novembro 13, 2003

Radamancia

Espero ansioso por alguém, como uma menina de maria-chiquinha, lambendo um lollypop na esquina, vestidinho curto e cintado.
Espero o tio que oferece balões em troca de algo mais.

Ele virá e processará um autor de blog pela primeira vez, e abrirá jurisprudência, e verá que é bom.
Vejo discussões sobre o “tipo de mídia” dos blogs e o tal “fenômeno da Internet”. Vejo neofrankfurtianos pós-modernos tentando enquadrar blogueiro em boteco. Vejo uma bola azulada, meio opaca, do tamanho de um capacete, com uma espécie de bico que puxa de lado, por onde vaza o tempo.
Haverá bandeiras desfraldadas com legendas sobre a Revolucão Digital.
Símbolos e Mitos, Ficção e Realidade, Kleiton & Kledir e a peste sobre vossas duas casas.

Posted by Radamanto at 4:04 AM

Poulaga, o jogo da semana

Estarei jogando hoje às 18:30.
Procure por Hen-i-Ball.
Meu character é Pinko.

Posted by Radamanto at 3:37 AM

novembro 12, 2003

"Cidadania", palavra triste quando se perde um grande amor

A 200 metros da minha casa, um novo carrinho de cachorro-quente. O nome do "estabelecimento": Fome Zero.
O tiozinho usou inclusive o logo da campanha, só faltava levar processo ou ser acusado de ferir o espírito de cidadania.

Nota confessional

O calor insuportável tem me feito pensar em suicídio 5 vezes ao dia. Meu único alívio é chegar em casa e vestir a cueca que deixo na geladeira.
Amigo meu, mais radical, costuma também deixar o papel higiênico no refrigerador. Uhh, delícia...

Posted by Radamanto at 2:48 PM

novembro 11, 2003

Frescuras

Ficaram admirados porque Chico Buarque escreveu Budapeste sem nunca ter posto os pés na cidade. Não imagino o que se passa na cabeça do pessoal.

Jonathan Swift, óbvio, esteve em Liliput, Laputa, Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib e Japão . Assim como Dante (o outro, não o cão) esteve no inferno, no purgatório, no céu. E vai saber Deus da vida secreta de Monsieur Flaubert.

A marca da maldade

Sujeito chega e diz, afetadinho: “Você já leu Camus? Não?! Ai, mas você tem que ler Camus!”.
Por instantes, hesito. Não adianta, é irresistível:
“Meu amigo, tenho que ler é a puta-que-te-pariu”.

P.S.: O mesmo vale para “você já ouviu Shostakovich?”.

Posted by Radamanto at 6:47 PM

novembro 9, 2003

O golpe da cervejaria

O único momento histórico em que queria estar presente.
“A gente vai lá e pula na garganta dos caras da mesa ao lado”.
“Antes vamos terminar essa rodada e tomar mais uma pra dar coragem”.
Meu instinto adivinhatório sussurra-me datas importantes do futuro: o Carnaval de Sangue, a Noite dos Longos de Gala, a Queda da Zulmira, a Revolução dos Coxos , a Noite de Santo Expedito e o Natal Sem Fome.
Sempre fui contra a História, acho feio fofocar a respeito das gerações passadas. Em relação às coisas que nossos antepassados fizeram, penso que deveríamos guardar um silêncio de cavalheiros. Citar Robespierre à mesa é uma gafe imperdoável.

Posted by Radamanto at 7:17 PM

novembro 7, 2003

Saudades de Portugal

Me peguei hoje, 17h19m , tendo saudades de Portugal.
No início não achei que aquele sentimento tivesse algo a ver com Portugal. Supus outro instinto se desabrindo em mim, uma bichice talvez... Não era o caso. Realmente eu sentia uma tremenda saudade de Portugal. O estranho é que, à exceção do Gato Fedorento, atualmente não leio quase nada que vem de lá. Por que, então, a saudade de Portugal? Eis minha tese sociológica: todo brasileiro tem saudade de Portugal. Escrevam aí: todo brasileiro tem saudade de Portugal. Até o brasileiro japonês e negro tem saudade de Portugal.

Sinto falta principalmente do rio que passa pela minha aldeia.
Também sinto saudade do Império Português. Mais ainda: sou sebastianista. É isso, sou sebastianista. Creio em Antônio Conselheiro e Lobo Antunes .
Aproveitei o sentimento e fui baixar uns fados no Kazaaaaa. Eu não deveria ter feito isso. Cada fado que eu ouvia era uma punhalada no peito. Acabei chorando, o olhar perdido no horizonte, fitando o leste melancolicamente. Ai, como eu gostava que uma caravela viesse me resgatar, Dom Sebastião pilotando a nave, levando-me de volta para minha terra.
Do Pessoa:

A Europa jaz, posta nos cotovellos:
De Oriente a Occidente jaz, fitando,
E toldam-lhe romanticos cabellos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovello esquerdo é recuado;
O direito é uma angulo disposto.
Aquelle diz Italia onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se appoia o rosto.

Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Occidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

europa.jpg

Reparem no "olhar sphyngico e fatal" de Portugal.

Posted by Radamanto at 7:45 PM

Campanha nacional de desincentivo à leitura

No caminho para a livraria, passo por uma academia. Para chamar a atenção, a academia tem paredes de vidro, e as pessoas que passam diante da academia vêem as pessoas lá dentro pedalando em bicicletas que não saem do lugar e suando em esteiras em que você pode correr parado. Sempre que passo pela academia, me ocorre o pensamento: “cretinos”. Como não sou de pensar muito, nunca havia dado seqüência ao xingamento, contentando-me em agredir mentalmente uma atividade que considero deplorável (freqüentar academias).
Cheguei a livraria, peguei minha pilhazinha de livros, fui para a mesa do café. Acendi um cigarro, pedi “o de sempre” para a garçonete, abri um livro. Comecei a ler as primeiras linhas (“Hell's Kitchen, em Nova York, era provavelmente o lugar mais quente do mundo naquele verão de 1946”).
Num refluxo gástrico do inconsciente, me voltou o pensamento: “cretino”. Desta vez, dei seqüência ao pensamento: “múmia, besta quadrada, palhaço, jacu”.
Meu comportamento era tão idiota quanto o daquelas pessoas da academia, com a desvantagem de que eu não ganharia um tórax musculoso.


Posted by Radamanto at 6:44 PM

novembro 5, 2003

Vestir tanga é o maior barato

Piscina, bola colorida, mulheres de biquíni. Uma partida de biribol.
Cerveja, bastante cerveja, e umas caipirinhas. Todo mundo rindo alto, o sol refletido nos dentes da menina mais bonita. É quarta-feira, mas metafisicamente é sábado. As costas ardendo, um mergulho e dá aquele alívio gostoso. O aparelho de som toca Pixies bem alto ("on a wave of mutilation, wave of mutilation...").
As meninas dão gritinhos de incontida alegria. Os meninos brincam de brigar de mentirinha.

Posted by Radamanto at 4:30 AM

Bola ou Campo?

Depois do par-ou-ímpar, escolhia sempre “campo”. Nunca entendi quem escolhia “bola”. Assim também prefiro que o Glorioso jogue em casa. Ouvir minha torcida gritando “timinho” para o Corinthians me deu uma satisfação maligna, como de uma criança observando a aranha chupar a mosca.
Queria saber o que se passa na cabeça de quem escolhe “bola” (assim como queria saber o que se passa na cabeça de alguém que torce para o Corinthians; só a subnutrição explica). Só pode ser fetiche, o mesmo fetiche, por exemplo, de quem quer jogar com as pretas no xadrez (por que, Deus, abdicar do controle inicial? Só pra jogar com as pretas e se sentir “do mal”?). Falando em xadrez, os tabuleiros Xalingo tem um detalhe que confunde quem está aprendendo a jogar. É o seguinte: a logomarca da Xalingo vem impressa logo ao lado das casas do tabuleiro, só que quando o tabuleiro está na posição correta de jogo (casa preta à esquerda ), a marca vai estar nas laterais do tabuleiro, não nas bases. Cansei de ver gente jogando na faculdade com o tabuleiro invertido. Era um prazer. Chegava junto aos jogadores e começava a observar a partida, fingindo compenetração. Não passava cinco minutos e alguém encostava em mim para também assistir a partida. Geralmente a pessoa chegava e já ia me perguntando, já que eu estava observando a partida: “Quem está ganhando?”. Os jogadores, ansiosos pela opinião de um observador externo, suspendiam a concentração para ouvir meu veredito:
“Sei lá, o tabuleiro está invertido”.

Posted by Radamanto at 4:29 AM

novembro 3, 2003

Fazer graça, dançar samba depois do almoço

Faço parte daqueles que acreditam que ontem é passado, amanhã é futuro e hoje é uma dádiva, por isso chamado presente.
Somos todos pessoas especiais, não sei por que o McDonald's nos rejeitaria o emprego.
Emoção e aventura é a vida nas classes baixas.
A National Geographic nunca mandou equipes de repórteres para documentar a vida das minhas empregadas, um desserviço ao jornalismo. A primeira era macumbeira, a segunda teve um filho recém-nascido raptado, a terceira perdeu todos os bens numa enxurrada, a quarta abandonou o emprego para abortar, a quinta tentou envenenar o marido enchendo o feijão de raticida (“e o desgraçado só teve uma dor-de-barriga” – contou-me às gargalhadas). Dá pra ver que não peço referências a quem trabalha para mim, mas ando pensando em reconsiderar minha atitude liberal.
A única coisa que faço questão nas minhas empregadas é que saibam passar as calças com vinco. É a primeira e única ordem que consigo dar. Sei que grande parte da minha atitude leniente em relação às empregadas vem do fato de eu não me sentir à vontade para exigir algo de alguém pagando uma merreca por isso. “Passa a calça com vinco” já é uma ousadia. Não gosto de parecer um feitor das galeras de Ben-Hur
Eu queria ser triliardário. Seria um Medici, um Borgia. O dinheiro me traria uma liberdade pródiga. Exigiria o talento...
Poderia ditar o gosto. Sem precisar ser um crítico chatinho, eu poderia ditar o gosto. Melhor, poderia deixar o Ruy Goiaba ditar o gosto, e lhe pagaria milhões por isso.
Todo dia atenderia os interessados no meu dinheiro, segurando um flûte de champagne e dando meu veredito com o polegar. Não precisaria explicar minhas estranhas razões, mas faria questão de dizer os motivos de recusa aos que não recebessem as graças de meu bolso.
“Você tem uma cara esquisita e diz “assaz”, não vou produzir o seu filme”.
“Ninguém nascido em Rondonópolis pode ser escultor, mas se quiser tentar a carreira de pianista eu te pago cem mil por mês. Você tem um jeitão de pianista”.
“Não acredito que alguém feio possa escrever bonito. Esqueça a idéia do livro, mas passe no caixa e pegue uns dez mil para diminuir a tristeza. Se quiser, eu te banco uma plástica, daí nós podemos discutir a idéia do livro novamente”.
“Só pago a sua peça se você vestir o protagonista de índio no segundo ato. Short Adidas, camiseta de candidato a vereador e chinelo Havaianas. Uma pena azul na cabeça e ele tem que fumar Continental. Sim, o ato todo. Dane-se, não me importa que o personagem seja um aristocrata francês do século XVIII. É pegar ou largar”.
Seria doce mandar no mundo. Zeppelins gigantescos com o escudo do Glorioso cruzando os ares do mundo (passagem a R$ 1,99 com isenção de tarifa para santistas). Ter o jornal de maior circulação mundial e, de vez em quando, não publicar a edição diária, desculpando-se com os leitores no dia seguinte, dizendo que “ontem não teve jornal porque todo o pessoal estava de ressaca”. Financiar a candidatura de Maria Alcina à presidência da Colômbia.
As idéias para fazer gracinha são infinitas e seria cansativo insistir nos exemplos.
Nunca fiquei impressionado com nenhuma das “extravagâncias” dos milionários atuais, pois não se miram no exemplo das mulheres de Atenas.

Posted by Radamanto at 4:18 AM