junho 25, 2004
- Você veja só, morreu o velho caudilho.
- Velho caudilho? Que chavão. Daqui a pouco começa a falar do cadinho da cultura brasileira. Cadinho parece palavra de mineiro.
- Mas você não gostava do Brizola?
- Eu? Eu, não. Mas era esperto, fazia merda aqui e ia pagar imposto no Uruguai.
- Não fala assim, foi uma tragédia nacional. Não viu nos jornais?
- Vi. Mas gostei mais da morte do Sérgio Vieira.
- Pois é, já são uns 300 dias sem Sérgio Vieira.
- E o Tim Lopes, então.
- Mas tragédia mesmo foi o Senna.
- A Aids não perdoa ninguém.
- Eu acho que mais tragédia foi Canudos.
- Que é isso! A maior tragédia foi o Descobrimento. Infeliz o dia.
- E o Golpe? Pior foi o Golpe! De um dia pro outro puseram a Jovem Guarda na rua e começaram a torturar. Mataram o Werner Herzog e tudo. Expulsaram o irmão do Clodovil.
- Aí é sacanagem mesmo.
- E teve também aquele acidente com o Fiat 147 em Goiânia. Matou um monte de gente. Era 88, não?
- O ano do Fiat?
- Não. O ano do acidente.
- Ahh... foi. Acho que foi. O ano das Diretas também.
- Como é que eles gritavam? Diretas-tá, diretas-tá... Comprei um quilo de Diretas, pra fazer manobra, pra fazer manobra-brá. Comprei um pé de porco, diretas-tá, pimenta calabresa, diretas-tá...
- Algo assim, algo assim. E tinha o Ulysses, lembra?
- Ah, nunca li Joyce. Mas gostava das músicas.
- Sim. Como era aquela? “Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina.”
junho 24, 2004
Apocalipse segundo Reginaldo
E soou a terceira trombeta.
- Aí, não! Aí já é demais! Se o Gabriel está tocando em Dó e o Miguel está tocando em Mi, você entra com Sol, meu filho. É tão difícil assim? Diz pra mim, é tão difícil assim, fófi?
Os anjos param, se entreolham, não entendem nada. Quem era aquele sujeito, afinal?
Era Reginaldo, cenógrafo e diretor artístico.
- Pode parar! Pooooode parar! Mas que apocalipse é esse, gente? Olha a caracterização desses gafanhotos antropóides! Parece ala da Unidos do Cambuci. Ai, que vergonha, Senhor.
Reginaldo era dado a esses ataques.
- E olha essa Besta! Olha essa Besta! Parece uma besta do Fúria de Titãs, um Godzilla de massinha. Isso aqui é um apocalipse, baby. Eu quero som e fúria, glory and thunder.
E a Besta não entendia nada. Na sua indecisão, olhou para o Senhor e perguntou, constrangida: “Continuo?”. O Senhor fez com a mão para esperar um pouco.
Reginaldo, esbaforido, tentava botar ordem naquilo tudo. “Isso está parecendo o Circo Garcia” – gritava descontrolado. “Eu não tive que agüentar a vida inteira para terminar tudo desse jeito... desse jeito... amador!”
Reginaldo era muito exigente.
Num outro canto, dois anjos conversavam distraídos, um deles com o pé recostado no muro da Jerusalém Celeste, o antebraço apoiado na trombeta. Papeavam sobre o andamento das coisas, etc. Um deles apostava que o Nestor da rua Clementino Cunha não seria aceito, o outro protestava, dizendo que o Nestor, apesar “daquilo”, era bom sujeito e ia acabar bem.
Reginaldo interrompe:
- As gracinhas aí são figurantes?
Os anjos suspendem a discussão.
Reginaldo repete a pergunta:
- Figurantes? – batendo o pezinho, ele insistia.
O da trombeta toma a palavra.
- Não. Somos protagonistas. Ele canta no coro e eu toco na...
- Então os senhores estão fazendo o que aí no canto? Isso aqui não é ensaio, não, meu povo. E esse figurino! Quem cuida do guarda-roupa disso aqui? Quero falar com o figurinista já. Barra italiana em manto angelical não dá, eu não agüento. Vocês estão mais pra anjinho-da-guarda que pra anjo exterminador.
Reginaldo se afasta, deixando os anjos desconsolados. “Mas eu gosto tanto de barra italiana”.
Em sua inspeção geral, Reginaldo se intrometia em todos os detalhes.
Nada escapava a Reginaldo, cenógrafo e diretor artístico.
- E esses mortos levantando do túmulo?! Parece um clip do Michael Jackson. Mais energia, mais movimento! Mas com graça, com graaaça, leveeeeeza (Reginaldo acompanhava as palavras com gestos de ênfase). Não é todo dia que se ressuscita, vocês parecem uns mortos-vivos. Hahaha! Entenderam a piada?
Reginaldo era insuportável.
Cansado daquilo tudo, o Senhor manda o pessoal prosseguir. “Por favor, tentem ignorar, ele deve estar num dia ruim.”
E pelo apocalipse todo tiveram que aturar Reginaldo.
- E olha a Grande Prostituta, parece um travecão. Isso é o fim, O FIM.
junho 23, 2004
Vita Meravigliosa
Aprendi a ler aos 6 anos, na 1° série, por instrução de Tia Iracy, minha detestada professora. Tia Iracy era uma velha insuportável, sempre de mau-humor, sempre gritando com os alunos, uma pessoa que, evidentemente, nunca tivera vocação para ensinar, como grande parte dos professores. Mas, bem ou mal, foi ela quem me ensinou a ler, ou melhor, aprendi a ler observando Tia Iracy ensinando os outros alunos, já que nunca senti que ela estivesse tentando ensinar nada a mim diretamente.
Aprendi rápido e peguei um gosto tal pela leitura que me dedicava a ela umas 5 horas por dia, ainda aos 6 anos. Lia qualquer coisa que estivesse na minha frente: gibi, pedaço de jornal catado na rua, livros velhos achados pela casa, catálogo telefônico (ficava lendo os anúncios, as dicas para economizar, etc).
O problema maior era que em casa não tinha muita coisa pra ler, meus pais nunca tiveram o hábito de ler. Eu ficava igual a um peste pedindo para meu pai me levar na banca, para comprar alguma coisa. Ele me levava freqüentemente, mas não adiantava muito porque um gibi a pessoa lê em 20 minutos, e eu queria ter coisa disponível para ler o dia todo. Acabado o gibi, eu voltava para meu desespero de viciado. Saía pela casa procurando qualquer coisa, nem que fosse um jornal de embrulhar verdura jogado no lixo, ou ia ler de novo a lista telefônica (“relação dos códigos para discagem internacional”, eu gostava porque eu aprendia uns nomes de países que não conhecia).
Foi nesse cenário de desespero que algo fabuloso aconteceu. Minha tia Naná, informada do meu estado de miséria e aflição, me trouxe de presente 5 volumes da Enciclopédia Trópico, que estavam abandonados num canto qualquer da casa dela. Foi o melhor presente que recebi em toda a minha vida! Fiquei mais feliz que o Maradona recebendo um pacote de pó no hospital. Tinha coisa ali pra suprir meu vício por um bom tempo.

Lia tudo várias vezes e adorava, principalmente pelo texto. Em nenhum outro lugar eu achava um texto tão legal quanto na Trópico. Leiam este maravilhoso exemplo, o início do Documentário N.º 354, Os Perfumes:
“Se os leitores gostam de romances, irão encontrar, neste que estamos para narrar-lhes, o sugestivo e misterioso encanto das histórias de aventuras.
A história começa nos albores do mundo, quando a Terra, obedecendo às leis do Criador, começava a dar vida a criaturas vegetais feitas de água, de vento, de sol, de poeira das rochas.
Aconteceu, então, que no misterioso trabalho de transformação orgânica que se realizava no seio daquela natureza selvagem, o acre odor de terra recém-saída do caos e aquele dos vapôres que perambulavam pelo espaço, as exalações dos vulcões e das águas em fermentação, se transmudassem, aqui e acolá, em hálitos leves e tênues, brotados dos cálices e de empôlas carnosas: as flores.”
Mais adiante:
“Respirando aquela zona de ar mágico que circunda as belas flores multicores, o homem sente nascer em si a ânsia de agarrar o eflúvio e, como este se evola e desaparece com o vento, ele se põe a refletir sobre a maneira de captar e aprisionar os perfumes.”
Isso sim é literatura infantil, não aqueles livros para retardados que empurram para as crianças.
E as ilustrações da Trópico eram as melhores. Dêem uma olhada:

Aqui vemos o Pássaro Lira, “notável por sua bizarria e beleza”.
“Vive habitualmente isolado, às vezes aos pares, vagueando cautelosamente no coração do bosque. Inicia sua perambulação às primeiras luzes da aurora e não a interrompe senão ao escurecer ; sobrevindo as trevas, desfere um breve vôo e vai empoleirar-se em um ramo baixo, onde transcorre a noite inteira." Não é fantástico o Pássaro Lira, o que vagueia no coração do bosque?
A gravura ao lado refere-se ao Documentário N.º 368, sobre Frederico da Prússia.
Jovem, Frederico tentou fugir da corte de seu país, pois seu pai, homem bruto, não entendia seu desprezo pela arte militar e suas delicadas aspirações intelectuais. Durante uma viagem, escapou da escolta com seu amigo, o tenente Katte. Logo foram recapturados e devolvidos ao rei. Como punição, Frederico “foi obrigado a assistir o fuzilamento de seu amado amigo, quando chorou e desmaiou”. Vejam como a ilustração representa bem o momento em que o pobre Frederico chora e desmaia. O criado atrás de Frederico já se posiciona para amparar a queda do delicado e quase desfalecido príncipe.
Esta uma representa o jovenzinho Paul Gauguin (Documentário N.º 471) que, “vivendo em um ambiente familiar não muito tranqüilo, demonstrou desde criança um caráter inquieto e difícil, que o levou, com apenas nove anos, a correr a primeira aventura de sua vida, fugindo de casa”. Não é perfeita a cena? Nunca imaginei diferente uma criança fugindo de casa. Vejam como está triste e indefeso o pobre Gauguin, atravessando um bosque trevoso de Joãozinho & Maria. Toda criança que foge de casa, foge de vara no ombro com uma trouxinha na ponta. O ilustrador não poderia ter feito melhor.

Ainda sobre Gauguin, aqui vemos o “pintor de alma nômade e aventureira” no final de sua vida, quando se refugiou no Taiti.
“O clima do Taiti e sua vida desregrada pioraram sempre a insegura saúde de Gauguin. Eis o grande artista, quando surpreendido por um daqueles terríveis ciclones que, freqüentemente, assolavam a ilha.”
Repararam na dramaticidade da cena? O desespero plástico, vital da taitiana que está no quarto com Gauguin? Que estavam “fazendo coisas” quando “surpreendidos por um daqueles terríveis ciclones” fica apenas subentendido.
Há ainda o detalhe de um pobre coitado que corre ao fundo, tentando escapar inutilmente “daquele terrível ciclone”.

Nesta cena temos Ticiano expulsando o jovem Tintoretto do seu atelier.
“Tintoretto tornou-se em breve tão hábil que superou a arte do mestre. Dizem, de fato, que Ticiano, com inveja da habilidade do discípulo, expulsou-o do seu atelier.”
Vejam o momento exato em que o vil e invejoso Ticiano expulsa o pobre Tintoretto que, incrédulo, épaté, ainda mistura as tintas na paleta. As roupas negras de Ticiano denunciam seu caráter mesquinho.

Mesmo as ilustrações mais prosaicas da Trópico têm um ‘vigôr’ particular. Vejam esta cena de uma lontra caçando, por exemplo. Reparem na expressão feroz da lontra. Nunca uma lontra, animal de feição tão estúpida, foi tão terrível em seu ataque.
Eis o paraíso islamita. “Um encantador lugar de delícias, ele é povoado por huris, belíssimas jovens cujo nome, em língua árabe, significa ‘aquela dos olhos negros’. As huris dançam para os bem-aventurados, cuja vida, no Paraíso, não é privada de prazeres terrenos; realmente, além da companhia das amáveis huris, podem gozar, ainda, de ótimos alimentos e finíssimas bebidas.”
Essa gravura abalou meu catolicismo seriamente. Quem quer tocar harpa pela eternidade depois de saber de um paraíso desses? Gostosas pra caramba, as huris.


Por último apresentamos um guerreiro rajput, a segunda casta em importância entre os hindus. Notem que um rajput é guerreiro o tempo todo, mesmo quando sentado à toa na calçada. Percebemos pela dureza de sua expressão que ele deve passar o dia todo assim, hirto, impávido, esperando que apareça qualquer inimigo para desafiá-lo.
Jamais arrisque a vida contra um guerreiro rajput.
Monteiro Lobato nunca me fez falta, o mundo apresentado pela Trópico já era interessante demais. Não recorria à ficção em busca de maravilhamento; o mundo de verdade - a Trópico me dizia - já era maravilhoso o suficiente.
Só fui atrás de ler ficção com uns 12 anos de idade, mas sem grande entusiasmo.
E, se querem saber, ainda hoje prefiro Marco Polo a qualquer Júlio Verne.
(Ai de quem disser que Marco Polo é ficção!)
junho 22, 2004
Lee Van Cleef montado numa girafa

Clique aqui para ouvir o tema de Lee van Cleef montado numa girafa.
junho 18, 2004
Já começou a caravana de divulgação do wunderlivro

Eis o wunderbumba. Se você vir o wunderbumba passando, é só gritar “hello, sailor” bem alto que paramos para você comprar seu exemplar. Mas não vendemos apenas livros: também temos chaveiros, banners, bonés, uma coisa de pendurar no cabelo com um W desenhado, curau e pamonhas.

Fotos da excursão
No wunderbumba, o clima é de descontração total.

Aqui vemos, em primeiro plano, vestindo touca, Alexandre Soares. A latinha de cerveja, ele está segurando só de brincadeira, fazendo uma piada interna.
Ao fundo e no centro, Ruy Goiaba olha para a câmera.
Nos revezamos na direção do possante wunderbumba, pois não é pequeno esse Brasil véio sem porteira. Eis uma foto do momento em que César Miranda, ao volante, conduzia nossos destinos.

junho 17, 2004
junho 16, 2004
Exercício de estilo - Música sertaneja de raiz
Vou contar essa história
Que sempre ouvi falar
É história muito triste
Dá inté pena de contar
A história do negrinho
Que morreu de trabaiá
(tchan-tcharan, tchan-tchan-tchan, tchan-tcharaaan)
Seu patrão, homem marvado
Um japonês enfezado
Botou o negrinho na roça
Pra puxá enxada e arado
Todo dia e toda noite
O negrinho era obrigado
A trabaiá sem descanso
Que nem pobre condenado
(tchan-tcharan, tchan-tchan-tchan, tchan-tcharaaan)
Debaixo de chuva e sol
O negrinho labutava
Puxando carro de boi
Carpino pasto na enxada
E o japonês, homem ruim
Olhava e dava risada
“Esse nego dá mais gosto
Que ver boi na invernada
Um só dele dá mais lucro
Que judeu em negociata”
(tchan-tcharan, tchan-tchan-tchan, tchan-tcharaaan)
Mas o tempo foi passando
E o negrinho adoeceu
O japonês, homem bruto
Mais sovino que ateu
Não socorreu o negrinho
Que de trabaiá morreu
(tchan-tcharan, tchan-tchan-tchan, tchan-tcharaaan)
E em seu leito de morte
Ouviram o nego dizendo:
“Japonês filha da puta
Me fez acabá morrendo
Eu que nunca tive culpa
Dele ter pinto pequeno”
(tchan-tcharan, tchan-tchan-tchan, tchan-tcharan
tchan-tcharan, tchan-tchan-tchan, tchan-tcharaaaannn)
Exercício de estilo
De pé entre os objetos do cenário, os olhos ofuscados pela luz excessiva que lhe esgarçava as pupilas, os cabelos desarranjados pelo vento, dançando em harmonia com as copas das árvores ao som de uma valsa eternamente inacabada, perdido ali entre pensamentos incompletos e minúsculas lembranças que lhe despertavam um sentimento de nostalgia do que nunca se viveu – quimeras não sonhadas de uma existência futura -, a alma completa, cheia de vastidão e firmeza, naquele momento decisivo em que cumpria a profecia jamais anunciada, com a fronte limpa e voz segura ele disse:
- Ah, nóóó... Zuô! Zuô!
Já esse não é exercício de estilo
De costas contra a parede, o rosto esculpido em suor, Reginaldo arfava enquanto repetia, aterrorizado:
- Não menstrua em cima de mim! Não menstruuuua em cima de mim!
junho 15, 2004
O expediente do canalha

Depois proíbe o fumo, as armas, o tangram...
Mais um pouco e já marcha sobre a Polônia.
Um belo dia bate na porta da sua casa, perguntando se 'alguém veste couro neste domicílio'.
Daí o sujeito chegou na porta do céu e foi falar com São Pedro:
- E aí, meu santo? Como faz pra entrar no céu?
- Olha, pra entrar aqui no céu tem que doar um quilo de alimento não perecível.
- Hmm... Serve açúcar?
- Ah, não. Tá todo mundo de dieta aqui. Tem anjo que tá tão gordo que o pessoal da Terra confunde com avestruz quando estão por lá de serviço.
- Sal, então?
- Sal, desde Sodoma e Gomorra que não tem faltado.
- Farinha?
- Farinha?! Ihhhh... Se eu te disser que aquela chuva de maná foi pra aliviar o estoque você acredita?
- Mas aí ficou ruim pro meu lado, santidade. Não tenho nada pra doar... Serve sangue? E se eu doar sangue?
- Mas o senhor está achando o quê? Que aqui é o palácio do conde Drácula?
- Opa, desculpa, desculpa... E não rola, tipo assim, um trabalho voluntário?
- Trabalho voluntário é lá no inferno. Aliás, essa é exatamente a função do inferno: abrigar aqueles que querem fazer trabalho voluntário. A gente nem chama o inferno de inferno aqui no céu. A gente diz Projeto Espírito Cidadão. O inferno nada mais é que uma ONG do Capeta.
- Ah... Mas e aí? Como é que eu fico?
- Às 13:30 tem ciclo de palestras no purgatório. Marilena Chauí, Marcos Bagno, Ricardo Amorin, Sérgio Abranches e Lya Luft. Se você conseguir assistir até o final, pode vir pra cá que eu te entro. Aliás, já te coloco direto um par de asas.
junho 11, 2004
Era um sujeito de bem com a vida. Divertido, espirituoso, antenado, bem informado, sempre disposto a ajudar ou dizer algo relevante. Um chato, enfim.
junho 9, 2004
- É aqui, não é? A gente já chegou?
- Sim, agora começa o passeio.
- Não vão pôr aquelas gradinhas no vidro do carro?
- Acho que não precisa.
- Mas e se eles vierem pra cima da gente? E se subirem no carro?
- A gente espanta eles com pedrada, acelera o carro, sei lá.
- Olha lá um! Olha lá um!
- Cadê? Cadê? Onde?
- Ali! Que é aquilo que ele tá segurando? Olha só que coisa!
- Acho que são uns cadernos, uma calculadora também.
- Mas é muito legal, né? Nunca tinha visto assim de pertinho.
- Esse aí deve ser da Poli, ou da Física, talvez.
- Ai, não chega mais perto, não. Fico com medo.
- Nããã... Esses daí são mansos. Não fazem nada. Vamos descer do carro pra passar a mão?
- Não desce do carro! Não desce do carro!
- Deixa de ser medrosa. É mansinho esse aí. Olha a cara dele, não faz mal a ninguém.
- Tá, eu acredito. Mas fica aqui comigo. Vai que vem outro, dos bravos, e pega na traição.
- Ok.
- Olha lá!
- Que foi?
- Cê viu o que ele fez?
- Não.
- Ah, lá!
- Ulha! Que será que ele tá fazendo?
- Acho que tá repassando a matéria. Vai ver tem prova hoje.
- E esse povo lá estuda?
- Acho que os da Física estudam.
- É, tem uns que são meio esquisitos. Diz que dessa espécie aí da Física só tem macho.
- Mas como é que se reproduzem?
- Vai saber.
- Vamos ver os outros, senão a gente fica o dia inteiro vendo esse um.
- Verdade.
- Pra onde, então?
- Hmm... Pra Fefeleche?
- Direto pra lá? Não quer dar uma passadinha na Psicologia, na ECA pra ir esquentando?
- Ah, mas diz que a Fefeleche é o mais legal. Vamos direto pra lá.
- Tá bom então, ué.
(...)
- Olha que legal!
- Nossa! É um mais diferente que o outro, né?
- O que aqueles juntinhos ali estão fazendo?
- Parece que estão pintando uma bandeira, uma faixa.
- Cê consegue ver o que tá escrito?
- M... m... mu... muer... muerte!
- Muerte?!
- Parece que é.
- E o que tem embaixo?
- Cuba, acho. O que tá escrito no meio eu não consigo ver.
- Muerte... Cuba... Legal, né?
- Interessante. Interessante mesmo, viu.
- Olha lá, estão levantando a faixa. O de boina é o mais animado. Gostei mais do de boina.
- Eu gosto mais daquela ali de bata, com uns penduricalhos no cabelo.
- Ela grita mais, né.
- O que eles estão gritando? Consegue entender?
- Psss... Peraí.
- Acho que é um negócio de América Latina, só consigo entender a parte da América Latina.
- Tão legal, né?
- E não é?
- Será que pode dar pipoca pra eles? Eu quero dar pipoca pra eles.
- Ah, mas eles cheiram muito mal. Depois a gente vai ficar com esse cheiro.
- É, verdade.
- Olha aquele cabeludão! Que baita cabelo, hein?
- Um cabelão, benza Deus.
- Vamos passar pertinho com o carro.
- Vamos! Vamos!
- Cê viu só a olhada que ele deu?
- Brabo, né? Por que tão bravo?
- Esses daí são assim mesmo. Tem até mais bravo, é uma coisa da espécie.
- Tão legal ver eles assim, soltos. Ai, promete que me traz mais vezes?
- Claro, querida
- Olha aquele lá com o megafone...
junho 8, 2004
junho 7, 2004
As maravilhas da caneta BIC

Com uma única caneta BIC você pode:
- Pegar a tampinha e quebrar nos dedos, passando-a sob o dedo médio e apoiando as extremidades da tampinha no dedo indicador e anular. Feito o encaixe perfeito da tampinha, basta bater os três dedos com força numa superfície plana e dura, ou mesmo no pulso do outro braço (quanto mais técnica, menos força é necessária).

- Fazer aquela mágica de balançar a caneta entre o indicador e o polegar, criando a fantástica ilusão de que a caneta está mole.
- Fazer aquela outra mágica de passar a caneta bem rápido de uma mão para a outra, segurando-a horizontalmente, conseguindo o místico efeito de fazer a caneta parecer mais curta.
- Esfregar a caneta no cabelo e grudar papeizinhos nela com a eletricidade estática (os livros de ciência sempre recomendam “um bastão de âmbar e um pedaço de seda”. Deve ser gozação, né? “Bastão de âmbar e pedaço de seda?” “Assim, os pequenos diamantes serão atraídos pelo ‘bastão de âmbar’, comprovando a diferença de carga elétrica”).
- Usar a ponta da tampinha para tirar sujeira da unha.
- Tirar a carga, a tampinha e o vedador traseiro da caneta e usar o tubinho como zarabatana (os melhores projéteis são as bolinhas de papel molhadas na saliva ou pedaços de borracha de apagar Mercúrio n. 5).

Com duas canetas BIC você pode:
- Fazer a mágica da caneta que gira em volta da outra. É assim: pegue uma caneta BIC e tire a carga. Pegue a cabeça de alguém e arranque um fio de cabelo. Dobre o fio de cabelo e insira as duas pontas no tubinho da caneta, deixando apenas um pequeno laço de cabelo para fora. Coloque de volta a carga na caneta, deixando ainda um pequeno laço para fora (mais ou menos uns 4mm de diâmetro). Este laço vai ficar preso pela carga da caneta.
Encaixe a ponta de outra caneta no laço, segurando verticalmente. Gire levemente a caneta que está com a ponta encaixada no laço. Uma caneta vai ficar girando em volta da outra, unidas pelas pontas, mas como é difícil de ver o laço de cabelo vai parecer que elas estão unidas por uma força misteriosa que apenas você domina.

Maneiras de fazer a caneta BIC voltar a funcionar quando ela falha
- Esfregar a carga entre as mãos (com as mãos em posição de prece).
- Esquentar a ponta da caneta com um isqueiro. Com cuidado, claro.
- E a maneira mais eficiente e perigosa: tire a carga da caneta e coloque sobre uma superfície plana. Pegue o tubinho da caneta e use como rolo compressor na carga, esmagando a carga do fim para a ponta. Às vezes acontece de sair a ponta da carga, se você puser muita força. Não tem como colocar a ponta de volta (e se você tentar, vai ficar todo manchado, claro). Esta técnica é recomendada somente para profissionais.
junho 3, 2004
Piadas que melhoram o Brasil x Argentina
- Esse Crespo é liso, hein.
- E esse Delgado é grosso bagarai.
junho 2, 2004
As coisas como são
Meu irmão é semi-analfabeto, mas é um gênio.
É um caso de inteligência natural, associada a uma memória fabulosa.
Se lembra de tudo que houve antes e depois de qualquer cena (de filme ou real) que você disser. Se lembra perfeitamente de coisas que aconteceram há mais de 10 anos. Se você disser a ele que "não é como você está dizendo", ele pega o momento a que você se refere e diz a seqüência toda de fatos que se seguiram ou que antecederam àquele momento nos mínimos detalhes (é um chato).
Meu irmão não lê, mas gosta muito de ler.
Meu irmão não escreve mas, quando escreve, escreve muito bem (gramaticalmente ruim, mas com estórias fabulosas).
O coitado sofre muito, pois seus amigos passam longe do seu gênio, e ele tem que conviver com essa gente.
Certa vez foi para a universidade. Voltou desesperado pra casa, balbuciando "gente imbecil, só tem imbecil".
Não fez amigos na universidade, a não ser um ou dois bons professores que perceberam a hostilidade com que foi recebido entre os alunos e suspeitaram que ali havia um sujeito que valia a pena. Meu irmão ficou com a fama de mais burro da classe; só tomava pau, não via motivo para se esforçar. Seus coleguinhas de turma também não perdoaram seu costume de gargalhar diante da burrice dos outros, ainda mais que ele sempre se recusava a dizer por que estava rindo, afinal.
Ficou com fama de burro, esquisito, capitalista (cursava economia).
Às vezes ele me ligava desesperado, eu sou o irmão mais velho: "Mas é assim? É assim?" "Sim, é assim. Se quiser terminar o curso, saiba que vai ser assim".
Foi embora.
É assim.
junho 1, 2004
O grande Professor Cipolla
Las leyes fundamentales de la estupidez humana
Primera Ley Fundamental: Siempre e inevitablemente todos subestiman el número de individuos estúpidos en circulación.
Segunda Ley Fundamental: La probabilidad de que cierta persona sea estúpida es independiente de cualquier otra característica de esa persona.
(El profesor Cipolla realizó amplios estudios demográficos con muy diversos sectores de la población. Inicialmente afirma haber comprobado que entre los trabajadores "de cuello azul" existía una fracción σ de estúpidos y que esa fracción era mayor de lo que esperaba, con lo que se confirmaba la primera Ley. Sospechando que podía deberse a falta de cultura o a marginalidad social estudió muestras de trabajadores "de cuello blanco" y a estudiantes, comprobando que entre ellos se mantenía la misma proporción. Más sorprendido aún quedó al medir el mismo parámetro entre los profesores de universidad. Decidió por tanto expandir sus estudios hasta la élite de la sociedad, los laureados con el Premio Nobel. El resultado confirmó el poder supremo de la naturaleza: una proporción σ de laureados con el Nobel son estúpidos)
Tercera Ley Fundamental (o de Oro): Una persona estúpida es aquella que causa pérdidas a otra persona o grupo de personas sin obtener ninguna ganancia para sí mismo e incluso incurriendo en pérdidas.
Cuarta Ley Fundamental: Las personas no estúpidas subestiman siempre el potencial nocivo de las personas estúpidas. Los no estúpidos, en especial, olvidan constantemente que en cualquier momento, lugar y circunstancia, tratar y/o asociarse con individuos estúpidos se manifiesta infaliblemente como un costosísimo error.
Macroanálisis y Quinta Ley Fundamental: La persona estúpida es el tipo de persona más peligrosa que existe.
Mais:
Puesto que las acciones de una persona estúpida no se ajustan a las reglas de la racionalidad, de ello se deriva que:
a. generalmente el ataque nos coge por sorpresa.
b. incluso cuando se tiene conocimiento del ataque, no es posible organizar una defensa racional porque el ataque, en sí mismo, carece de cualquier tipo de estructura racional.
El hecho de que la actividad y los movimientos de una criatura estúpida sean absolutamente erráticos e irracionales, no sólo hace problemática la defensa, sino que hace extremadamente difícil cualquier contraataque. Y hay que tener en cuenta también otra circunstancia: la persona inteligente sabe que es inteligente; el bandido es consciente de que es un bandido y el desgraciado incauto está penosamente imbuido del sentido de su propia candidez. Pero al contrario que todos estos personajes, el estúpido no sabe que es estúpido y esto contribuye en gran medida a dar mayor fuerza, incidencia y eficacia a su poder devastador.
Para quem quiser um pouco mais (com os gráficos).
Agora, o livro mesmo, com todo o resto: eu tenho, você não te-em, eu tenho, você não te-em...
(Aliás, Signore Provinzano, quando é que vais me arrumar o original, hein?)
Um texto para ler durante o Brasil x Argentinha
La supersticiosa ética del lector
J. L. Borges
La condición indigente de nuestras letras, su incapacidad de atraer, han producido una superstición del estilo, una distraída lectura de atenciones parciales. Los que adolecen de esa superstición entienden por estilo no la eficacia o la ineficacia de una página, sino las habilidades aparentes del escritor: sus comparaciones, su acústica, los episodios de su puntuación y de su sintaxis. Son indiferentes a la propia convicción o la propia emoción: buscan tecniquerías (la palabra es de Miguel de Unamuno) que les informarán si lo escrito tiene el derecho o no de agradarles. Oyeron que la adjetivación no debe ser trivial y opinarán que está mal escrita una página si no hay sorpresas en la juntora de adjetivos con sustantivos, aunque su finalidad general esté realizada. Oyeron que la concisión es una virtud y tienen por consiso a quien se demora en diez frases breves y no a quien maneje una larga. (Ejemplos normativos de esta charlatanería de la de la brevedad, de ese frenesí sentencioso, pueden buscarse en la dicción del célebre estadista francés Polonio, de Hamlet, o del Polonio natural, Baltasar Gracián.) Oyeron que la cercana repetición de unas sílabas es cacofonía y simularán que en prosa les duele, aunque en verso les agencie un gusto especial, pienso que simulado también. Es decir, no se fijan en la eficacia del mecanismo, sino en la disposición de sus partes. Subordinan la emoción a la ética, a una etiqueta indiscutida más bien. Se ha generalizado tanto esa inhibición que ya no van quedando lectores, en el sentido ingénuo de la palabra, sino que todos son críticos potenciales.
Tan recibida es esta superstición que nadie se atreverá a admitir ausencia de estilo, en obras que lo tocan, máxime si son clásicas. No hay libro bueno sin su atribución estilística, de la que nadie puede prescindir - excepto su escritor. Séanos ejemplo el Quijote. La crítica española, ante la probada excelencia de esta novela, no ha querido pensar que su mayor (y tal vez único irrecusable) valor fuera el psicológico, y le atribuye dones de estilo, que a muchos parecerán misteriosos. En verdad, basta revisar algunos párrafos del Quijote para sentir que Cervantes no era estilista (a lo menos en la presente acepción acústico-decorativa de la palabra) y que le interesaban demasiado los destinos de Quijote y de Sancho para dejarse distraer por su propia voz. La Agudeza y arte de ingenio de Baltasar Gracián -tan laudativa de otras prosas que narran, como la del Guzmán de Alfarache- no se resuelve a acordarse de Don Quijote. Quevedo versifica en broma su muerte y se olvida de él. Se objetará que los dos ejemplos son negativos; Leopoldo lugones, en nuestro tiempo, emite un juicio explícito: "El estilo es la debilidad de Cervantes, y los estragos causados por su influencia han sido graves. Pobreza de color, inseguridad de estructura, párrafos jadeantes que nunca aciertan con el final, desenvolviéndose en convólvulos interminables; repeticiones, falta de proporción, ése fue el legado de los que no viendo sino en la forma la suprema realización de la obra inmortal, se quedaron royendo la cáscara cuyas rugosidades escondían la fortaleza y el sabor" (El imperio jesuítico, página 59). También nuestro Groussac: "Si han de describirse las cosas como son, deberemos confesar que una buena mitad de la obra es de forma por demás floja y desaliñada, la cual harto justifica lo del humilde idioma que los rivales de Cervantes le achacaban. Y con esto no me refiero única ni principalmente a las impropiedades verbales, a las intolerables repeticiones o retruécanos ni a los retazos de pesada grandilocuencia que nos abruman, sino a la contextura generalmente desmayada de esa prosa de sobremesa" (Crítica literaria, página 41). Prosa de sobremesa, prosa conversada y no declamada, es la de Cervantes, y otra no le hace falta. Imagino que esa misma observación será justiciera en el caso de Dostoievski o de Montaigne o de Samuel Butler.
Esta vanidad del estilo se ahueca con otra más patética vanidad, la de la perfección. No hay un escritor métrico, por casual y nulo que sea, que no haya cincelado (el verbo suele figurar en su conversación) su soneto perfecto, monumento minúsculo que custodia su posible inmortalidad, y que las novedades y aniquilaciones del tiempo deberán respetar. Se trata de un soneto sin ripios, generalmente, pero que es un ripio todo él: es decir, un residuo, una inutilidad. Esta falacia en perduración (Sir Thomas Browne: Urn burial) Ha sido formulada y recomendada por Flaubert en esta sentencia: La corrección (en el sentido más elevado de la palabra) obra con el pensamiento lo que obraron las aguas de la Estigia con el cuerpo de Aquiles: lo hacen invulnerable e indestructible (Correspondance, II, página 199). El juicio es terminante, pero no ha llegado hasta mí ninguna experiencia que lo confirme. (Prescindo de las virtudes tónicas de la Estigia; esa reminiscencia infernal no es un argumento, es un énfasis). La página de perfección, la página de la que ninguna palabra puede ser alterada sin daño, es la más precaria de todas. Los cambios del lenguaje borran los sentidos laterales y los matices; la página "perfecta" es la que consta de esos delicados valores y la que con facilidad mayor se desgasta. Inversamente, la página que tiene vocación de inmortalidad puede atravesar el fuego de las erratas, de las versiones aproximativas, de las distraídas lecturas, de las incomprensiones, sin dejar el alma en la prueba. No se puede impunemente variar (así lo afirman quienes restablecen su texto) ninguna línea de las fabricadas por Góngora; pero el Quijote gana póstumas batallas contra sus traductores y sobrevive a toda descuidada versión. Heine, que nunca lo escuchó en español, lo pudo celebrar para siempre. Más vivo es el fantasma alemán o escandinavo o indostánico del Quijote que los ansiosos artificios verbales del estilista.
Yo no quisiera que la mortalidad de esta comprobación fuera entendida como desesperación o nihilismo. Ni quiero fomentar negligencias ni creo en una mística virtud de la frase torpe y del epíteto chabacano. Afirmo que la voluntaria omisión de esos dos o tres agrados menores -distracciones oculares de la metáfora, auditivas del ritmo y sorpresivas de la interjección o el hipérbaton- suele probar que la pasión del tema tratado manda en el escritor, y eso es todo. La asperidad de una frase le es tan indiferente a la genuina literatura como su suavidad. La economía prosódica no es menos forastera del arte que la caligrafía o la ortografía o la puntuación: certeza que los orígenes judiciales de la retórica y los musicales del canto nos escondieron siempre. La preferida equivocacíon de la literatura de hoy es el énfasis. Palabras definitivas, palabras que postulan sabidurías adivinas o angélicas o resoluciones de una más que humana firmeza -único, nunca, siempre, todo, perfección, acabado- son del comercio habitual de todo escritor. No piensan que decir demás una cosa es tan de inhábiles como no decirla del todo, y que la descuidada generalización e intensificación es una pobreza y que así la siente el lector. Sus imprudencias causan una depreciación del idioma. Así ocurre en francés, cuya locución Je suis navré suele significar No iré a tomar el té con ustedes y cuyo aimer ha sido rebajado a gustar. Ese hábito hiperbólico del francés está en su lenguaje escrito asimismo: Paul Valéry, héroe de la lucidez que organiza, traslada unos olvidables y olvidados renglones de Lafontaine y asevera de ellos (contra alguien): ces plus beaux vers du monde (Varieté, 84).
Ahora quiero acordarme del porvenir y no del pasado. Ya se practica la lectura en silencio, síntoma venturoso. Ya hay lector callado de versos. De esta capacidad sigilosa a una escritura puramente ideográfica -directa comunicación de experiencias, no de sonidos- hay una distancia incansable, pero siempre menos dilatada que el porvenir.
Releo estas negaciones y pienso: Ignoro si la música sabe desesperar de la música y si el mármol del mármol, pero la literatura es un arte que sabe profetizar aquel tiempo en que habrá enmudecido, y encarnizarse con la propia virtud y enamorarse de la propia disolución y cortejar su fin.


