nova, ponta-acima. Nada de manilha velha ou outras variantes mineiras pouco ortodoxas.

Posted by Radamanto at 9:08 PM

janeiro 2, 2003

(os dois andando pela rua, ela chupa um sorvete)

- Obrigada pelo sorvete.
- Nem pense nisso.
- Você é meio esquisito, sabe?
- Ah, é?
- É. Você fica olhando a gente de um jeito... um jeito esquisito.
- Bem, eu não sei muito bem o que isso significa mas gosto de qualquer coisa que chame mais a atenção em mim que a minha calvície.
- Haha... Não, eu falo sério. Parece que você está sempre preocupado. É isso, é como se você estivesse o tempo todo preocupado.
- Com o quê?
- Não sei. A guerra com a Coréia, talvez. Sabe que muita gente diz que eles têm armas nucleares?
- Ouvi dizer.
- Você não fica preocupado?
- Eu?
- É.
- Hm... não.
- Não?
- Não.
- Você não sabia que as bombas de hoje são muito piores que as bombas que jogaram lá no Japão? As coisas evoluem, mesmo que pra pior. Dizem que a Coréia do Sul poderia ser evaporada em minutos.
- Não me interessa.
- Como não te interessa?
- Não interessando.
- Mas eles são seres humanos. E tem velhos, crianças, gente que não teria chance de fugir...
- Não me interessa.
- Ah, claro. Então é por isso.
- O quê?
- Seu olhar. Você é um psicopata.
- Hahaha.
- Arrá, eu estou certa! Percebi que você riu de um jeito nervoso. Está querendo disfarçar.
- Tá certo, é verdade; eu sou um psicopata.
- Ah, tá!
- Que é?
- Eu não acredito.
- Por quê?
- Um psicopata! Você está só brincando, é isso. Como eu sou boba! Cheguei a pensar que fosse sério. Vê se dá pra acreditar, hahaha!
- Não. É verdade, eu sou um psicopata.
- Pára! Não gosto desse tipo de brincadeira. Não me deixa com medo, seu bobo.
- Veja bem, essa é uma experiência única. Quantos psicopatas você conhece?
- Eu, eu...
- Na verdade eu acho que você deve conhecer uns dois. E já deve ter falado com pelo menos uns quinze. Há muitos psicopatas, sabia? Eu adoro essas estatísticas. Eu pego esses compêndios de psiquiatria e vejo as porcentagens todas. Depois eu fico calculando quais as chances de nós cruzarmos com pessoas com este ou aquele problema, e quais as chances de termos um amigo perturbado. Pelos meus cálculos, eu conheço pelo menos uns dois psicopatas além de mim, quatro obsessivos, doze homossexuais, e uns cinco borderlines. Quantos anos você tem?
- Hum, por quê?
- Quantos anos você tem? Vamos lá, eu não vou sair espalhando.
- Tenho vinte e seis, e não estou preocupada em revelar minha idade, apenas achei a pergunta estranha.
- Tá, vinte e seis. Quantas pessoas você considera que sejam seus amigos íntimos?
- Como assim?
- Amigos íntimos. Amigos em quem você confia.
- Hmm... deixa eu ver... hmm... três.
- Bem, está na média. E quantas pessoas você conhece superficialmente?
- Bem... eu acho que é impossível de calcular.
- Impossível de calcular é igual a cinqüenta. Vejamos, vejamos... você conhece pelo menos mais um psicopata, mas pode ser que eu seja o primeiro que você conhece, probabilidade não dá certeza. Mas acredito que você tenha relações íntimas com três pessoas com perturbações mentais graves e você... Você costuma checar se todas as luzes do apartamento estão desligadas antes de sair de casa?
- Eu? Não.
- Checa o registro do gás mais que oito vezes ao dia, pra ver se está fechado?
- Hmm... acho que não.
- Tem alguma fantasia sexual envolvend...
- Ei, espera aí!
- O quê?
- Que perguntas são essas?
- Nada, eu só queria saber se você deve ou não ser contabilizada em minhas estatísticas pessoais. (tira um caderninho do bolso e começa a escrever, repete para si mesmo enquanto escreve). "Ficou intimidada quando questionada sobre intimidades sexuais, provavelment..."
- Calma lá, Sr. Psicopata. Eu não tenho nenhum problema sexual. E vi na TV a cabo que psicopatas, sim, é que tem problemas sexuais. Disseram que a maioria são bichas ou impotentes.
- Você não deveria tratar informações de televisão como fonte científica confiável. Na verdade, a maioria de nós, psicopatas, não tem nenhum problema de ordem sexual. Eu diria que o que nos motiva é um certo impulso estético. O que acontece é que alguns de nós substituem completamente o instinto sexual pelo impulso estético, ou alguns ficam tão estéticos que descambam pra bicharia. Mas a maioria de nós leva uma vida normal, muitos se casam e têm filhos, inclusive. O que acontece é que os casos aberrantes sempre chamam mais a atenção e acabam criando uma certa imagem na mídia. E a mídia, você sabe...
- Isso está me cheirando a defesa de classe.
- Pois não é. Conheço bem o assunto e minhas informações são fidedignas e, além do mais, não me interessa o que as pessoas pensam sobre nós.
- Bem, a televisão disse que psicopatas são inteligentes e dissimulados. Você parece estar de acordo com o protocolo tentando sair assim pela tangente.
- Isso é um elogio ou uma acusação?
- Você é inteligente, deve ter entendido.
- Não entendi, mas vou ser dissimulado e fingir que não estou interessado na sua opinião.
- E você está?
- Sou dissimulado e inteligente, portanto temos uma situação interessante aqui. Afirmo que sou dissimulado, o que confunde a definição mesma de dissimulação. Por outro lado, isso seria muito inteligente, pois criando tal situação deixo você sem parâmetros seguros de julgamento, o que, por outro lado, confirma minha inteligência e, em última instância, meu poder de dissimulação. Ademais, a dissimulação pode ser um atributo da inteligência, assim como a inteligência pode ser um requisito para a dissimulação. Mas esse problema é falso, pois não é uma questão de "isso ou aquilo", e sim "isso e aquilo", e não há nenhuma contradição nisso tudo, afinal. Assim, fui apenas dissimulado inventando toda essa estória e não respondendo a sua simples pergunta. O que é muito inteligente, diga-se de passagem.
- Deus, você é um psicopata! O que eu estou fazendo falando com você?
- Pense que o mundo é um zoológico com várias espécies diferentes de pessoas. A variedade de tipos humanos é como a variedade de animais, há muito que se observar. Você está falando comigo agora porque quer observar uma espécie que nunca viu, ou pensa que nunca viu.
- E que espécie de animal é você, então?
- Eu... eu sou um leão.
- Hahaha, hahaha (começa a se contorcer de rir).
- O que é?
- Hahahaha (ainda se contorcendo). Um leão? Pois não parece. Hahaha.
- Ah, é? E pareço o que então?
- Parece... hmm... deixa eu ver... você parece um... um... uma foca.
- Uma foca!? Uma foca!? (nervoso)
- Hahaha... sim... uma foca! Tem um jeitinho de foca. Hahaha!
- E você parece uma porca!
(pára de rir imediatamente) - Uma porca!? Uma porca?!!!
- É. O focinho, sabe. É parecido. E também essas suas orelhas...
- O que têm minhas orelhas?
- Ah, sei lá. Você sabe.
- Sei o quê, foquinha?
- Você já deve ter visto orelhas de porco, são parecidas.
- Minhas orelhas? E você? Com essa sua cara estúpida! Só falta a gente jogar uma bola pra você sair equilibrando ela no nariz! Você também toca buzina, foquinha?
- Espera lá, espera lá. Não ofende, não. Eu não quis ofender.
- Não? Me chamou de porca, disse que eu tenho focinho de porca e orelhas de porca e não quis ofender?
- É que eu gosto de porco, sabe? De carne de porco, e focinhos de porco, e orelhas, e tudo mais. Você daria uma bela de uma feijoada. Sabe, eu sou psicopata, um pouco canibal às vezes, e aí eu tenho esses desejos, faço essas comparações na minha cabeça.
- Meu Deus, você é um monstro!
- Eu? Monstro? O que você acha melhor? Eu dizer que acho você uma delícia, lato sensu, ou eu te propor casamento e deixar você atrás de um fogão, cuidando de uns filhos malditos o resto da vida?
- Eu gosto de crianças.
- Bem, devo confessar, eu também.
- Como assim?
- Gosto de crianças.
- Em que sentido?
- Como assim, em que sentido?
- Você sabe, você...
- Não, claro que não! Sua mente pervertida! Você acha que eu seria capaz de...
- Eu não sei. Você é o primeiro psicopata que eu conheço. Eu não sei. Você bem podia ser um Herodes, sei lá. Vocês têm algum código de honra, algum tabu, alguma...?
- Moral, você ia dizer. Bem, sim. Nós psicopatas nunca deixamos de ter algumas restrições. Certamente há aqueles cujas restrições não estão muito de acordo com o que as pessoas chamariam de normal, mas devo dizer que a maioria de nós diverge muito pouco do catolicismo.
- Então me diga: quais são as suas restrições?
- Bem, eu não ataco crianças. Também não ataco pessoas que estejam impossibilitadas de se defender por algum defeito físico ou doença, mesmo porque perderia toda a graça. E também não ataco pediatras.
- Não ataca pediatras? Por quê?
- Bem, é que eu gosto de crianças, já disse. Os pediatras cuidam das crianças, então eu não ataco pediatras. E eu sempre quis ser pediatra, apesar de ter cursado engenharia civil.
- Um monte de gente cuida de crianças. Se você fosse mais lógico, também excluiria as freiras de orfanato e as babás da sua lista de vítimas em potencial.
- As freiras eu também não ataco, mas por uma questão religiosa. Já as babás, confesso que nunca tinha pensado no caso.
- E como você faz?
- O quê?
- Você sabe (faz com as mãos o gesto de estrangular alguém).
- Ah, eu tenho vários métodos. Depende muito do meu humor, sabe. Alguns psiquiatras dizem que os métodos escolhidos pelos psicopatas têm uma relação direta com o nível de dopamina no cérebro; quanto mais dopamina, mais violento o método. Eu não sei, nunca fiquei medindo meu nível de dopamina, só sei que meu humor influencia. Mas eu não gosto de lambança, minha pressão cai se eu vir muito sangue, então acabo sempre preferindo alguma coisa que não seja muito nojenta.
- Como o quê?
- Veneno, por exemplo. Veneno na comida, veneno na bebida, veneno misturado em algum medicamento, veneno nos lugares menos esperados... Tem aquele filme que o cara põe veneno nos cantos das páginas do livro que ele sabe que a vítima vai ler, e ele sabe que a vítima costuma molhar as pontas dos dedos com saliva sempre que muda de página; nunca tentei, acho que porque só mato esses analfabetos. Tem também aquele cara que faz uma vela com veneno misturado na parafina e põe no quarto da vítima, pois a vítima sempre deixava a vela acesa no quarto. Conforme a vela queima, o ar vai ficando impregnado de veneno. Genial, não é?
- Credo! Como eu posso achar genial uma coisa dessas?
- Ah, que é isso, deixa de ser preconceituosa. Vai dizer que nunca quis matar alguém.
- Bem... já. Mas é diferente, eu tinha motivo. E não matei!
- Eu diria que você é muito vingativa e pouco corajosa. Eu nunca matei ninguém que me fez mal. Não acho que isso seja motivo, detesto vingança. E eu tenho coragem de matar, coisa que você não tem.
- Quer dizer que eu devo ter admiração por esse seu... jeito, então? A sua coragem?
- Encare como quiser.
- Muito bem, Sr. Psicopata, esse é o meu prédio. Não sei por quê, acho que não devo convidá-lo a subir.
- Ah, não tem problema. Eu estou acostumado com a discriminação, a gente vai endurecendo o coração com o tempo, não precisa se desculpar.
(com jeito malicioso) - Vejam só! Que psicopata bonzinho e compreensivo! Esse seu olhar perigoso é excitante, sabia?
- É? Não sabia. Você está com o canto da boca sujo de sorvete.
- E você gosta de sorvete?
- Gosto.
(aproximando-se do rosto dele) - Por que não vem provar, então?
(ele abre um riso largo) - Eu não tomo gelado, pode fazer muito mal à saúde.

Posted by Radamanto at 6:41 PM