julho 28, 2003

Um mundo mais legal pra mim e pra você

Antigamente (esta palavra fatal), antigamente, a nossa imprensa era saudável e tumultuada. Na falta de notícias, inventavam-se notícias, ou então se alimentava uma polêmica.
Alimentava-se a polêmica como a um tigre. A polêmica se instalava no meio do circo nacional, e os jornalistas se divertiam em atirar bifes à polêmica.
As manchetes vinham com três exclamações e em tipo gigante. Era um grito, um susto, o delírio total!!! Não havia o copy-desk e até as notas de falecimento tinham um estilo fenomenal. Os vereadores eram “edis” e o cemitério, o “campo santo”.
Na época das eleições ou de impasses políticos, os jornais se engalfinhavam para promover tal ou qual parte. Xingava-se o adversário, calúnias hediondas eram impressas contra os inimigos do jornal. Uma festa!
E hoje em dia?
Hoje em dia temos o “jornalismo ético e imparcial” (uma impossibilidade genética; só a proposta de um “jornalismo ético e imparcial” já é de um descaro total).
Gente chata, escrevendo sobre assuntos desinteressantes, para um leitor cretino.
Outro dia li alguém dizendo que a polêmica é boba, vazia. Os jornais deveriam publicar discussões inteligentes, não dando lhufas para polêmicas. Que mané discussão inteligente?! Gosta de discussão inteligente? Vai ler o caderno Mais!, que lá, sim, tá cheio de discussão inteligente. Eu quero é sangue!
Jornalismo imparcial, todos sabemos, é desculpa para lavar o cérebro do povo. O último jornalista imparcial morreu quarta-feira. O que me deixa epaté (gostaram do epaté?) é a cara deslavada com que afirmam este novo jornalismo bundinha, como se fosse o único possível e digno de crédito. Muito melhor é deixar a imprensa se atacar mutuamente, e que cada um tire o partido que achar melhor.

Antigamente (a palavra me persegue) o jornalista era uma fera, um Sansão (um Hércules, segundo Eça de Queirós). Hoje em dia são uns tontinhos xongos, e cada novo talento que poderia surgir é forçado pela “linha editorial”, pelo “manual de redação”, pela “ética jornalística” a descer ao nível dos demais cretinos. E o que poderia ser um repórter criativo, um articulista vigoroso, um espadachim verbal, um Zorro de redação se transforma numa máquina boba de redigir textos prontos, com expressões prontas. Jamais escreverá “suelto” ou chamará um político de sem-vergonha ou canalha. Será um Sansão tosado, um Casanova feito eunuco.
Poderão argumentar que uma imprensa de partidários perderá a credibilidade. Aí eu pergunto: e algum dia teve? Aponte-me um sujeito que acredita na credibilidade da imprensa e eu lhe mostro um burro (gostaram da frase pronta?).
Em jornalismo, temos que fazer o elogio das esquerdas declaradas. Uma Bundas, uma Caros Amigos é muito mais excitante que dúzias de Vejas, Épocas, FSP, Bravo, et cap. caverna. Independente do conteúdo infame das idéias, elas são defendidas com ardor, com hombridade (não raro, com brilho), e os jornalistas dessas revistas não escondem que querem convencer o leitor do seu ponto de vista. Se chegam a falsificar os fatos na defesa das idéias, pior para eles que vão ter que agüentar a contestação feroz dos oponentes (que os acusarão, no mínimo, de canalhice vil e abjeta; daí pra baixo).
Argumento final: a imprensa partidária e estilista é muito mais legal.
Os órgãos da imprensa estão flácidos. Precisamos enrijecê-los novamente.
(gostaram do trocadilho final? não, não ficou bom)

Posted by Radamanto at 5:31 PM

julho 26, 2003

Loirinho mignon

Jovem, boa aparência, discreto, higiênico, carinhoso, pronto a satisfazer todos os seus desejos, se oferece para trabalhar em qualquer coisa. Venha realizar suas fantasias de dominação comigo, tendo-me como seu empregado. Atendo em escritórios, lojas e outros estabelecimentos. Trabalho para grupos, casais ou individual. Estou te esperando.

Posted by Radamanto at 3:37 AM

julho 16, 2003

Desgraçados

Assistindo TV outro dia com um amigo, espantávamos juntos com os índices de desemprego. Eu me espantava mais que ele, já que sou desempregado. Na verdade eu suava frio, e mordia o lábio dramaticamente (procuro sentir o drama do desemprego o mais que posso, isso dá todo um sentido a minha vida).
Enquanto a apresentadora do telejornal narrava os índices de desemprego (como quem canta pedras de bingo), meu amigo fez a seguinte observação:

- É tudo culpa desses desgraçados que fazem trabalho voluntário.

Senti um formigamento súbito, coisa que sempre me acontece quando ouço uma verdade. Diante de observação tão fulminante, caí de quatro e pastei. Impossível superar aquela análise, qualquer coisa que eu dissesse só estragaria o clima imposto pela frase, um clima solene, profundo (“de igreja gótica”, segundo Alexandre Herculano).
Este meu amigo sempre me espanta com suas verdades e a sutileza de suas observações. Só assisto televisão acompanhado dele, pois assim me desobrigo de pensar e deixo que ele seja inteligente por mim (tenho uma preguiça mórbida de pensar). Quando ele fala, só faço responder com um “é verdade, é verdade”, e ficar besta, admirando-lhe o cérebro musculoso. O que acontece é que quando nos juntamos para ver TV, é ele quem vê a TV; eu, na verdade, assisto a ele, e apenas torço para que a TV dê a deixa para ele falar (coisa que nem precisaria fazer, já que ele encontra deixas até em reclame do Wellaton). Já disse a ele: “Rapaz, as suas observações deviam ser transmitidas em closed caption. O país ia virar do avesso em três dias”. Modesto, me diz apenas que eu estou exagerando, mas eu garanto ao leitor que não estou.

Posted by Radamanto at 12:27 AM

julho 12, 2003

µA = µB ; µB = µC ; mas µA diferente de µC - Assim é a Estatística e por isso é legal

Andei envolvido com as estatísticas. É coisa fina! Desde os métodos de coleta de dados até os cálculos todos. O mais interessante do livro que usei é a bibliografia, de dar água na boca: How To Lie With Statistics, Use And Misuse of Statistics, Tainted Truth, livros que ainda vou ter.
“Se torturarmos os dados por tempo suficiente, eles acabarão por admitir qualquer coisa”, disse alguém, pra mim, alguma vez (como Montaigne, sofro da memória).
O que eu mais gosto na estatística é a “moda”, de nome tão simpático, e a “f.d.p”, pela piada boba. Depois, o que eu gosto é a parte esotérica (manipulação do Chi-quadrado).
Infelizmente, aprendi apenas a parte paramétrica. A não-paramétrica é mais interessante, pois que usa medianas em vez das médias, o que, suponho, deve esquentar as coisas e permitir muito mais falcatruas.
As falcatruas, claro, são o coração da estatística (assim como o roubo é o coração do truco).
Estica um alfa aqui, despreza um dado ali e voilà!, eis uma estatística para apoiá-lo. É conhecido o hábito dos pesquisadores de sumir com cobaias que se negam a produzir os resultados esperados, o que dá até pra desculpar. Piores são os erros metodológicos, o uso de ferramentas estatísticas sem a verificação prévia das condições necessárias para uso daquela estatística.

Exemplo grátis: a USP está cheia de gente que faz ANOVA e não testa normalidade nem igualdade de variâncias. O cara estabelece o método antes de checar se os dados permitem determinada estatística (claro que para certos tipos de experimento - fisiologia/drogas, por exemplo -, é mais que razoável supor uma distribuição normal, mas a “suposição segura é a mãe da cagada”, como diz o outro). Quando o cara chega na banca, ninguém fala nada à respeito do omissão; uns porque não sabem, outros por “camaradagem”. Ainda bem que ninguém se interessa em replicar as tranqueiras produzidas pela USP (vou dizer que “nem tudo é tranqueira” para agradar aos chatos).
Voltando a falar sobre roubos na coleta de dados (ou posterior modificação dos dados), vale lembrar o caso Mendel.
R. A. Fisher analisou os resultados dos experimentos de Mendel com hibridização e constatou que os dados observados estavam demasiadamente próximos dos resultados esperados. Diz o Fisher: “Os dados foram sem dúvida sofisticados sistematicamente e, após examinar várias possibilidades, não tenho dúvida de que Mendel foi ludibriado por um auxiliar de jardinagem, que sabia muito bem o que seu chefe esperava de cada experimento”. Fisher aplicou um teste qui-quadrado e concluiu que havia uma probabilidade de apenas 0,00004 de uma concordância tão grande entre os resultados esperados e os observados. Claro que o “auxiliar de jardinagem” fica por conta da polidez de Sir Ronald Fisher.

Ainda sobre as estatísticas, fiz uma pequena coletânea de casos curiosos pra vocês, casos de pobremas banais do mundo estatístico, mormente de pesquisas de opinião. Poderia chamar-se “Idiotice Demonstrada à Maneira dos Estatísticos”. Lá vai:

1. O método bárbaro da estimativa por suposição:

De boa suposição, o inferno está cheio. Mais cheio ainda está o Brasil, para onde as pessoas são mandadas quando não há lugar no inferno. É divertido acompanhar as estimativas de público de um determinado evento, cada jornal citando uma fonte (polícia militar, organização do evento, o Xunda, o Lôcha...). A última parada gay, por exemplo. Eu vi estimarem o público em 800 mil pessoas e em 100 mil pessoas. E assim as marchas de sem-terra, o público de quermesses, etc.
Agora, uma comparação entre a estimativa das “fontes oficiais” e a estimativa por método decente:
Quando o Papa visitou Miami, as tais “fontes oficiais” estimaram a multidão em 250.000 pessoas, mas, utilizando fotos aéreas e grades, o Miami Herald chegou à cifra bem mais precisa e modesta de 150.000 pessoas.
Ou seja, para estimar com certa decência o número de pessoas num ajuntamento público, basta um helicóptero e uma máquina fotográfica, mas ainda se prefere as tais “fontes oficiais”, forças terríveis e obscuras.

2. A pergunta tendenciosa:

Ross Perot, candidato à presidência dos Eua em 92 e 96, certa vez formulou a seguinte pergunta em um questionário distribuído aos eleitores: “O presidente deve ter o poder de vetar decisões do Congresso?” Noventa e sete por cento das respostas foram “sim”. Entretanto, o percentual das respostas “sim” caiu para 57% quando a perguntinha foi: “O presidente deve ter, ou não, o poder de vetar decisões do Congresso?”
Outro fator que compromete ao infinito é a ordem dos itens a serem considerados numa pergunta. Por exemplo, uma pesquisa alemã formulou as duas perguntas abaixo:

I - O leitor diria que o tráfego contribui em maior ou menor grau do que a indústria para a poluição atmosférica?
II - O leitor diria que a indústria contribui em maior ou menor grau do que o tráfego para a poluição atmosférica?
Quando o tráfego foi mencionado em primeiro lugar, 45% acusaram o tráfego e 32% acusaram a indústria. Quando a indústria foi mencionada em primeiro lugar, 24% acusaram o tráfego e 57% a indústria.
Il tedesco è mobile / qual piuma ao vento / muda d'accento / e di pensiero...

3. O desejo de sair bonito na foto:

Quem admite coisas como porquice, mau-caratismo, passagem pela prostituição? Eu.
Mas os outros, não. Por exemplo, numa pesquisa telefônica realizada nos Euá, 94% das gentes disseram que lavam as mãos toda vez que usam o banheiro. No entanto, observações em banheiros públicos dos Euá mostraram que o percentual efetivo é de apenas 68%. Ou seja, além de querer dominar o mundo, o americano é porco e mentiroso.

4. Amostra vagabunda:

Um programa de TV americano (sempre eles) fez uma pesquisa tipo tele-900, em que se pagava US$ 0,50 para responder se a sede da ONU deveria permanecer nos Euá ou não. Os resultados mostraram que 67% queriam que a sede da ONU saísse dos Euá (fico imaginando aquele predião navegando para outras terras, como as corretoras do início d´O Sentido da Vida). Outra pesquisa, utilizando métodos mais católicos, revelou que na verdade 72% dos porcos yankees queriam que a sede da ONU permanecesse nos Euá.
O que acontece é que a pesquisa auto-selecionada, do programa de TV, é uma bela porcaria. Só o ranheta vai participar (é tão ranheta que paga para dar sua opinião!).

Conclusão

Discutir, por exemplo, a proibição do porte de armas através de estatística faz pouco ou nenhum sentido, na medida em que seria necessário um certo conhecimento de estatística para ver “quem rouba onde” (roubo vai ter, pode estar certo). E que deputado sabe estatística? E jornalista?
Parece-me mais razoável invocar outros princípios para a discussão, evitando a “prova” estatística (estatística, a rigor, não prova nada).
Neguinho adora usar correlação, por exemplo, como se isso estabelecesse uma relação de causa e efeito entre os dados (um pecado). É fácil que a correlação dê margem a interpretações erradas ou estapafúrdias. Há um caso que vou contar aqui: Certa vez, um pesquisador de um país que eu esqueci estava investigando o decréscimo populacional (humano) do seu país. Tentava estabelecer uma correlação com algum outro dado. Coincidiu de que, no período em que estava envolvido no problema, deu com um gráfico do decréscimo populacional das cegonhas no país, e viu que as coisas se ajustavam. Engraçadinho que era, publicou um estudo estabelecendo uma forte correlação entre o decréscimo da população de cegonhas e da população de humanos, dando margem à conclusão de que são mesmo as cegonhas que trazem os bebês.
Assim é a Estatística e por isso é legal.

Posted by Radamanto at 4:30 AM

julho 11, 2003

Cão que não late, morde

Perto de casa tem um cachorro que, de tão nervoso, não late. Ele segue você por toda a extensão do portão bufando, engasgando, grunhindo, engolindo o latido. Você vê aquele cachorro em dispnéia agônica, louco de ódio, e pensa logo: “Mas não parece até uma pessoa?” Sim, esse cachorro - ignoro se Rex ou Átila - parece uma pessoa, ou melhor, um tipo. É toda uma ilustração de psicologia.
O problema, como se vê, é que o cachorro se sente oprimido por quem passa diante da grade que o separa da rua. A pessoa está passando na rua (passeio público, segundo Eça de Queirós) e o cachorro sente como se aquilo fosse uma afronta. O cachorro, na verdade, tem medo de sair na rua. É um tímido, um tímido ressentido. Como todo tímido, acha que tudo se refere a ele, tudo é com ele, só se faz as coisas para ele. Assim, a pessoa passando na rua está, no mínimo, o esnobando, uma vez que a pessoa “sabe” que ele não pode sair dali. “É uma esnobação e uma provocação” - pensa o cachorro.
Agora, vamos continuar o experimento. A pessoa está passando em frente à grade, vê o cachorro tendo o ataque de ódio e vai abrir o portão para ele sair (digamos que seja um Protetor dos Animais). O que faz o cachorro? Morde a pessoa. E morde por quê? Porque tem medo. Tem medo da pessoa (que só sabia odiar protegido pelo portão) e tem medo da liberdade. Acha uma afronta que a pessoa o convide a sair para rua. “É uma esnobação e uma provocação” - pensa o cachorro. A pessoa “sabe” que ele tem medo da rua, que é um medroso, e também sabe que ele a odeia. Só pode ser provocação.
Vejam que descrevi um tipo, ou melhor, tentei descrever. Vou explicar melhor.
O cachorro é aquele sujeito lendo blogs enquanto espuma de ódio. Tudo que escrevem é para provocá-lo, para esnobá-lo, para humilhá-lo dos tênis ao boné. “Não pode” - pensa ele, e limpa a espuma no punho da camisa. “É tudo para me oprimir. É um complô contra mim”. E o que estão fazendo seus “opressores”? Qual a atitude que tomam contra ele? Passeiam na rua - nada mais que isso. Passeiam, conversam entre si, falam mal de uns, falam bem de outros, comentam uma besteira ou duas, etc. E o cachorro lá, espumando.
Se alguém chega até ele e o convida, por exemplo, a participar da conversa, vejam o que faz o cachorro: morde. “Não é possível. Mas se ele sabe que eu o odeio! Só pode ser provocação, esnobismo! Tenho que morder mesmo”. O mordido nem sabe o porquê daquela reação, pensou que aquele sujeito, tenso daquele jeito, devia estar louco para entrar na conversa. Nunca havia suspeitado que o outro pudesse odiá-lo pelas bobagens que diz. Sabia que poderia alimentar uma antipatia ou outra, mas não se imaginava odiado daquele jeito. É um susto e um espanto, e uma revelação psicológica de brinde.

Posted by Radamanto at 7:33 PM

A minha glória estatística

Vejam aquela cifra do desemprego. O décimo terceiro algarismo depois da vírgula sou eu. Percebam que abano a mão no final da fila, um sujeito de terno e óculos.
Sou o mais novo desempregado do Brasil e não me agüento de orgulho. Sempre quis fazer parte do número, da cifra, da porcentagem. Eis que agora estou de terno na fila do desemprego. E de gravata grená.
Realizei dois sonhos ao mesmo tempo: virei desempregado e comprei um terno (e gravata grená). As duas coisas são lindas e combinam. Eu tenho uma idéia antiquada das coisas. Para mim, o sujeito desempregado deve vestir terno. E suar dentro do terno, o suor demonstrando a tensão do desemprego, o desconforto do terceiro-mundista encapado num terno. Ando me sentindo “do povo”, o bigodinho suado, a cara lustrosa de gordura, de sebo, os piolhos excitados pelo calor. Estou com uma cara de aparecer em Jornal Hoje, de aparecer comentando a má situação do país. Imagino até meu gesto plástico, teatral, apontando para o final da fila e dizendo para a repórter: “Pois é. É isso aí...” Pena não ter filhos para citar.
Agora só vou andar de terno (e gravata grená). Se mendigo for, ainda assim estarei de terno. Puído, roto, comido de baratas, mas ainda este terno a cobrir minha nudez. Se arrumar emprego em repartição pública, vou trocar o terno para aquele modelo com couro nos cotovelos, que é o terno de funcionário público (e também do intelectual de roça). Só de uma coisa não abro mão: a gravata grená.
Aliás, estou louco para preencher uns formulários. Por quê? Porque lá sempre tem “desempregado” para a pessoa assinalar, e é lá que eu vou me afirmar na condição. Também espero ansioso que a LBV ou a APAE me liguem, assim eu digo: “Infelizmente, não posso contribuir. Estou desempregado, sabe como é”.
Tenho agora a estrela na testa, o apelo erótico do desempregado (de gravata grená), a humildade pungente dos sem ocupação. Mais um tempinho e vou desenvolver a pureza do famélico, e depois a morte em passeio público. Ao final, o enterro do indigente, o único enterro de indigente com terno e gravata grená. Vai ser a glória.

Posted by Radamanto at 5:42 PM

julho 1, 2003

Futebol, alegria do povo

Eu sou grande fã do futebol. Assisto quase todos os jogos que passam na TV e mesmo alguns em rádio AM. Acho estranho quem não gosta de futebol, tenho preconceito de quem não gosta de futebol.
Futebol é, antes de tudo, prazer humorístico. Ver num mesmo escrete Zidane, Ronaldo e, valha-me Deus!, Michel Salgado e Hierro: como entender? Como não rir?
Michel Salgado é um showman. Adoro quando ele faz cagada e ainda vai reclamar pros outros (que nunca revidam, acho que por constrangimento piedoso).
O futebol é pastelão. O belíssimo gol de Júlio César, por exemplo (seguido daquele do Silvio Luiz). O atual campeonato nacional conta ainda com Aderaldo (do Vitória), o zagueiro artilheiro, e Robinho, o ciclista inútil (por que não compra uma ergométrica?).
Há também figuras marcantes da história do futebol, como Gralak, ex-zagueiro cujo maior mérito era jogar a bola na área cobrando lateral (dizia que a força nos braços vinha dos tempos em que trabalhava num matadouro). Roberto Cavalo, Tupãzinho Talismã, Mazinho (autor de um belíssimo lance na Copa de 94), Narciso (ex-zagueiro do Santos que acreditava saber fintar), Van Gaal (o palhaço)...
Houve também equipes bastante sui generis no futebol, como o Grêmio de Paulo Nunes e Jardel, que praticava o futebol às cabeçadas (esquemão cruza que eu cabeceio até que uma hora a gente faz).
Uma das minhas saudades proustianas é acompanhar a J-League na TV Cultura. Clássicos imortais com Kashima Antlers x Verdi Kawasaki. E a torcida era quase toda de mulheres, os gritos (e aplausos) da torcida eram todos femininos.
Falando em futebol internacional, o último campeonato espanhol foi muito bom (Real Madrid x Osasuna, por exemplo). A melhor coisa do campeonato foi, sem dúvida, a narração de Silvio Luiz. Jamais me esquecerei das figuras do “homem do bumbo”, do goleiro Supla, do “time da Teresona” (maneira como se refere ao Rayo Vallecano, time peba presidido por Teresa Rivero), do juiz das costeletas de Emerson Fittipaldi, etc. Espero em Deus que a Bandeirantes continue transmitindo a liga espanhola.
Também gosto da mídia esportiva (Kajuru, Chico Lang, Milton Neves, Flávio Prado, Dadá Maravilha!, tudo uma beleza). Muitas das melhores manchetes são da imprensa esportiva. Por exemplo, a manchete do Olé na véspera de Brasil x Inglaterra pela copa última: BRASIL x INGLATERRA: QUE PERCAM OS DOIS (pra quem não lembra, a Inglaterra que desclassificou a Argentina). E tem aquela outra, de um jornal hondurenho, depois daquela infame derrota do Brasil para Honduras: EXISTE UM TIME PIOR QUE HONDURAS: O BRASIL.


Quarta agora vai ter a grande final Santos e Boca. Espero rir pra não chorar.

Posted by Radamanto at 12:24 AM