outubro 27, 2003
Esclarecimento
Dentre os wunderblogs, quero dizer que represento o poder das matas e das florestas. Meus atos e palavras são todos inspirados pela energia telúrica, pela Deusa-mãe e por Jair, o homem enciclopédia. Os elementos que me compõem são a terra, a água, o ar e a paixão.
Reafirmo meu compromisso com o leitor de continuar lutando contra tudo isso que aí está.
P.S.: Alguém pode pensar que paguei para entrar aqui, o que é uma calúnia. Na verdade, bastaram algumas bombas e delicadas ameaças para que o Mestre cedesse de bom grado aos meus apelos.
outubro 23, 2003
Somos uma família, uma família de amor
Vejo documentário sobre hippies auto-sustentáveis na TV.
Os hippies têm uma comunidade que chamam de ecovila (do grego oikos, do latim villa). Propõem-se a viver só deles, produzir tudo o que consomem mas... um dos hippies dá entrevista em frente ao computador da comunidade (o sistema operacional é Windows ME, provavelmente pirateado).
Os hippies se gabam o tempo todo de que não usam agrotóxicos.
Grandes coisa!
Ah! Vejam só! Que descoladinho! Então o senhor hippie faz sua própria horta de almeirão! E sem a ajuda de qualquer “coisa artificial” (sem química, como diz minha tia Neuza)! Que exemplo! Que bonito!
Eu cansei de fazer horta sem química quando eu tinha lá meus oito, nove anos. Sabendo preparar bem a terra e jogando muito esterco, realmente dá pra fazer uma bela horta. Eu, sozinho, garanto que faço uma hortona que dá pra seis pessoas terem salada todo dia o ano inteiro.
Nada de extraordinário em fazer horta auto-sustentável. No entanto, senhor hippie, o senhor controla sua “comunidade alternativa” com Windows ME. Nem o senhor, nem 200.000 iguais ao senhor conseguiriam ter um Windows ME auto-sustentável. A sua comunidade só se auto-sustenta em maconha, almeirão e esterco. As suas roupinhas não parecem coisa de gente auto-sustentável, nem os seus óculos, nem o carrinho que o senhor dirige e muito menos esse reloginho digital que eu vejo o senhor usando. Se é pra ser auto-sustentável, proponho um desafio: o senhor hippie e seu grupinho, além de ter a própria água – eles têm um poço e se gabam disso –, além de ter a própria água terão que produzir o próprio computador e o próprio software. Comecem assim: procurem no sítio da comunidade uma jazida de ferro. Depois, extraiam o ferro, acrescentem carbono (procurem minas de grafite ou queimem uma cadeira) e façam aço. Não precisa ser inoxidável... Tendo o metal, já dá pra arriscar fazer o gabinete do computador (antes, façam uma bigorna, um martelo e o seu próprio fogo auto-sustentável). Sem problema se o gabinete sair meio Flinstones, não estou querendo um modelo chique da Apple.
A seguir, achem petróleo. Com o bendito petróleo em mãos, aproveitem para fazer componentes plásticos, etc, etc...
Sugiro também que plantem seringueiras (vai borracha na vedação do HD). Se o computador não sair, pelo menos dá pra fazer umas bolinhas de látex que as crianças da comunidade vão adorar.
Na seqüência, criem também a solda auto-sustentável, as ferramentas auto-sustentáveis, as placas de circuito auto-sustentáveis e o que mais for necessário para fazer o computador (pode ser um CP-200). Uma vez que a máquina esteja pronta, é hora de partir para o software.
Diga para aquele retardado da comunidade que fica o tempo todo tocando violão, obrigando aquelas pobres crianças a repetir dezoito vezes que “somos uma família, somos uma família de amor”, diga para aquele retardado que chega de violão e que agora ele vai desenvolver um sistema operacional com as crianças da comunidade. Não vale usar livro, tudo tem que sair da poderosa e harmoniosa mente hippie. Vale usar as forças da natureza (cristais, elementais, ervas, deusa-mãe, etc) e queimar incenso, se o senhor acha que isso pode ajudar...
Veja, senhor hippie, a sua bostinha de ecovila não faz nada. Nada! Só planta almeirão, maconha, “produz” a própria água e, de quebra, cria uns malas iguais ao senhor (eu não perdôo aquele idiota fazendo as crianças repetirem que “somos uma família, somos uma família de amor”). No entanto, o senhor põe a cara na televisão para sugerir que adotem a porcaria da sua comunidade como modelo. Modelo de quê? De almeirão auto-sustentável?
E tem outra coisa: como o senhor mesmo disse, a tal ecovila não tem renda auto-sustentável (óbvio), sendo que o dinheiro que sustenta essa joça são umas palestras que o senhor sai dando por aí. Como o senhor prega um modelo de comunidade que, além de não conseguir fazer o próprio computador, não consegue sequer ter uma renda decente? Quando todo o mundo for uma ecovila, vamos conseguir dinheiro dando palestras para os ETs? (que, por certo, deverão vir para admirar e dar risada do planeta Ecovila).
Olha, senhor hippie: ...não... deixa pra lá...
outubro 22, 2003
Da movies
Fui feliz por esses dias com The Apartment (O Matadouro), Some Like It Hot (Tem Quem Faça Gostoso) e The Seven Year Itch (Fogo na Tanga). É pena, não consigo encontrar The Lost Weekend (A Marvada).
Incrível: alguns filmes você encontra na prestigiada Juãosom da Vargas, locadora que tem fama de ter de tudo (inclusive O Triunfo da Vontade, Olympia, Aurora, talvez até A Chegada do Trem à Estação), mas você só encontra os filmes em Betamax! Deve ser a única com Betamax no acervo. Se duvidar, os caras te oferecem vídeo-laser.
O gordinho atendente da Juãosom usa óculos de aro grosso (menos grosso que o meu, é verdade). Você olha para o gordinho e pensa: "ele usa óculos de aro grosso. Beleza, mesmo que eu só saiba o título do filme em inglês, ele vai saber qual é". Ou mesmo que você diga: "quero todos os filmes do David Lynch que tem anão", ele vem e traz pra você, igual a um porquinho ensinado. E ele nunca vai confundir David Lynch com David Lean, Einstein com Eisenstein, Chaplin com Chapolim. Mas não é assim. Você pede as coisas pro gordinho e ele não sabe se tem ou não. Você diz: "tem o Lawrence da Arábia"? Ele responde: "não sei, vou ver no computador". Como já estou escolado, fico vigiando o rapaz digitar no computador. Ele procura e estoura um "NÃO ENCONTRADO" na tela do computador. "Não tem esse filme" - diz, com cara de jacu. "Tenta escrever o 'Lawrence' com w" - sugiro educado. "Ah, tem sim, vou pegar".
Nessas que é boa de sacanear o gordinho. Você chega no balcão e pede na cara-de-pau: "o que que tem do Kieslowski?". Ou: "tem Koyaanisqatsi"? Claro, ninguém é obrigado a saber escrever Koyaanisqatsi, mas o gordinho não sabe digitar Lawrence, Billy, Hitchcock, Kubrick, Monroe. Acho que nem Nelson Pereira dos Santos o desgraçado acerta (escreverá Nelson com m). Eu perdoaria isso em qualquer um, menos no gordinho. E sabem por quê? Porque o gordinho usa óculos de aro grosso e é branquelo, como se vivesse no escuro das salas de cinema. O gordinho é um impostor. Eu adoraria que os meus atendentes de locadora fossem todos cult, esnobes, adorassem o cinema iraniano ou filmes vietnamitas com "papaya" no nome, que usassem óculos com o aro da grossura do dedão do pé. Isso por um motivo simples: eles pelo menos conheceriam o nome das coisas e saberiam o que tem e o que não tem, que é o que mais me interessa como cliente (apesar que também é gostoso revistar a locadora atrás dos filmes que a gente quer ver).
Falando nisso, uma leve digressão. Vocês já viram neguinho que pergunta para os atendentes da locadora se tal filme é bom? Já vi a cena muitas vezes e sempre me vem a mesma tentação: ir à seção de pornôs, pegar "Foder Anão É Bom", ir ao balcão e perguntar à mocinha da locadora: "este filme é bom"? Se ela responder um "não sei" (98% de chance), saio da locadora reclamando alto: "porra, como não sabe? Trabalha na locadora e não sabe dizer se o filme é bom?"
Uma decepção de dois dias atrás: Erik, o viking.
Prefiram As Aventuras do Barão de Munchausen.
outubro 1, 2003
Deu angústia no Dasein
Carioca passa a mão na bunda de turista e fica achando que “gringo é otário”. Há! Há! Há!
Até os argentinos são mais espertos que nós, vide o saldo de gols. Time brasileiro vive dando desculpa de que os argentinos são “mascarados”, que vencem na catimba, que vencem na pressão... Ué, mas o brasileiro não é o malandro, o bonitão da bala Chita? Que seja mais esperto, mais catimbeiro e cínico que o argentino. A verdade é que nós não valemos nada. Brasileiro acha que é esperto mas não sabe nem negociar acordo com o FMI.
Gente ingênua e sonhadora como Ariano Suassuna quer preservar e incentivar a “cultura nacional”. E acha que cultura nacional é o Círio de Nazaré, o Congado, a festa de Parintins, maracatu rural, a devoção a Lampião. Meu amigo, vá se foder. Quer fazer graça? Vem dançando samba, filha da puta. Desculpem-me, eu estou nervoso.
Daqui pra frente, não tem mais palavrão. Já estou na minha hidro, fumando meu cachimbo.... relax total... Leio de novo a Vida de Alcibíades, do velho Plut. Que belo filho da mãe era o Alcibíades. Eu vou falar pra vocês: eu invejo o Alcibíades. Que dândi, que dândi! Em escola filosófica, estou com o dandismo e não abro, viva o Alexandre Soares! Levar a vida com estilo é a glória do homem. A benção Lord Henry, a benção Sr. Mencken, a bênção Paulo Francis, meu amigo Jacaré, a bênção Lord Russel, a bênção Calígula, o finado Júlio César, a benção Diógenes, Górgias, DGR, Alexandre, o outro, peço a bênção a todos vocês.