fevereiro 23, 2005
Só para dizer "eu te disse" no dia do Juízo Final
A Primeira Guerra foi a guerra dos químicos, a Segunda Guerra foi a guerra dos físicos. A Terceira Guerra será a guerra dos mímicos.
fevereiro 17, 2005
O nous
Renato era, desde o albor da juventude, alguém que gostava das filosofias. Estudava os sistemas dos vários filósofos com dedicação fervorosa, interessando-se pouco ou quase nada por assuntos que não tivessem o estrito objetivo de descobrir a Verdade. Submetia cada sistema de cada autor a um exame escrupuloso, procurando encontrar, aqui e ali, pepitas de conhecimento puro que pudesse incorporar a sua própria filosofia, que vinha construindo desde que recebera aquele folheto acintoso das Testemunhas de Jeová. Seu método de pesquisa da Verdade, basicamente, era uma depuração gradual das verdades fundadas pelo sistema específico que estivesse estudando. Submetia as demonstrações a via formal aristotélico-escolástica, primarcialmente dedutiva, a via dedutiva-indutiva e a indutiva-dedutiva, a demonstração a more geometrico, ao reductio ad absurdum, ao método converso, a dialética-idealista, a dialética socrático-platônica, sobretudo indutiva na busca do logos analogante, ao método circular de Raimundo Lúlio e, finalmente, a dialética-concreta, que inclui a pentadialética, a decadialética, a dialética simbólica e a dialética noética.
"A dialética é meu cavalo" – costumava repetir – "a lógica minha armadura, a imaginação minha lança e a Verdade é o castelo que conquistarei para dar aos homens."
Aos 40 anos Renato decidiu que era hora de ter uma esposa. Fez mentalmente uma apreciação das possíveis mulheres do seu convívio que lhe serviriam bem como companheira e se decidiu por Fabíola, que trabalhava no guichê ao lado do seu no Banco do Brasil. Fez-lhe a corte e conquistou-a no exato momento em que, distraído, bateu com a cara num poste de semáforo enquanto tentava lhe explicar a diferença entre apodítico e apofântico. Ela riu descontroladamente, ele tentou forçar uma piada sobre fenomenologia, e os dois se casaram em março.
Depois de um ano e meio de casados, veio o bebê. Renato queria que se chamasse Parmênides, a mãe queria que fosse Robson. Dona Rosa, a sogra de Renato, desempatou e a criança foi chamada Guilherme.
Renato, quando não estava trabalhando no banco, passava o dia todo em casa, lendo e anotando num caderninho as idéias que coubessem em sua filosofia. A mulher, de licença, passava o dia cuidando do bebê, ajudada pela mãe. Foi quando Renato teve a iluminação por que tanto aguardava.
Numa quarta-feira depois das oito, quando se ouvia a musiquinha dos créditos do Jornal Nacional, o jorro da Verdade Absoluta preencheu o coração de Renato. Alado, transcendente, todo etéreo, foi acender um cigarro na varanda. Contemplava o céu, a disposição das estrelas, e pela primeira vez entendia aquilo tudo. De uma vez para sempre lhe foram reveladas as regras físicas, morais e metafísicas do Universo (que ele rebatizou de Tríade Una da Potência Anímica, TUPA). A Filosofia tinha, afinal, atingido seu ápice na pessoa de Renato. Era o fim da Dialética.
Sua sogra, que até então estava no quarto ajudando a cuidar do bebê, veio até Renato dar-lhe o aviso:
- Precisa de mais fralda. As que você comprou domingo, só tem mais duas.
Renato, calmo, terminou de tragar longamente o cigarro e encarou a sogra.
- E eu com isso?
Dona Rosa não quis começar naquele momento os desentendimentos todos que haveriam de ter pelos anos seguintes. Cordial, disse num tom puramente curioso:
- Como assim, meu filho?
- É isso mesmo! "E eu com isso?"
- Mas o menino já está todo assado. Tem que trocar a fraldinha dele sempre.
- Não vou comprar fralda porcaria nenhuma.
Ainda tentando ser cordial, Dona Rosa fez a pergunta investigativa, sem alterar o tom:
- Mas por quê?
- Porque não trabalho pra vagabundo gastar meu dinheiro em fralda.
- Ma Dio Santo... Como assim?
- O menino, aquele vagabundo. Se ele quiser ter a fraldinha dele, que vá trabalhar pra comprar. Eu que não sustento pilantra dentro de casa!
- Mas é uma criança, homem de Deus!
- E daí?
- "E daí" como? É uma criança, é seu filho!
- E por isso eu vou dar comidinha na boquinha do folgado? Vou comprar fraldinha pra ele? Mas nem pensar! Nem pensar! Ele que vá arrumar o dinheiro dele, com as negas dele, e que não me venha encher a paciência com fraldinha, com comidinha, com nhinhinhinho... Aliás, diz pra mãe dele que é pra parar agora de dar de mamar pra esse vagabundo, que eu ainda chuto a bunda dele dessa casa antes que alguém possa dizer "apeirokalia". Aliás, não diz pra mãe dele, não. Diz direto pra ele, na cara dele, e diz que foi o pai dele que falou!
- Mas, mas... Ele não entende nada, é só um recém-nascido.
- Ô se entende. Ôhohohooo se entende! – Renato se afasta da sogra e vai jogar a bituca na rua. Em um mês morreu de febre-dos-pântanos na África
fevereiro 4, 2005
Deus não é "tipo um bicho que comanda o Universo"
Grande parte das pessoas se converte ao ateísmo por discordar da "hipótese ridícula de um senhor barbudo que habita o céu". Por causa da imagem do barbudo tornam-se descrentes, como alguém que joga fora a Natalie Portman junto com a água do banho. "Coisa mais ridícula acreditar em Deus, coisa mais antropocêntrica. Se os asnos tivessem um deus, ele também teria a forma do Dr. Dirceu, e dormiria num caixão." (Goethe)
Sim, sim, realmente. Eu não acreditaria num deus que fosse, por exemplo, simplesmente energia. "Se Deus fosse energia, a CPFL nos mandaria a conta" – já dizia Carlos Drummond. Também não vejo motivo para acreditar em "uma força". Ou ainda "uma coisa que você pode sentir e que está no todo". Como assim? Está tentando entrar na sua cueca agora? Você está sentindo?

Mais absurda, e igualmente incrível, é a idéia bastante difundida de que Deus é "tipo um bicho que comanda o Universo". Uma espécie de alien numa sala de controle jogando Atari: "Oh, não! Perdi mais uma vida. I was going for the record. Se não fosse aquele anjo tropeçar no fio eu tinha batido aquela minha partida do Matusalém."
Outras definições, mais clássicas, usam a imagem do "motor imóvel do mundo". Como assim, motor imóvel? Faltou gasolina, é isso? Você engatou a primeira? Soltou o freio-de-mão? E se a gente empurrar, Deus pega no tranco?
As atribuições profissionais à divindade também são coisa comum, o mais famoso sendo o "Deus Arquiteto", às vezes chamado GADU. A isso devemos objetar que um arquiteto não resolve todas as questões em que Deus está implicado. Um problema de justiça, por exemplo. Neste caso, um deus que tenha cursado direito certamente seria mais adequado, e para isso existe o "Deus Juiz". Ou um problema de saúde, não seria bom um Grande Arquiteto:
- Senhor, me livra desta hérnia!
- Infelizmente eu cursei arquitetura, cheguei a pensar em fazer medicina, foi minha segunda opção na Unesp, inclusive. Mas teria que morar longe, daí já viu... Sobre sua hérnia, nada posso fazer, mas eu tenho um projeto interessante para reformar aquele seu chalé em Campos do Jordão.
Tem também aqueles que exigem condições para sua crença. Por exemplo: "eu só acreditaria num deus que dançasse". É pra levar a sério? É pra citar na mesa do jantar? É a heresia do "Deus Pé-de-valsa", o que só aparece depois das onze vestindo sapato de verniz? É gnose? A pessoa tem a insolência de fazer exigência e exige uma coisa dessas? "Eu só acreditaria num deus que soubesse a escalação da Seleção de 82" ou "eu só acreditaria num deus que tivesse lido todo o Balzac" não seria menos ridículo. No entanto essas coisas fazem sucesso, fazem sucesso. O duro é agüentar os ateus que jogam o bebê junto com a água fora da bacia.
fevereiro 2, 2005
Histórias de Marco "Milione" Polo
Dos doze barões que vêm à "Festa Branca de Ano-Novo" e de como estão vestidos
O Gran-Khan tem doze barões chamados "quesitan", que são seus doze primeiros filhos. Dá a cada um deles treze trajes diferentes na cor e enfeitados com pedras preciosas, pérolas e outros ricos adornos valiosíssimos. Entrega-lhes ainda uma funda de ouro muito bonita e um calçado de camurça, trabalhados delicadamente com fios de prata. Assim, parecendo reis, é que se apresentam ao seu soberano. Em cada festejo, o Gran-Khan ordena-lhes a roupa que devem usar. Dependendo do que o rei vestir, eles também devem trajar, pois o Gran-Khan tem as mesmas roupas, da mesma cor, com a diferença apenas dos enfeites, que são muito mais ricos e mais valiosos. Já me referi aos trajes, cuja fabulosa riqueza é inacreditável. O soberano faz isto para tornar mais admirável a festa. E ainda quero contar uma grande surpresa: um leão que, levado à presença do Gran-Khan, se curva a seus pés ao vê-lo, reverenciando-o com humildade, como se reconhecesse sua realeza. Este leão anda solto, sem corrente nem laço de qualquer espécie, o que realmente é assombroso e maravilhoso.
De como o Gran-Khan vai caçar
O Grande Rei viaja sobre quatro elefantes, nos quais pousa um palanquim de madeira, muito bonito, estofado internamente com um tecido de ouro maleável e recoberto de couro por fora. O Gran-Khan leva aí dentro doze dos seus melhores girfalcos, bem como diversos dos seus barões para lhe fazerem companhia e divertirem-no. Enquanto o soberano viaja sobre os elefantes, os cavaleiros reais, que cavalgam à volta, avisam-no da passagem dos grous, dizendo-lhe: "Sire, estão passando grous". Ele então manda arrear o teto e, deitado como está, na cama, diverte-se a soltar os girfalcos, que voltam depois ao seu lado, trazendo a presa.