junho 23, 2003

Um caso

Conheci talvez o sujeito mais feio que já houve. Era verdadeiramente hediondo, feio como uma fechada de Kombi, como um desastre de trem, como um paraguaio baleado.
Chamava-se (...) e tinha por volta de 20 anos quando o conheci, mas representava mais velho. Não tão mais velho, aparentava uns 25.
Aparentando uns 25, parecia, pois, ainda jovem, e isto era pior.
É natural que o sujeito mais velho vá enfeando, tanto que não se cobra beleza dos velhos, apenas postura. No velho, o que vale é a postura. Já o sujeito sendo jovem e feio, as coisas se somam para pior desastre de seu aspecto, pois que a juventude realça a feiúra.
A feiúra, no jovem, faz um contraste impossível de não notar. Por isso é melhor para o feio que envelheça logo, pois assim podem atribuir à idade sua má estampa, desculpando-lhe a fealdade.
Voltando ao horroroso de que aqui tratamos, sua cara era tão feia que parecia um vômito do seu pescoço. Não vou fazer aqui a descrição em pormenores, estou convencido de que uma feiúra daquelas não se consegue descrever com imagens verbais, dou apenas as características mais genéricas, e o leitor que imagine o resto a seu gosto. Garanto apenas que a pior imagem que o leitor compuser em sua mente ainda será injusta à hediondez de meu conhecido, feio além da imaginação.

Era magro e curvado, os dedos finos e compridos pendiam das mãos ossudas. O peito fundo lhe dava ares de tísico, de frágil. Uma feiúra espectral e antiga se assentava em sua estrutura, uma feiúra de castelo, por assim dizer; uma feiúra de calabouço medieval. Seus olhos, sempre excessivamente úmidos, pareciam chorar eternamente o crime de seu nascimento, o que tornava sua presença mais comovente.
Passeando pela faculdade, enternecia multidões. Ninguém lhe era indiferente – impossível! Era bem tratado por todo mundo, inclusive pelos professores, que nunca tiveram a coragem de reprová-lo mesmo quando deveriam. Como reprovar aquele pobre? Seria um pecado. O governo deveria até lhe arranjar uma pensão vitalícia como reparação por qualquer fator geográfico, qualquer fator político que houvesse interferido na sua geração. Por algum mistério do psicológico humano, as pessoas sentiam-se responsáveis por aquela feiúra, como se aquele coitado expiasse as faltas de cada um, redimindo a humanidade de, pelo menos, quinhentos mil anos de pecado.
As meninas tratavam-no com casta ternura. Era considerado um puro, de alma tão simples quanto feio em tudo mais. Piedosamente, disfarçavam o nojo e conversavam com ele como se fosse normal. Evitavam apenas falar em estética, para impedir o perigo de uma gafe, assim como evitavam assuntos relacionados ao sensual, para não constrangê-lo.
Via-se que tinha prazer no contato com as pessoas, gostava principalmente de conversar. Era meigo de temperamento, concordando o mais das vezes com o que se dizia.

Conclusão do caso:

Acontece que, certo dia, esse rapaz foi pego furando os olhos de um canário com uma agulha. Não interessa como aconteceu, digo apenas que o rapaz foi pego enquanto picava os olhos do canário com uma agulha. E fazia isso com a satisfação maligna do radiologista que encontra o câncer. Perguntaram a ele: “E por quê?”. “Para o canário cantar à noite” – foi sua resposta. Surpresa geral, ninguém se conformava com aquilo. Logo ele, o meigo, o puro, o de alma tão simples quanto feio em tudo mais... Custavam a acreditar que o rapaz pudesse ser capaz daquela atrocidade.

Movimento psicológico:

Acontecia o seguinte: era tão feio que jamais poderiam adivinhar-lhe o mau coração.

Posted by Radamanto at 11:59 AM

junho 18, 2003

Quem nunca teve uma mãe histérica não sabe o que é ter mãe

Outro dia, eu e uns amigos comentávamos a respeito de nossas famílias quando a conversa enveredou para uma competição: qual de nós tinha a mãe mais histérica?

Era com empáfia que fulano contava da maneira como sua mãe transformava um simples almoço de terça-feira num escândalo sem precedentes, conseguindo brigar com a família inteira enquanto servia o feijão ao caçula. Outro, seguro de que sua mãe era a maior, falava da histeria plástica, da dramaticidade que sua mãe dava ao escândalo, da maneira soberba com que gritava a plenos pulmões, fazendo-se ouvir até o fim da rua. Outro ainda enaltecia a pontaria da mãe, capaz de acertar qualquer objeto na cabeça de um filho a duzentas jardas, desde elefantes de porcelana a colheres de pau. “Mas como não matou a prole de traumatismo craniano?” – indaguei, desconfiando da história. “Eu e meus irmãos aprendemos a defender com o antebraço” – explicou, provando com uma cicatriz causada por um Buda de cristal que debelara a tempo de impedir um traumatismo certo.
“Suas mães não são de nada” – confrontei a todos, como na piada. “Minha mãe é o que há. Minha mãe é histérica de juntar gente na frente de casa. Histérica de subir no telhado e atirar pratos lá de cima. E como grita! Uma Maria Callas! Perdi 20% da audição no ouvido direito ainda aos sete anos”.
Como me pedissem exemplos, contei da vez em que atacou me pai a dentadas e arranhões, descabelando-se em fúria, tendo que ser contida por três marmanjos (meu pai e meus tios).
E ainda foi levada de ambulância para tomar calmante no hospital, de ambulância! Histérica de sair de ambulância, minha mãe!
À força de minhas descrições, capitularam todos, menos um: “minha mãe é mais” – insistia o fulano. “É nada” – retrucava eu. Contei mais umas histórias, inclusive das tentativas de suicídio, e o canalha insistia: “minha mãe é mais”. Aquilo já me irritava.
- “Se sua mãe é tão boa assim, prove”.
- “Minha mãe morreu de histeria”.
- “Isso não existe”.
Abriu a carteira e tirou uma foto. Todos se agruparam em torno dele, espiando por cima dos ombros. A foto mostrava a mãe no caixão, o cabelo descabelado, o olho aberto, esbugalhado, ainda faiscante de ira (“não conseguiram fechar-lhe o olho” – contou). O lábio superior mordia o inferior, a mandíbula travada (“não destravaram nem a martelinho”). Era a máscara mortuária mais hedionda, mais viva que eu já vira.
- “Venceu”.
- “Nunca houve histérica como a minha mãe. Nunca!” – disse, escorrendo orgulho pela cara saudosa.

Posted by Radamanto at 12:29 PM

junho 16, 2003

Demonizam os fabricantes de cigarro

Nunca imaginei que os fabricantes de cigarro quisessem me matar, mas eis que o governo me revela agora essa incrível trama. Além de me matar, diz o governo, os fabricantes ainda querem exibir minha cabeça como um troféu de caça, pregada dramaticamente na parede.
Minha cabeça ficaria melhor no Smithsonian, acredito, ou mesmo num pub irlandês, mas os fabricantes parecem fazer questão, vá lá.
Que eu saiba, fabricar cigarros ainda é legal neste país. Agora digam: pode-se demonizar na televisão uma classe que fabrica um produto legal? Continuem me ajudando: o fabricante de cigarros não tem família? Não é uma pessoa?
Vamos pensar no filho do fabricante de cigarros na escola, por exemplo. A pobre criança chega na escola certo dia e percebe que todos lhe viram a cara. À sua entrada, meninas de maria-chiquinha torcem o nariz, os garotos o olham com ameaça, batendo o punho fechado contra a mão aberta. A professora o segue com o olhar até que filho do fabricante de cigarros alcance seu lugar na sala. Ninguém diz palavra.
A aula começa e o filho do fabricante de cigarros percebe que esqueceu a borracha. Vira-se para o coleguinha sentado atrás dele: - “Me empresta a borracha um minutinho?”. O outro, com o olho rútilo, grita-lhe na cara: - “Não!”. A pobre criança nada entende, fizera algo àquela gente de que não se lembrava?
No recreio, resolve passar a limpo a situação. Aproxima-se de um grupo de coleguinhas, todos emudecem e cruzam os braços à sua aproximação. Pára a uma distância segura e pergunta de uma vez: - “Mas o que foi que eu fiz?”. Um dos meninos toma a palavra do grupo: - “Você, nada. Mas teu pai tá querendo matar a gente”. O filho do fabricante de cigarros, incrédulo: - “Meu pai? Matar vocês? Mas de onde vocês tiraram essa estória?”. - “Deu até na televisão”- responde o outro, seguro; os demais concordam em burburinhos. O filho do fabricante se afasta do grupo. Agora ele entende tudo, só resta saber por quê seu pai teve tal idéia tresloucada.

Eu queria saber quem é que faz essas propagandas. Quem é a besta, a mula, o zebu, a bactéria amorfa e nojenta que teve a idéia de fazer uma propaganda dessas. Na falta da informação, xingo José Serra, aquela múmia, pois foi ele quem começou com as propagandas idiotas contra o fumo. José Serra desgraçado, você com essa cara de família Adams terceiro-mundista só podia ter essas idéias idiotas. Cretino! Zebu! Pulha! Pulha! E ainda queria ser presidente?! Você não serve nem pra presidente de regional do Rotary, nem pra presidente de comitê de bairro. Múmia! Múmia!

Posted by Radamanto at 9:15 PM

Mas que putaria é essa?

Outro dia amigo meu contou da vez em que dançou pelado com uns hippies.
Estava ele numa dessas chapadas do Brasil, dessas infestadas de hippies e demais alternativos, e numa noite o pessoal resolveu dar uma festa dos pelados, tipo pra ter contato com a mãe natureza.
Como a ingenuidade morreu de gripe espanhola, é claro que ali se configurava uma possível suruba, daquelas imensas, daquelas de baile de máscaras do século XVIII. Não que alguém ali confessasse, o interesse era o contato com a mãe natureza, claro, como se o fato do sujeito expor o traseiro ao vento lhe transformasse num sacerdote de Gaia.
Meu amigo, que não é ingênuo, foi lá ter com os pelados (com as peladas, mais especificamente), pagando pra ver o que sairia dali. O contato com a natureza (suruba) dar-se-ia em local ermo, onde devem ser os contatos com a natureza, já que bastante impudicos no geral.
Lá chegando, esse meu amigo foi convidado a se despir, como os demais, e... pasmem! Pasmem! Pasmem! Pediram que ele entrasse numa fila! Uma fila! Repito: uma fila!
Indecente não é dançar pelado, indecente não é usar a natureza à guisa de desculpa para dar suruba, indecente é pôr o sujeito pelado numa fila! Fila em suruba é o cúmulo do descaramento! Mas tal era o caso.
Fico pensando nessa incivilidade domesticada dos hippies, dos alternativos. O sujeito vai ao quinto dos infernos dar suruba, pois ali pode dar vazão a toda sua potência bestial, chega lá e manda o pessoal fazer fila pelado. Mais ridículo, só se exigisse gravata borboleta ou gargantilha como único traje obrigatório. É uma incivilidade falhada, essa dos hippies, uma incivilidade de gente criada a Neston e Leite Ninho. Pretendem se comportar como faunos mas não passam de uns gaiatos, uns falsos libertinos, uns sátiros de Monteiro Lobato, de Sítio do Pica-pau Amarelo.
Conheço gente que vive atirando na cara de todo mundo sua liberdade sexual. Olham os demais, os reprimidos, como se fossem os verdadeiros pervertidos. “Lá vai o reprimido” – dizem. “Tem mais couraça que o Encouraçado Potemkin. É um pobre diabo que não conhece a liberdade sexual”.

Hoje em dia, o descaramento não conhece gênero. Foi-se o tempo em que você chamava fulana de biscate, rameira, marafona e ela se sentia ofendida. “Sou mesmo” – hoje ela responde, e ri como uma égua. Não estou exagerando. Conheço uma moça cuja tristeza é não conseguir rivalizar com outras moças mais dadeiras em número de parceiros sexuais. “Qualquer dia dou pra cinco de uma vez e venço as outras, nem que por um dia” – adivinho-lhe o pensamento. E, sabem, essa moça é triste. Vive chorando em final de festa, de churrasco.Chora, depois vai atrás de dar, e então, dá para o primeiro que aparece, como aquelas sacerdotisas antigas. Os feios lhes são gratíssimos.
Não estou aqui fazendo pregação moral. Não.
Eu só queria saber onde está o pervertido verdadeiro, aquele de sotaque francês e bigode encerado. Aquele que bate no peito obscenamente proclamando a putaria, que não tem vergonha nem faz fila em suruba. Ou aquela que dá e não chora depois, que ostenta o prazer e não tem taras monogâmicas no dia seguinte.
Só vou dar ouvidos à liberdade sexual no dia em que vierem os verdadeiros pervertidos.
Esses que estão aí têm moral demais pra acusar alguém.

Posted by Radamanto at 11:43 AM

junho 12, 2003

Me disseram à tardinha

Me disseram à tardinha que o indivíduo morreu. O corpo ficará exposto até que uma Antígona venha sepultá-lo.
Quem me contou o disse com bochechas de Jaime Palilo e fazendo boquinha.
Só acredito depois de ver o cadáver, que eu não sou limão.

Posted by Radamanto at 3:50 AM

junho 9, 2003

Questão do Exame Nacional de Cursos para o curso de Psicologia (Quiz Psico).

Nota do blogueiro: é verdade, desta vez não estou fazendo graça.

A emergência da experiência de uma subjetividade privatizada (em que nos reconhecemos como livres, diferentes, capazes de ter desejos e pensar independentemente), a partir do advento da Idade Moderna, é considerada uma condição necessária, porém não suficiente, para o surgimento da Psicologia como área independente de conhecimento e atuação profissional. São condições que também podem ser consideradas necessárias para o surgimento da Psicologia:

I. a crise da subjetividade privatizada, quando se descobre que a liberdade e a diferença individuais são, fundamentalmente, ilusões.

II. o surgimento da necessidade social de construção de instrumentos de controle, fiscalização e previsão de características e ações individuais, com a finalidade de corrigir desvios comportamentais.


III. a fundamental contribuição do ideário romântico, viabilizando concepções de liberdade positiva, através de experiências de autonomia e auto-engendramento.

Quais dos itens acima estão corretos?

Resposta do gabarito: TODOS!

Isso quer dizer, entre várias outras coisas, o seguinte:
Que até o “advento da Idade Moderna”, ninguém se reconhecia capaz de ter desejo, pensar independentemente ou ser livre (isto nem em grau absoluto, nem relativamente).
Que em algum momento, o Homem pôde conceber-se livre, independente e capaz de ter desejos, pelo menos em algum grau.
Mais tarde, o Homem descobriu que esse negócio de liberdade e independência é tudo papo-furado, fundamentalmente uma ilusão.
Ergo, eu, você, o Mário e a Inês não somos livres nem diferentes (a não ser que sejamos uns baita iludidos).

Isto é o Provão, isto é a Psicologia.
Se quiserem ver as provas e os gabaritos deste ano (não censuro o masoquismo de ninguém), não só de Psicologia como de todos os cursos avaliados, vão até este endereço.

Eu vou correndo pegar a prova de História! Deve ter várias coisas legais (por enquanto, recomendo somente a de Psicologia, a única que vi até agora).

P.S.: A gramática do Provão é um caso à parte. Consegue ter mais erros que este blog.

Posted by Radamanto at 11:44 AM

junho 8, 2003

Mind_Patrol.gif

Posted by Radamanto at 4:58 AM

junho 6, 2003

Isto sim é um post

Gênia! A nossa Virginia Woolf!
Tem estilo até gravando alianças, de tão bem que escreve!

Posted by Radamanto at 5:38 AM

A Psicologia enfrenta a Física

A Física sempre quis passar a idéia de ciência limpa, que não tortura animais nem tem outro objetivo na vida que criar elegantes modelos do Universo, vestindo-lhe ora de toga, ora de fraque e cartola, ora de sport fino, como quem brinca de Barbie com a realidade.
Tsc, tsc, tsc. Eu não caio nessa.
Não há ciência mais fingida em seus propósitos, não há saber mais pérfido em seu inconsciente, não há nada mais sujo, vil e destrutivo em seus desejos que a Física. E falo isso com a autoridade incontestável de um futuro psicólogo.
Que as ciências médicas tenham seu interesse em aplicar sanguessugas na pele de bebês, que muitos médicos tenham feito a humanidade tomar urina prometendo curá-la de gota, isso, se não perdôo, até entendo. Ninguém ignora a fixação doentia dos médicos por tudo aquilo que se avizinha do tétrico, a ponto de Vesalius, o famoso anatomista, ter por hábito noturno disputar cadáveres com os cães em valas comuns, sendo que morava numa casinha atulhada de corpos humanos que dissecava dia e noite. Tal nível de sadismo, apesar de estranho, em geral visa a algum propósito útil no final das contas, no mínimo um propósito justificável.
Agora, vejam a Física.
Não tendo justificativa para torturar animais ou injetar gasolina em humanos, os físicos fingem lidar apenas com inocentes e lúdicos joguinhos mentais e, quando vão realizar experimentos, atiram bolinhas de papel do alto de torres ou constroem gigantescos autoramas de partículas, querendo dar a entender que não passam de uns meninos travessos. “Vejam o físico, que engraçado!, verifica suas teorias quando lhe cai uma maçã na cabeça. Como é bobo e distraído, o físico bonzinho” – essa é a imagem de que tentam nos convencer. Nada mais distante da verdade.
Pela magnitude dos problemas que arruma pra cabeça (outra característica da Física é sua megalomania), a Física vive enrolada em verificar experimentalmente suas idéias estapafúrdias. Hoje em dia, há enormes aparelhos que apitam construídos com o único propósito de dar legitimidade as insanidades dos físicos. Mesmo assim, os experimentos que propõem às vezes são tão absurdos que nem mesmo esses aparelhos são capazes de negar ou endossar as hipóteses que formulam, sendo, por isso, obrigados a criar certos “experimentos mentais”.
Dentre as infinitas maneiras de apresentar tais “experimentos”, escolhem, por exemplo, trancafiar um pobre gato numa caixa com veneno, deliciando-se com a imagem do pobre bichano tendo espasmos fatais (ou não, ou indecidível) dentro da caixa.
Mais.
Em vez de simplesmente confessar sua ignorância a respeito dos misteriosos buracos negros, especulam a respeito do que acontece em seu interior (se é que tal coisa tem um interior) nos seguintes termos: “um ser humano dentro de uma nave que se aproxima de um buraco negro provavelmente será esticado ao infinito”. Vejam: atiram um coitado qualquer no buraco negro quando se lhes pede simplesmente que expliquem o místico corpo celeste em quais termos (se é que tal coisa é um corpo celeste). Não lhes passa pela cabeça explicar a coisa de outra forma. Por que, por exemplo, não atiram uma caneta BIC no buraco? Uma pedra, um clipe de papel, sei lá! Não, tem que ser um coitado qualquer, um indigente indefeso, cujo cadáver anônimo será esticado para sempre, como se cavalos imaginários fossem atados a seus membros e disparassem em direção oposta, cada um rumando para um infinito cardinal.
Sabendo dessa fixação por estiramento dos físicos, não me espantarei nem um pouco se as tais supercordas, mais cedo ou mais tarde, se revelem instrumentos de suplício cósmico. O nome, “supercordas”, já dá uma idéia do que vem por aí. Talvez sirvam para superestiramentos ou superenforcamentos em 32 dimensões.
Aliás, estou certo de que as várias dimensões que essa gente vive a inventar têm o único propósito de multiplicar nossos sofrimentos, numa matemática pérfida que se regozija em elevar a potências de treze dígitos o número dos círculos do inferno.
Vamos a outro exemplo da imaginação terrível dos físicos, este relacionado à relatividade (ampla, geral e irrestrita):
Põe-nos a viajar em trens enormíssimos à maior das velocidades possíveis, munidos apenas de prosaicos relógios de pulso para nossa proteção pessoal, certamente ansiando para que haja a mais tremenda das colisões, espatifando-nos a todos como átomos colidindo num acelerador de partículas. Eis um clássico exemplo de “experimento mental” da Teoria da Relatividade.
Vejam bem, só um sujeito doentiamente sádico poderia aproximar sua imaginação do pior desastre de trem da história. Landau, físico russo conhecido como ‘o Sade de Moscou’, acrescentou ao exemplo do trem pessoas dando tchauzinho na plataforma ferroviária. Não especifica, mas certamente eram os filhos despedindo-se das pobres mães, que embarcavam para jamais voltar naquela viagem fatídica. Como requinte de crueldade, às crianças talvez fosse dada a esperança edípica de que as mães voltassem um dia quase tão jovens quanto haviam partido. (numa outra versão do experimento, as mães até conseguem resistir ao desastre de trem, mas quando voltam suas crianças já morreram há muito e lhamas gigantes dominam a Terra).
Ninguém supera o físico em vileza. Mesmo os matemáticos, outra raça fria e calculista (perdão pelo trocadilho imbecil), mesmo eles dão-se por satisfeitos em destilar sua perfídia em questiúnculas banais sobre o que é discreto ou indiscreto, não nos causando mal pior que uma gorda de high-society.
Se enganam aqueles que acreditam no pacifismo de Einstein (pacifismo? rá. rá. rá). É tudo cena. Estou certo de que, desde Aristóteles, os físicos já trabalham na bomba atômica. E se é verdade que os físicos têm, em geral, gosto por tocar instrumentos musicais, é apenas para que possam sair dedilhando uma lira no dia do cataclismo nuclear final, como Neros, comemorando a desgraça que causaram.

Retirem o manto real da “rainha das ciências” e verão que, por baixo dele, ela está vestida de dominatrix.

Posted by Radamanto at 2:21 AM

junho 5, 2003

Boletim Informativo Mind Patrol

Encontradas novas reservas morais da nação na Bacia de Caramanjibe

A Ferrabrás anunciou ontem a descoberta de novos poços de moralidade e opinião isenta na Bacia de Caramanjibe. “São um tiozinho de baixa renda e uma véinha que faz bala de coco” - informou Lôcha, uma pessoa importante da Ferrabrás. “Se continuarmos a descobrir reservas como essas, em breve poderemos nos insurgir contra “eles” e tudo isso que aí está”.
O Brasil já produz cerca de 80% da moralidade que consome. Com a descoberta dessas novas jazidas, em breve o país será auto-suficiente em moralidade, podendo dispensar os contratos de importação com o Vaticano e a Noruegua.
Caramanjibe já é responsável pela produção de 34% das pessoas isentas e honestas do país. Vem atrás apenas de Muzambinho, interior de Minas Gerais, onde vivem Raymundo Lúlio de Oliveira e família.

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É isso aí, canalhas. Nem tudo está perdido. Não pensem que vocês conseguirão nos vencer assim, de mão beijada. Sabemos que a batalha será árdua e que vocês jogam sujo, mas no final o bem sempre vence. Juntos chegaremos lá (juntos, que eu digo, NÓS; vocês, eu quero mais é que se explodam).

Posted by Radamanto at 1:31 PM

junho 4, 2003

Mind Patrol

- a opção inteligente dos contras

Agora já era, canalhas.
"Carcasse, tu trembles? Tu tremblerais bien davantage, si tu savais où je te mène."
Vou dar uma função social a esta porqueira de blog. Uma alternativa inteligente a tudo isso que está aí. Este será o novo centro independente de análise da mídia, o Mind Patrol. Nosso objetivo será desmascarar os embusteiros de plantão, promover debates que mobilizem a comunidade blogueira (de Padre Miguel e outras), apontar os abusos, desmandos e engajamentos ideológicos que orientam as informações. Só aqui você ficará sabendo de tudo aquilo que "eles" não querem que você saiba (se liga "eles"?).
Esqueça porcarias como Observatório da Imprensa, CMI, MSM, Xunda Media Center e Paul Kersey Institute. Aqui tiraremos não só a máscara como a fantasia inteira.

Dante, cachorrão: eu vi o que você fez. Não há desculpa para a atitutude entreguista de alguns posts seus publicados recentemente.
Alexandre Soares, não sei quem te paga mas saiba que não é todo mundo que cai no seu joguinho sujo.
Mozart, é com pesar que detectamos a decadência de seu blog. De um espaço honesto para discussões proveitosas e relevantes, aquilo se transformou numa pocilga imunda, repleta de crônicas leves e engraçadinhas, essa praga moderna da mídia brasileira. Não é assim que você vai contribuir para a grandeza da inteligência brasileira.
Paulo Polzonoff deu para mentir descaradamente, o que confirma aquilo de que sempre suspeitamos. Seu salta-pocinhas miserável, Bento Carneiro de Curitiba, ainda vamos limpar o chão com a tua cara!
Ruy Goiaba (ou devo dizer Paulo Salles, ahn? ahn?), seu comunista enrustido. Violamos sua correspondência e quero ver você explicar aquele postal de Moscou. Ah, e se você usar mais uma mensagem subliminar, mais umazinha só, mesmo que bem pequenininha, ai de você Ruy Goiaba (ou devo dizer... Paulo Salles! Ahn? Ahn?).
E você, Moranguinho, se não sabe de música moderna é melhor não escrever a respeito!

Não pensem que vamos parar por aqui. Por maiores que sejam as pressões, insistiremos em nossa luta, remando sempre contra a maré da ignorância e da desinformação.
"Que Deus dê saúde a nossos inimigos para que assistam de pé à nossa vitória."
"Deus dá nozes conforme o cobertor."

Posted by Radamanto at 11:18 AM

junho 3, 2003

Possíveis epílogos de Matriz

matriz.jpg

I - Tudo não passa de um sonho do Chaveiro, que acorda suado ao final do Matriz 3. "Melhor parar com as anfetaminas" - ele diz para si mesmo antes de voltar para cama e o filme se encerrar.

II - A cena final mostra Keanu Reeves acocorado no canto de um banheiro de rodoviária. A cena começa com um close em seus olhos vermelhos e injetados. Conforme a câmera vai abrindo, percebe-se a latinha amassada em suas mãos com as pedrinhas em cima. Leva a lata à boca e dá uma pipada gostosa. Prensa, exala, enxuga a testa suada. "Que trava!" - diz.
The End.

III - Gugu aparece em cena com um câmera-man, Rodolfo e ET. Dá uns tapinhas nas costas de Neo. "Tem uma pessoa aqui que gosta muito de você e te fez esta homenagem..."

IV - O Arquiteto tira a maquiagem e revela ser, na verdade, Ivo Holanda.

V - Uma voz em off diz que não tem porra nenhuma de matriz e que tudo tem o mesmo grau de realidade. A seguir, começa a discursar sobre a positividade das formas ideais, no que é interrompido por Graham Chapman: "Too silly! Too silly".


***

Uma palavra em favor de XXX-Men

É melhor que Matriz Recarregada.

Posted by Radamanto at 1:01 PM

Criação de anjo

anjo.jpg

Diante da minha inevitável estréia no mercado de trabalho daqui a uns meses, confabulo planos de contornar o penoso jugo do trabalho. “Jamais botarão em mim canga alguma“, eis meu compromisso social.
Ultimamente, venho pensado em criar anjo. É só conseguir umas poucas matrizes que logo me tornarei grande criador.
Como penso em criação intensiva, não careço de um grande latifúndio: qualquer três alqueires tá valendo.
Além de criar, pretendo abater, cortar e embalar o produto; e talvez eu mesmo vá entregar a mercadoria aos compradores.
Anjo é fácil de criar. Comem basicamente hóstia macerada e bebem água benta. Às vezes é conveniente misturar sal mineral à comida. O viveiro é bem simples, nem precisa de luz artificial, pois anjos dormem cedo, à maneira de outras aves como a galinha. Apenas se recomenda a instalação de poleiros no viveiro, o que descontrai os anjos.
Importante para o criador que não construa o angelário próximo de locais habitados. Todo dia, às cinco da matina, os anjos sobem nos poleiros e entoam hinos ao Senhor numa altura insuportável. Nem sempre são afinados, ao contrário do que pensa muita gente, e um Rex Tremendae desafinado e aos berros às cinco da matina não é bom para os humanos em volta.
Quanto aos produtos advindos dos anjos, eles são muitos. Além da carne tenra e macia, naturalmente light, pode-se aproveitar a plumagem para a confecção de artefatos de vestuário ou mesmo para fazer uma bonita peteca. A pele de anjo, apesar de pouco resistente, também pode ser usada no fabrico de peças de vestuário, e há mesmo algumas montadoras interessadas em revestir o estofado dos automóveis com pele de anjo, o que certamente vai aquecer o mercado. Dos anjos, até o cabelo se aproveita: substitui muito bem a crina em arcos para instrumentos musicais. Há também um projeto sendo desenvolvido por um laboratório fotográfico que utiliza o tutano de anjo para revestimento de películas fotossensíveis, o que vem dando excelentes resultados.
Ainda sobre o processo de criação e abate do anjo, eles geralmente estão bons para o abate em oito meses, o que faz da anjocultura um investimento de retorno bastante rápido. Reproduzem-se por bipartição por volta dos quatro meses (realmente eles não tem sexo).
O processo de abate é por degolamento em esteira, totalmente indolor e higiênico. A carne, pode-se vender em peça inteira (resfriada ou congelada), por peças (asinha, peito de anjo, coxa e sobrecoxa) ou pode-se fazer embutidos (lingüiça, salsicha e a deliciosa mortadela de anjo). Muitas partes do anjo dão um bom patê.


Abaixo, uma peça inteira pronta para o preparo.

Inteiro.jpg

Esta imagem mostra o anjo já moído, pronto pra virar salsicha.

AnjoEmbutido.jpg

E esta outra mostra uma peça inteira na sua embalagem para venda.

AnjoCongelado.jpg


Bom apetite!

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Posted by Radamanto at 4:09 AM