fevereiro 28, 2007
Por que eu nunca vou ver Lost
Porque não gosto de gente perdida em ilha. É um saco esse negócio da pessoa isolada numa ilha. Parece exemplo colegial de teoria da evolução: “Vamos supor uma população de humanos que depois de uma glaciação acaba isolada numa ilha. Olha aqui na lousa, gente. Aqui ó... a iiiiilha... tão vendo? Essas bolinhas aqui são os humaninhos... Daí derrete o gelo e eles ficam nesse espacinho aqui, ilhados. Depois de um milhão de anos pode ser que todo mundo na ilha tenha bigode, e daí já é outra ESPÉCIE HUMANA. Entenderam?”
Quando qualquer tipo de pessoa ou personagem chega a uma ilha, isso deveria equivaler à sua morte:
- E como é que acabou o filme?
- Caiu o avião que o cara tava e ele foi parar numa ilha.
- E...?
- E o quê? Foi parar numa ilha.
- Mas e aí? Que aconteceu na ilha?
- Sei lá. Que diferença faz? Se você me diz que o cara do filme morreu no final, eu não vou te perguntar o que aconteceu com ele no além. Morreu, morreu. Foi parar numa ilha, foi parar numa ilha. Acabou.
Reparem que se as pessoas me ouvissem, Náufrago terminaria aos 20 minutos e quase tocaria no problema da CONDIÇÃO HUMANA, que basicamente é a Helen Hunt namorar um workaholic que trabalha na FEDEX e que cai de avião no mar (pelo menos essa é a definição mais próxima da CONDIÇÃO HUMANA que eu já vi num filme, e é necessário que seja a Helen Hunt).
Mas não. O filme continua. E o que vemos é Tom Hanks tentando sobreviver numa ilha (ele já sobreviveu num aeroporto também. E à guerra do Vietnã. E à Segunda Guerra. E também sobreviveu a uma casa em ruínas e a problemas com sua nave espacial. Basicamente, o Tom Hanks já sobreviveu a tudo, menos à AIDS, que dessa ninguém escapa).
O Senhor das Moscas. Eu li as últimas dez páginas d’O Senhor das Moscas e deduzi tudo o que se passa antes. Se vocês nunca leram, façam o teste. Ou melhor, não façam o teste.
A Ilha do Dr. Moreau. A primeira versão é uma bela porcaria e a refilmagem, pior. E olha que eu nunca assisti a nenhuma das duas.
Piada de náufrago. As pessoas acham que tem muita graça em piada de náufrago, mas é só uma impressão. Tente lembrar de alguma piada de náufrago que tenha graça. A mais “engraçada” delas é aquela do “Cê não imagina quem eu tô comendo... A Sharon Stone!”, que é a piada mais fraca já criada pelo ENGENHO HUMANO.
A frase mais idiota do mundo é aquela "No man is an island". Que quer dizer isso? "No man is an island"?
Sim, claro. Da mesma maneira, "No man is a shoe" ou "Nenhum homem é um porta-copos".
Ilha não presta. A Austrália, que é a maior ilha do mundo, sempre vai ter aquele quê de colônia penal. São os marooneds do mundo. Percebam que até o time da Austrália joga como “o time da colônia penal”.
* Faço exceção à Lagoa Azul, ao livro A Vida Sexual de Robinson Crusoe e à seleção australiana feminina de basquete, que recomendo.
fevereiro 27, 2007
O Sonho Nazista
BROOKLIN, CALIFÓRNIA – Este homem está prestes a mudar a história e determinar os rumos do mais fantástico acontecimento do século.
MEMPHIS, YORKSHIRE – O Doutor Sharel é o principal cientista alemão encarregado de levar a cabo o plano secreto da invasão nazista do Nordeste.
CACULÉ, BAHIA – A dona de casa Salustiana de Maria acaba de chupar um pedaço de rapadura sentada na porta de sua casa.
Estes são os três personagens de uma intrincada trama internacional destinada a destruir toda uma civilização. É esta história que vamos narrar hoje em A CONQUISTA DO NORDESTE – O SONHO NAZISTA.
BROOKLIN, CALIFÓRNIA – É uma manhã de primavera comum no Alabama e Ken Navarro passou a noite em claro tentando avançar num livro de James Joyce munido de apenas três dicionários e um grego deficiente, Patrus Nikopoulos. Navarro é o chefe da contra-espionagem dos aliados e está encarregado de investigar os planos nazistas de expansão territorial em terras próximas à linha do Equador (PNETTPLE).
MEMPHIS, YORKSHIRE - Enquanto isso o Dr. Sharel está indo se encontrar com seu contato em Memphis. O assunto são os planos de uma arma mortal, que poderá garantir o domínio alemão sobre Caculé. Dr. Sharel é considerado um dos maiores cérebros alemães e o principal arquiteto da invasão nazista do nordeste brasileiro. Hitler havia autorizado o plano meses antes, numa reunião secreta em seu bunker na Floresta Negra. O plano de invasão fora batizado de Baionen Betrieb, ou Operação Baião, e consistia na incorporação do Nordeste pelos alemães, que sonhavam em construir ali a futura capital universal do seu Reich. As razões estratégicas dessa escolha eram o clima e o potencial turístico da região, que atrairiam público para o grande resort nazista projetado pelos alemães para durar mil anos.
CACULÉ, BAHIA - Salustiana de Maria está chupando um pedaço de rapadura na porta da sua casa.
SÃO PAULO, SÃO PAULO – Renato Caiado, vereador em São Paulo, acaba de votar a “Lei do Sempre Livre”, que garante o direito de voto às mulheres.
CARIBE, REGIÃO DO CONTINENTE AMERICANO QUE CONSISTE NAS ÁREAS BANHADAS PELO MAR DO CARIBE, SUAS ILHAS E ESTADOS INSULARES, TAMBÉM CHAMADOS DE ANTILHAS OU ÍNDIAS OCIDENTAIS, NOME ORIGINADO PELA CRENÇA INICIAL DE QUE O CONTINENTE AMERICANO FOSSE NA VERDADE A ÍNDIA - O Dr. Sharel encontra Renato Caiado num cruzeiro pela República Dominicana. Renato é o principal contato dos alemães no Brasil e foi instruído pelos espiões nazistas a encontrar-se com o Dr. Sharel em solo neutro. O cientista alemão leva consigo a arma que deverá garantir a desestabilização de Caculé e facilitar a invasão nazista do nordeste brasileiro: uma sanfona envenenada, que deverá ser entregue ao prefeito da cidade. Depois de receber o artefato diabólico, Renato retorna a São Paulo, São Paulo, com ordens de seguir para a Bahia, onde deverá entregar a sanfona a Seu Toinho, prefeito de Caculé, sob a alegação de que se trata de “um presente do amigo Harlot Field (anagrama de Adolf Hitler), filho desta terra que manda lembranças lá de São Paulo”.
FLORESTA NEGRA, ALEMANHA – Adolf Hitler instrui o Conselho Científico Nazista a ensinar nas escolas alemãs a teoria da inferioridade dos nordestinos. Josef Mengele é autorizado a realizar experimentos com acarajé em prisioneiros de Auschwitz.
CACULÉ, BAHIA – Dona Salustiana de Maria acabou de chupar outro pedaço de rapadura na porta da sua casa. Agora ela se dirige à cozinha, em busca de mais rapadura.
BROOKLIN, CALIFÓRNIA – É outra manhã de primavera em Detroit, essa um pouco menos comum, já que choveu granizo pela manhã e chegou a haver uma queda de energia em algumas áreas do centro da cidade. Ken Navarro já desistiu de avançar na leitura de James Joyce, principalmente porque seu grego deficiente, Patrus Nikopoulos, insiste em apontar incongruências na interpretação que Navarro faz de Ulisses. “Só você pra achar que a cena da taverna corresponde ao fígado, ignorante! Só por que taverna é lugar de bebida?! Não é com esse tipo de associação simplista que você vai vislumbrar a grandeza da obra, analfabeto! Oimoi! Oimoi!”
CACULÉ, BAHIA – O prefeito Seu Toinho está em seu gabinete, prestes a receber a sanfona envenenada de Renato Caiado. Antes de aceitar o presente, ele pergunta “quem foi mesmo que mandou?”, e depois especula se o seu suposto conterrâneo Harlot Field seria “aquele Harlot Field de Pedro mais Zefa”. Nervoso, Renato Caiado diz que não sabe responder, mas sua perversidade o leva a fazer ainda um gracejo, e ele tenta encerrar a conversa afirmando que “é um que usa bigodinho e fala raspando no erre”. Seu Toinho diz que “então deve ser o Harlot Field de Raimundo e Maria, ou será que ele é dos Field de lá pras banda do Pajeú?”. Impaciente, Renato Caiado se apressa em entregar a sanfona envenenada ao prefeito, mas por descuido esbarra no instrumento mortal e cai fulminado instantaneamente pelo veneno contido na sanfona. Enquanto isso, Salustiana de Maria chupa outro pedaço de rapadura sentada na porta de sua casa.
BROOKLIN, CALIFÓRNIA – Ken Navarro abandonou a leitura de James Joyce, mas agora corre sério perigo. Ao devolver os livros de Joyce na biblioteca pública de Michigan, ele recebe da bibliotecária a recomendação de ler a obra dos românticos alemães. Navarro acata as instruções e já se dirige à estante para pegar As Paixões do Jovem Werther, de Goethe, mas para sua sorte Patrus Nikopoulos surge detrás da estante de Sociologia e dá-lhe um golpe de muleta no momento em que Navarro estendia a mão para alcançar o livro. “Tá maluco, animal?! Quer se matar, é isso?! Você vai ler essas porcarias e depois eu que vou ter que te agüentar choramingando por aí?! Só faltava agora essa! Um agente do serviço secreto morbidamente lânguido, tomado pelo heroísmo vazio e pela pompa fru-fru do romantismo. Faça-me o favor, viu!”
CACULÉ, BAHIA – Vendo seu estoque de rapadura já no fim, Salustiana de Maria agora está fervendo melaço no tacho. Ela espera conseguir fazer uma boa quantidade de rapadura.
BERLIM, ALEMANHA – Informado por agentes de que o plano para envenenar o prefeito de Caculé fracassou, o Dr. Sharel teme uma punição do alto comando alemão. Ele trabalha agora em outras armas secretas, como a “rede da morte”, uma rede de dormir que estrangula quem nela se deitar, e o “berimbau sônico”, que, se tocado, tem o som amplificado 8.000 vezes, causando uma onda de choque que arrasa tudo num raio de centenas de metros.
No entanto, o Doutor Sharel não teria tempo de colocar seus planos satânicos em prática. Ao sair de uma casa noturna em Munique, na noite de 22 de Novembro de 44, uma rapadura de dureza fora do comum o atingiu na cabeça, causando morte instantânea. Era a contra-espionagem nordestina, que enviou-lhe a morte através de Salustiana de Maria, a lendária “espiã de um dente só”.
Ken Navarro foi condecorado pela sua atuação na Operação Baião e se aposentou do serviço secreto em 82. Hoje vive tranqüilamente em Washington, Distrito de Colúmbia, onde organiza passeios turísticos pelo Grand Canyon.
Patrus Nikopoulos morreu em 62, de crise nervosa, quando Ken Navarro publicou um artigo em que supostamente descobria a influência de Giambattista Vico na obra de Benedetto Croce.
Salustiana de Maria morreu em 53, mas sua atuação como espiã só foi revelada na década de 70. Dizem que nunca anotou a receita de sua rapadura secreta, de dureza fora do comum, para não cair nas mãos do inimigo.
Renato Caiado ressuscitou em 73 e hoje dirige uma concessionária de veículos em Santos-SP.
fevereiro 23, 2007
O Faraó Histórico
- Vamo fazê assim, ó. Vossa Deidade fica de lado, aqui mais pra esse canto.
- De lado de novo? Toda vez esse negócio de posar de perfil.
- Os pobres mortais não estão preparados para olhar de frente vosso brilho em todo seu esplendor. É melhor posar de lado mesmo.
- Bom... Fazer o quê...
- Ah, é fashion assim de ladinho. Valoriza vossa silhueta majestosa.
- Tá bom, tá bom. Já pode parar de puxar o saco e manda bala nesse negócio que eu tô atrasado pra cervejada na casa do Renato.
- É rapidinho. Eu só faço o esboço agora e Vossa Maravilha Celestial pode deixar que eu acabo de memória.
- E aí? Só fico aqui parado, que nem um besta?
- Ah, mas Vossa Majestade tá muito de cara lavada. Não vale a pena fazer mal feito um trabalho que, gente, vai durar pelo menos uns vários mil anos, né.
- Vou botar uma peruca mais charme’s então.
- Tá, mas não vai passar nem um brilhinho? Eu trouxe meu estojinho completo de maquiagem. Tudo coisa fina. Passa pelo menos uma sombra, um lápis pra valorizar os olhos. Tão delicados, os olhos de Vossa Doçura Imperial.
- Que mané sombra! Que mané estojinho! Tá pensando o que, filhote!
- Ai, Majestade, assim até magoa a gente. Tô aqui me esforçando pra eternizar vosso semblante adorável e Vos-...
- Por Osíris! Por Hórus! Por Qebeh... Qebehlse... Qebehlsinu...
- Qebehsenuef.
- Isso, isso. Nunca acerto o nome dessa desgraça, que ele não me ouça. Mas vamos parar de frescura, hein! É pra ser simples. Simples!
- Ai, Majestade, só um lapisinho. A gente dá uma delineada nos olhos, marca a linha da sobrancelha, coisa simplezinha mesmo. Não precisa nem do batom.
- O senhor não chegou a cogitar que eu fosse posar para o meu retrato, que o senhor bem disse que vai durar várias geração humanas, usando batom.
- ...
- Bom, pelo jeito pensou sim.
- Mas é que Vossa Majestade tem os lábios finos. Não custa nada deixar, assim, mais sensual, mais luxo, né.
- Pôta merrda... Eu consinto no lápis, vai. Mas nada de batom!
- Vossa Majestade é tão viril.
- Quieto agora. Passa o seu “lapisinho” aí e vamos terminar logo com essa porcaria.
- Pronto, pronto. Eu dei uma puxada no lápis beeem marcado pros cantos de fora dos olhos, que é pra dar um efeitinho.
- Tá bom, tá bom. Não quero nem ouvir. Acabou, né. Faz logo o esboço aí que eu não quero baixar lá no Renato com todo mundo já bebaço.
- Tô achando Vossa Majestade meio pálido. E se a gente passar assim um ocre, tipo simulando um bronzeamento artificial, que é pra não pensarem também que Vossa Loucura do Nilo é um braçal que passa o dia debaixo do sol.
- Whatever.
- Tá quase pronto. Agora a gente põe uma serpente beeem bonita presa numa tiara toooda de ouro ornando a vossa fronte celestial. Assim, uma naja. Pra dar um ar mais majestoso, mais...
- Mais luxo.
- Olha só, Vossa Majestade tá pegando o espírito da coisa agora. Tá entendido, hein Majestade?
- Outra gracinha dessa e eu te jogo pros crocodilos.
- Ai, Majestade, tô tentando descontrair.
- Sei, sei.
- Agora a gente põe a barbicha postiça, que é um clássico né. Tããão chique. E mais os braceletes, pulseiras, colar. Assim, só pra não parecer que Vossa Maravilha do Egito tá pelado também, né.
- A essa altura eu visto até sutiã pra me livrar de você.
- Hahaha, tão engraçado Vossa Deidade. Isso, agora só falta um elemento pra harmonizar a composição. Segura esse cajadinho rajado e esse chicotinho.
- Não dá pra ser duas latinhas de cerveja?
- Vossa Majestade não quer passar pra posteridade como “o faraó cachaceiro”, né.
- Olha, até que tem título pior, viu.
- Não, né... Aliás, esquece o cajadinho e o chicote. Muito cafona esse negócio de cajadinho. Nunca entendi por que todo faraó tem que posar de cajadinho e chicote. Como que um hype dura 3.000 anos, gente?
- Mas eu vou segurar o que, então, cacete?
- Ai, sei lá. Tudo menos cajadinho rajado e chicotinho.
- Resolve logo, filhão! A essa altura a cerveja já deve ter até esfriado lá no Renato...
- E se for uma íbis? Beeem bonita, beeem vistosa. Ãh? Ãh? Pra mim que combina até com a naja da tiara. Tipo, um elemento celeste, outro elemento beeem terrestre, beeem chão mesmo. Cria uma tensão, né. Ai, que eu tô até vendo que lindo que vai ficar Vossa Celebridade Oriental.
- Você já viu o tamanho de uma íbis, animal? E se pensarem que eu estou enforcando a ave sagrada? Vão apagar meu nome até de pichação.
- Noooossa, é verdade. Que mico, gente. Periga parecer ali que tá destroncando o pescoço de uma galinha, né.
- Olha o respeito
- Já sei!
- Lá vem...
- E se Vossa Majestade segurar um potinho em cada mão?
- Mas, hein?
- É, aqueles potinhos ali. Não são uma graça?
- Mas por que bigornas eu apareceria segurando dois potinhos?
- Ai, sei lá. E por que todo mundo tem que aparecer segurando cajadinho? Potinho, cajadinho, mesma coisa. Mas o potinho é mais luxo, né.
- Eu vou aparecer é segurando a sua cabeça se você demorar mais um minuto.
- Calma, Maje’s. Tá montado já. Mas Vossa Fofura do Deserto vai posar com essa cara seriona?
- Vou, múmia.

fevereiro 5, 2007
I've Got Something In My Front Pocket For You
Época de carnaval, época de homenagear. Minha homenäge a:
Fred Astaire
Oscar Wilde
Mencken
Tolstói
Chesterton
Nabokov (o jovem)
James Joyce
Charles Dickens
Enrico Fermi
Marlene Dietrich
Woody Allen
I've got something in my front pocket for you
Why don't you reach on in my pocket and see what it is
Then grab onto it
It's just for you
Give a little squeeze and say "How do ya do"
There's something in my front pocket
There's something in my front pocket
There's something in my front pocket
A música é do Trey Parker. Peguei do South Park, ep. 805. Como todo mundo pode ouvir, melhor que qualquer coisa que o Cole Porter tenha feito.